
Raquel Fiori construiu uma sólida trajetória acadêmica e profissional nas áreas da Química, Educação e Ciência e Tecnologia de Alimentos, reunindo décadas de experiência dedicadas à pesquisa, à formação de profissionais e à promoção da saúde pública. Licenciada e bacharel em Química pela PUCRS, mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos e doutora em Educação Química pela UFRGS, atuou como Especialista em Saúde no Laboratório Central do Estado e, mesmo após a aposentadoria, continua contribuindo como Conselheira Federal do Conselho Federal de Química. Nos últimos anos, passou a dedicar-se também à escrita, utilizando-a como uma poderosa ferramenta de divulgação científica e de transformação social. Essa vocação pode ser percebida em sua participação em importantes obras coletivas, como Agrotóxicos – Impactos sobre a saúde e o equilíbrio ecossistêmico e Nova Lei de Agrotóxicos: Diálogo entre Juristas e Cientistas, que reúnem especialistas para discutir os impactos dos agrotóxicos sobre a saúde humana, o meio ambiente e os desafios jurídicos relacionados ao tema. Nesta entrevista exclusiva à Revista Conexão Literatura, Raquel Fiori fala sobre sua trajetória, suas pesquisas e a importância da ciência na construção de uma sociedade mais consciente e sustentável.
ENTREVISTA
Revista Conexão Literatura: Raquel Fiori, em Agrotóxicos – Impactos sobre a saúde e o equilíbrio ecossistêmico, você é uma das autoras do capítulo que reúne dados sobre os efeitos dos agrotóxicos na saúde humana no Rio Grande do Sul. Quais foram as descobertas que mais a impactaram durante essa pesquisa?
Raquel Fiori: Uma das descobertas que mais me impactou durante essa pesquisa foi a consistência das evidências que demonstram a associação entre a exposição aos agrotóxicos e diversos agravos à saúde humana. Outro aspecto marcante foi compreender que esses impactos não se restringem aos trabalhadores que aplicam os produtos, mas podem alcançar toda a população por meio da contaminação da água, dos alimentos e do ambiente.
Revista Conexão Literatura: Seu trabalho reúne conhecimentos científicos com uma preocupação prática voltada ao Sistema Único de Saúde. Como a ciência pode contribuir para que profissionais da saúde identifiquem mais rapidamente casos relacionados à exposição aos agrotóxicos?
Raquel Fiori: Fortalecer a capacitação contínua das equipes do Sistema Único de Saúde (SUS), é uma medida estratégica para que a investigação da exposição ocupacional e ambiental faça parte da rotina do atendimento, especialmente em regiões de intensa atividade agrícola. A integração entre pesquisa, vigilância em saúde e assistência permite identificar precocemente os casos, aprimorar a notificação das intoxicações e orientar medidas de prevenção, permitindo também subsidiar políticas públicas e práticas clínicas que contribuem para uma atenção à saúde mais qualificada e para a proteção da população.

Revista Conexão Literatura: Ao longo de sua carreira, você atuou na área de saúde pública e hoje também se dedica à escrita. De que forma essa experiência profissional influenciou sua participação na obra Agrotóxicos – Impactos sobre a saúde e o equilíbrio ecossistêmico?
Raquel Fiori: Minha participação na obra Agrotóxicos – Impactos sobre a saúde e o equilíbrio ecossistêmico foi fortemente influenciada por experiência prática . Ao contribuir com o capítulo, busquei não apenas apresentar dados científicos sobre os impactos da exposição aos agrotóxicos na saúde humana, mas também discutir suas implicações para a prática dos profissionais de saúde e para a formulação de políticas públicas. Acredito que a produção científica deve dialogar com a realidade vivenciada nos territórios e oferecer subsídios para qualificar o cuidado, fortalecer a vigilância e ampliar as ações de prevenção.
Revista Conexão Literatura: O livro evidencia a importância de novas pesquisas sobre os impactos dos agrotóxicos. Em sua opinião, quais áreas ainda carecem de estudos mais aprofundados no Brasil?
Raquel Fiori: São necessários mais estudos sobre a exposição simultânea a diferentes agrotóxicos, uma vez que, na prática, as pessoas raramente entram em contato com um único produto isoladamente. Compreender os possíveis efeitos combinados dessas substâncias é um desafio científico importante e essencial para aperfeiçoar as avaliações de risco. Considero que pesquisas interdisciplinares, envolvendo profissionais da saúde, das ciências ambientais, das ciências agrárias e do direito, são fundamentais para compreender a complexidade desse tema e subsidiar políticas públicas baseadas em evidências.
Revista Conexão Literatura: A obra reúne cientistas e juristas em torno de um mesmo objetivo. Como foi participar de um projeto interdisciplinar que aproxima ciência, direito e políticas públicas em defesa da saúde e do meio ambiente?
Raquel Fiori: A integração entre ciência, direito e políticas públicas é essencial quando tratamos de temas relacionados à saúde e ao meio ambiente. A ciência produz evidências e conhecimento técnico; o direito oferece os instrumentos para transformar esse conhecimento em normas, garantias e políticas públicas; e a gestão pública tem o papel de implementar essas ações em benefício da sociedade.
Revista Conexão Literatura: Em Agrotóxicos – Impactos sobre a saúde e o equilíbrio ecossistêmico, seu capítulo apresenta dados científicos sobre diferentes regiões e culturas do Rio Grande do Sul. Durante a elaboração desse estudo, houve algum resultado que contrariou expectativas ou revelou um cenário ainda mais preocupante do que o imaginado?
Raquel Fiori: Sim. Embora a literatura científica já apontava riscos associados ao uso intensivo de agrotóxicos, a análise dos dados revelou um cenário ainda mais complexo e preocupante. Um dos aspectos que mais chamou a atenção foi a ampla distribuição da contaminação, alcançando diferentes regiões e culturas agrícolas do Rio Grande do Sul, o que demonstra que essa não é uma questão pontual, mas um desafio ambiental e de saúde pública de grande abrangência.
Revista Conexão Literatura: No livro Nova Lei de Agrotóxicos: Diálogo entre Juristas e Cientistas, diversos autores analisam os impactos da Lei nº 14.785/2023. Em sua avaliação, quais são os maiores desafios impostos por essa nova legislação para a saúde pública e a preservação ambiental?
Raquel Fiori: Um dos principais desafios é assegurar que a modernização dos processos regulatórios ocorra sem comprometer os elevados padrões de proteção à saúde humana, ao meio ambiente e à biodiversidade. Independentemente das mudanças legais, a proteção da saúde e do meio ambiente deve permanecer como princípio orientador das políticas públicas, tendo a ciência como base para a tomada de decisões e para o aperfeiçoamento contínuo do sistema regulatório.

Revista Conexão Literatura: Como pesquisadora da área científica, qual a importância de aproximar juristas e cientistas em debates sobre temas tão sensíveis quanto à regulamentação dos agrotóxicos?
Raquel Fiori: A aproximação entre juristas e cientistas é indispensável porque temas como a regulamentação dos agrotóxicos envolvem questões que extrapolam os limites de uma única área do conhecimento. A ciência fornece evidências sobre toxicidade, exposição, impactos ambientais e riscos à saúde, enquanto o Direito transforma esse conhecimento em normas, instrumentos regulatórios e políticas públicas voltadas à proteção da sociedade.
Revista Conexão Literatura: Sua formação reúne Química, Ciência e Tecnologia de Alimentos e Doutorado em Educação Química. Como essa trajetória multidisciplinar contribui para sua análise dos impactos dos agrotóxicos e das mudanças na legislação brasileira?
Raquel Fiori: Essa formação multidisciplinar me permite analisar as mudanças na legislação de maneira ampla, considerando não apenas seus aspectos técnicos e científicos, mas também seus reflexos para a saúde pública, o meio ambiente, a produção agrícola e a sociedade. Acredito que normas regulatórias são mais eficazes quando dialogam com o conhecimento científico atualizado e quando são construídas de forma transparente, equilibrando inovação, desenvolvimento e proteção da vida e dos recursos naturais.
Revista Conexão Literatura: Depois de uma carreira consolidada na pesquisa e na saúde pública, você afirma estar vivendo um novo momento dedicado à escrita. O que a motivou a transformar seu conhecimento técnico em obras acessíveis a um público mais amplo?
Raquel Fiori: O pesquisador tem um compromisso não apenas com a produção do conhecimento, mas também com sua divulgação responsável. A ciência só cumpre plenamente seu papel quando é compartilhada, compreendida e capaz de subsidiar decisões individuais e coletivas. Continuo movida pela mesma motivação que orientou minha carreira: contribuir para uma sociedade mais bem informada, crítica e consciente, utilizando a ciência como instrumento de transformação.
Revista Conexão Literatura: Como Conselheira Federal no Conselho Federal de Química, você acompanha discussões importantes para a profissão. Qual é o papel dos profissionais da Química na construção de políticas públicas que conciliam produção agrícola, saúde e sustentabilidade?
Raquel Fiori: Acredito que os grandes desafios contemporâneos — como a segurança alimentar, a sustentabilidade e as mudanças climáticas — exigem uma atuação integrada entre governo, comunidade científica, setor produtivo e sociedade. Nesse cenário, os profissionais da Química têm a responsabilidade de transformar conhecimento em soluções, contribuindo para políticas públicas que promovam inovação, desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, assegurem a proteção da saúde humana, do meio ambiente e das futuras gerações.
Revista Conexão Literatura: Em Nova Lei de Agrotóxicos: Diálogo entre Juristas e Cientistas, a obra analisa os impactos da nova legislação sob perspectivas científicas e jurídicas. Na sua visão, qual é a principal mensagem que o livro pretende transmitir à sociedade e aos gestores públicos sobre a necessidade de conciliar desenvolvimento agrícola, proteção ambiental e saúde coletiva?
Raquel Fiori: Mais do que apresentar diferentes interpretações sobre a Lei nº 14.785/2023, o livro convida à reflexão qualificada e ao diálogo. A intenção é contribuir para que gestores públicos, profissionais, pesquisadores e a sociedade compreendam a complexidade do tema e reconheçam que decisões responsáveis dependem da participação de múltiplos saberes.
Revista Conexão Literatura: Para finalizar, quais são seus próximos projetos na área da escrita e da divulgação científica? Podemos esperar novos livros, pesquisas ou iniciativas voltadas à educação, à saúde pública e à preservação ambiental?
Raquel Fiori: A produção científica não se encerra na publicação de artigos ou livros; ela ganha verdadeiro significado quando contribui para melhorar a vida das pessoas e apoiar decisões fundamentadas em evidências. Além da produção técnico-científica, também tenho me dedicado à literatura. Escrever contos e outras narrativas é uma forma diferente de despertar o interesse pela reflexão sobre questões humanas, éticas e sociais. Se meus próximos projetos conseguirem inspirar novas reflexões, formar leitores mais críticos e incentivar o diálogo entre diferentes áreas do saber, terei a convicção de que cumpri minha missão como pesquisadora, educadora e escritora.
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros e várias revistas literárias, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Itália, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



