
Cuidem-se, guardem-se todos! Uma nova ameaça epidêmica campeia por aí, desenfreada. Se tentaram, ou estão tentando, comunicar você, muita atenção! Caso os anticorpos gramaticais não estejam em boa forma e de prontidão, você poderá entrar para a longa lista de pessoas comunicadas.
O perigo desse novo surto idiopatológico (junção de idioma e patologia) é que, uma vez contaminadas, as pessoas viram objeto. Já se imaginou como objeto? Ainda não? Pois é justamente o que a idiopatologia que causa a comunicação de pessoas faz com você. Inadvertidamente, cada um dos contaminados passa a comunicar outros indivíduos, sendo, por sua vez, comunicado por eles. Não parece, eu sei, mas é terrível.
Até recentemente, o fenômeno existia de forma endêmica na sociedade. Pessoas volta e meia eram comunicadas da mudança de horário no trabalho, ou do aumento da tarifa do transporte público. Fazia certo sentido: não é raro sentir-se objeto num emprego, ou nos horários de pico não parecer um objeto, prensado e sacolejante, dentro de ônibus e metrôs.
O problema é que a proliferação de mídias e a rapidez com que as notícias circulam transformaram a comunicação de pessoas numa praga contagiosa. Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que não se sinta cronicamente esmorecido, aflito, ou desesperado. Vai se ver, é porque a pessoa em questão foi comunicada. Muito, mas muito menor, quase irrisório, é o número de indivíduos comunicados que apresentam sintomas como euforia, entusiasmo, ou otimismo. Talvez seja uma variante benigna, recessiva e rara, da mesma idiopatologia.
A esta altura, cabe a pergunta: afinal, o que há de errado com a comunicação de pessoas? A meu ver, tudo se resume a uma escolha aparentemente simples, mas fundamental: que papel preferimos ter na sociedade, o de sujeito, ou de objeto? Pessoas, em princípio, não são comunicadas; elas é que comunicam algo a alguém. Aquilo que é comunicado constitui, por sua vez, o objeto da comunicação. Se pessoas estão sendo comunicadas, é porque passaram ao papel de objeto. Pessoas são informadas de algo, notificadas, avisadas, alertadas, esclarecidas; jamais comunicadas.
“Comuniquei você”, “te comunicamos”, “eles foram comunicados”, todas essas fórmulas que lemos e ouvimos nas notícias e postagens nas mídias sociais me fazem pensar num possível código secreto, inoculado na linguagem (por alienígenas?) para dominar as mentes incautas. Um exército de pessoas comunicadas deve ser fácil de comandar. Pessoas comunicadas não se tornam mais inteligentes, pois um comunicado não possui a complexidade, nem a mesma amplitude de uso, de uma informação. Um comunicado pode transmitir uma ordem, uma instrução, um anúncio de algo que cai sobre nós como uma fatalidade. Pessoas comunicadas são, no fundo, vítimas disfarçadas de cidadãs.
Como sempre, haverá os que não veem o surto de pessoas comunicadas como um problema. Talvez até reivindiquem que a comunicação de pessoas seja admitida pela gramática. Se isso acontecer, os ouviremos bradar aos quatro cantos, com genuíno entusiasmo:
“Tejem comunicados!”
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Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



