Raquel Fiori é educadora e pesquisadora com sólida formação em Química pela PUCRS, onde concluiu licenciaturas, bacharelado e formações tecnológicas. Possui Especialização e Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos (ICTA/UFRGS), além de Doutorado em Educação Química pelo PPGQVS/UFRGS.Ao longo de sua trajetória profissional, atuou como Especialista em Saúde no Laboratório Central do Estado. Mesmo após a aposentadoria, segue contribuindo ativamente como Conselheira Federal no Conselho Federal de Química.Neste momento de sua trajetória, direciona-se com entusiasmo ao universo da escrita, abraçando-a como um novo campo de expressão e impacto. Busca, por meio das palavras, ampliar significativamente o alcance de suas ideias, experiências e conhecimentos, conectando-se com públicos diversos e fortalecendo ainda mais sua contribuição para a educação e a divulgação científica.

ENTREVISTA:

Revista Conexão Literatura: No conto “Às vezes, eles continuam aqui”, publicado na edição n.º 130 da Revista Conexão Literatura, o prédio parece ter uma “consciência” própria. De que forma essa ideia dialoga com a formação científica de Raquel Fiori, especialmente em áreas que lidam com observação e análise da realidade?

Raquel Fiori: com a  sensibilidade  para transformar a observação técnica em uma vigilância sobrenatural, onde o ambiente deixa de ser um cenário passivo para se tornar um agente ativo e observado.

Revista Conexão Literatura: A personagem Malvia confia em dados objetivos e relatórios técnicos. Como esse perfil racional entra em conflito com os acontecimentos inexplicáveis que ela vivencia?

Raquel Fiori:  o conflito central surge do choque entre a segurança do método científico e a imprevisibilidade do sobrenatural, o medo é maior porque ela compreende que, pelas leis da ciência que professa, aquilo que está acontecendo não deveria ser possível.

Revista Conexão Literatura: O tema da observação é central na narrativa (câmeras, presenças, o prédio). Que crítica ou reflexão o conto sugere sobre vigilância e percepção?

Raquel Fiori:  o conto de terror  psicológico reflete sobre os limites da percepção humana sugerindo que, em um mundo saturado por câmeras e registros, corremos o risco de nos tornarmos “propriedade” dos lugares e sistemas que nos vigiam, perdendo a autonomia sobre nossa própria imagem e realidade.

Revista Conexão Literatura: Como o ambiente do prédio centenário contribui para a construção do terror psicológico presente na história?

Raquel Fiori: o prédio  representa o passado que se recusa a morrer e que agora utiliza a tecnologia do presente para continuar existindo e se alimentando, tornando o ambiente de trabalho de Malvia em um labirinto psicológico do qual ela não consegue escapar.

Revista Conexão Literatura: A frase “ele se alimenta de quem o ouve” sugere uma relação entre atenção e existência. Como essa ideia se desenvolve ao longo do conto?

Raquel Fiori:  a ideia se desenvolve mostrando que, no universo do conto, existir é ser percebido. Quanto mais Malvia tenta usar sua lógica para entender (ouvir/observar) o prédio, mais ela o nutre, até que a fronteira entre quem observa (ela) e o que é observado (o prédio) desaparece completamente.

Revista Conexão Literatura: Considerando a trajetória de Raquel Fiori como pesquisadora e educadora em Ciência e Tecnologia, como o conto mistura elementos científicos com o sobrenatural?

Raquel Fiori: o conto mistura esses mundos ao tratar o sobrenatural não como algo “mágico”, mas como uma anomalia técnica dentro de um sistema físico, se transformando  em campos de experimentação onde o próprio cientista acaba sendo a amostra analisada.

Revista Conexão Literatura: O momento em que Malvia vê a si mesma na câmera é um dos mais impactantes. O que essa cena revela sobre identidade e consciência?

Raquel Fiori:  essa cena é o ponto de ruptura do conto e funciona como uma metáfora poderosa sobre a fragmentação da identidade na era digital e técnica, pois reside na percepção de que a consciência do observador foi sequestrada. Malvia deixa de ser o sujeito que analisa os dados para se tornar um dado distorcido no sistema .

Revista Conexão Literatura: A autora inicia sua atuação na escrita após uma carreira consolidada na área científica. De que forma essa transição pode influenciar a profundidade temática e simbólica do conto?

Raquel Fiori:  essa bagagem científica influencia a profundidade do conto ao trazer um realismo técnico que torna o horror muito mais palpável e simbólico, utilizando a escrita como um novo laboratório para testar os limites da consciência humana frente ao inexplicável.

Revista Conexão Literatura: Ao final, há a sugestão de que Malvia está sendo “absorvida” pelo prédio. Esse desfecho pode ser interpretado como uma metáfora? Se sim, do quê?

Raquel Fiori: sim, o desfecho de “Às vezes, eles continuam aqui” é uma metáfora poderosa e multifacetada. A “absorção” de Malvia pelo prédio transcende o gênero do terror para comentar sobre a condição humana na modernidade. O final sugere que Malvia foi vencida pelo ambiente. Sua tentativa de manter a racionalidade e o isolamento técnico falhou, e o prédio — símbolo da rotina, da vigilância e do passado — finalmente a integrou à sua estrutura eterna.

Revista Conexão Literatura: Seu conto foi publicado na edição de abril, nº 130 da Revista Conexão Literatura. Como foi para você ver esse trabalho integrado a uma revista literária e alcançar novos leitores?

Raquel Fiori: esta publicação é o reflexo de um movimento de “direcionamento entusiasmado ao universo da escrita”. Ver o trabalho integrado a uma edição temática é a concretização de que o conhecimento técnico, quando lapidado pela criatividade, pode gerar um impacto cultural profundo e duradouro. Agradeço a Revista Conexão Literatura por abrir espaços para vozes que trazem narrativas profundas ao público para que eles testemunhem como a ciência e o sobrenatural podem dialogar .

Revista Conexão Literatura: Para os leitores que se interessaram pelo seu trabalho e desejam conhecer mais sobre sua trajetória e escrita, por onde podem acompanhar você?

Raquel Fiori: para os leitores que desejam acompanhar essa intersecção entre ciência, tecnologia e literatura, podem seguir no Instagram: https://www.instagram.com/aquimicainterativa/

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