
A pesquisadora e doutora Raquel Fiori apresenta, em seu artigo “Gênero, poder e epistemologia na Química: por que as mulheres estão transformando a produção científica”, uma reflexão profunda sobre os desafios históricos enfrentados pelas mulheres na ciência e sobre como suas trajetórias estão redefinindo os caminhos da Química contemporânea.
Ao discutir epistemologias feministas, desigualdades institucionais e a importância da diversidade na produção do conhecimento, Raquel evidencia que ampliar a presença feminina na ciência significa também transformar as estruturas que determinam quem pode produzir, validar e liderar o saber científico.
Nesta entrevista exclusiva para a Revista Conexão Literatura, a autora fala sobre ciência, poder, educação, inclusão e os novos horizontes construídos pelas mulheres na Química.
ENTREVISTA:
Revista Conexão Literatura: Em seu artigo, a senhora afirma que a presença feminina na Química não representa apenas uma mudança quantitativa, mas também qualitativa. Como essa transformação pode ser percebida na prática dentro dos laboratórios e universidades?
Raquel Fiori: Na prática, isso se traduz em abordagens mais colaborativas e horizontais nos laboratórios, além de práticas pedagógicas baseadas na escuta e na inclusão. Assim, as mulheres deixam de apenas ocupar espaços para transformar os próprios métodos, conteúdos e critérios de validação do conhecimento químico.
Revista Conexão Literatura: A senhora destaca que a ciência foi historicamente construída sob perspectivas masculinas. Quais são os maiores desafios para romper com essa tradição dentro da Química contemporânea?
Raquel Fiori: É preciso desconstruir o mito da neutralidade científica, que historicamente invisibilizou trajetórias femininas e legitimou estruturas acadêmicas moldadas por modelos normativos masculinos. Além disso, deve-se enfrentar desvalorizações sutis e a sobrecarga de trabalho doméstico, transformando a própria cultura institucional e os critérios de validação do conhecimento.
Revista Conexão Literatura: O texto aborda a ideia de que a ciência não é neutra, mas atravessada por relações de poder. Como essa reflexão pode contribuir para uma formação mais crítica dos futuros profissionais da Química?
Raquel Fiori: Ao reconhecer a ciência como um campo de poder, futuros profissionais podem questionar padrões hegemônicos e abrir espaço para saberes plurais . Isso os prepara para construir uma prática mais ética e democrática, que conecta o rigor técnico à responsabilidade social e ao impacto humano.
Revista Conexão Literatura: A senhora menciona a importância das epistemologias feministas na produção científica. Como elas ajudam a ampliar os temas e prioridades da ciência atual?
Raquel Fiori: Ao romper com a ideia de um sujeito universal, elas priorizam investigações voltadas ao bem-estar coletivo, como a química verde e a saúde pública. Essa mudança permite que a ciência deixe de ser estritamente técnica para se tornar um campo mais ético, plural e comprometido com a transformação da sociedade.
Revista Conexão Literatura: Mesmo com o crescimento da participação feminina na ciência, os cargos de liderança ainda são ocupados majoritariamente por homens. Na sua visão, quais ações são mais urgentes para mudar esse cenário?
Raquel Fiori: Implementar mecanismos que combatam a desvalorização sutil e considerem o impacto da sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado na carreira científica.
Revista Conexão Literatura: Em seu artigo, a senhora cita áreas como química verde, sustentabilidade e biotecnologia como campos de destaque para a atuação feminina. Por que essas áreas têm recebido contribuições tão significativas das mulheres?
Raquel Fiori: Essas áreas recebem contribuições expressivas das mulheres porque as epistemologias feministas tendem a valorizar investigações voltadas ao cuidado, à ética e ao impacto social da ciência.
Revista Conexão Literatura: A invisibilização das contribuições femininas na ciência ainda é uma realidade. Como resgatar e valorizar a trajetória histórica das mulheres cientistas pode inspirar novas gerações?
Raquel Fiori: Ao tornar visíveis conquistas como as de Marie Curie ou Rosalind Franklin, demonstra-se que a presença feminina não é recente, mas uma força estruturante que reconfigura os métodos e o impacto social do conhecimento, isso incentiva as novas gerações a ocuparem espaços de poder e a tratarem a Química como um campo de transformação ética e política.
Revista Conexão Literatura: O artigo também aborda a importância das práticas pedagógicas colaborativas e inclusivas. Como o ensino da Química pode se tornar mais acolhedor e democrático para estudantes mulheres?
Raquel Fiori: É necessário transformar o ambiente acadêmico em um espaço horizontal e inclusivo, combatendo deslegitimações e integrando a dimensão humana e social à prática técnica.
Revista Conexão Literatura: A senhora acredita que iniciativas institucionais, como o Comitê Mulher na Química do Conselho Federal de Química, podem gerar mudanças concretas no ambiente científico brasileiro? De que forma?
Raquel Fiori: Sim , essas iniciativas, dão voz a experiências anteriormente silenciadas, incentivando a ocupação de espaços de decisão e liderança, com a participação ativa de mulheres em todos os níveis da profissão.
Revista Conexão Literatura: Para finalizar, qual mensagem a senhora deixaria para meninas e jovens mulheres que desejam seguir carreira na ciência e na Química, mas ainda enfrentam inseguranças ou barreiras sociais?
Raquel Fiori: Que essas meninas e jovens mulheres não são apenas herdeiras de uma história de exclusão, mas as protagonistas de uma ciência mais crítica, plural e humana. Confiem em suas trajetórias e ocupem esses espaços, pois a ciência só será verdadeiramente democrática e inovadora quando incluir a força transformadora de suas vozes e experiências.
Sobre Raquel Fiori:
Doutora em Educação em Ciências pela UFRGS e Conselheira Federal de Química, a Química Raquel Fiori combina uma sólida trajetória acadêmica com liderança técnica no serviço público, tendo atuado como diretora do IPB-LACEN/RS e coordenado o Laboratório de Contaminantes, com trabalhos publicados nessas áreas. Sua experiência também abrange a docência e a formulação de políticas públicas, com uma atuação política e sindical voltada à equidade e à ética profissional. Como pesquisadora, destaca-se por uma produção científica que questiona a suposta neutralidade da ciência, defendendo que a presença feminina na Química e promovendo uma transformação qualitativa ao priorizar a sustentabilidade e a humanização da pesquisa.
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



