
Um dos vícios de fala que mais tem assombrado o meio da comunicação social é a famigerada expressão “vítima fatal”. Os que acreditam nos dicionários sabem que fatal é algo capaz de provocar a morte, um instrumento de fatalidade: um golpe fatal, um disparo fatal, um acidente fatal. A vítima, justamente por estar na posição de vítima, é quem sofre a fatalidade, seja ela provocada por golpe, disparo, acidente, o que quer que seja fatal. Uma vítima fatal é, por definição, um paradoxo, um contrassenso. Contudo, façamos um esforço para detectar contextos em que a expressão “vítima fatal” poderia ter algum sentido.
– Uma pessoa que se atira de um edifício e cai sobre um transeunte. Nesse caso, teríamos duas vítimas: a fatal e a não fatal, ambas mortas.
– Uma mulher sedutora, assassinada pelo marido enciumado. Nesse caso, teríamos uma “mulher fatal” como vítima; consequentemente, poderíamos, não sem certo grau de ironia, concluir tratar-se de uma vítima fatal.
– Alguém que tira a própria vida. Talvez, nos casos de suicídio, fosse aceitável classificar a vítima de fatal, já que foi ela quem cuidou da própria morte.
Como não vejo outras hipóteses possíveis (quem souber de alguma, me avise), só resta apelar ao bom-senso dos comunicadores para que evitem chamar de fatais as vítimas de catástrofes naturais, atentados terroristas, latrocínios, balas perdidas, acidentes de trânsito, etc. Tachá-las de fatais implica um desrespeito à sua memória, pois sugere que as vítimas teriam tido alguma culpa na própria morte. E não vai adiantar substituir “fatal” por “mortal”, pois o erro será exatamente o mesmo.
Como sabemos, nem sempre o melhor a fazer é o mais fácil: nadar contra a correnteza da moda linguística, evitando a equívoca expressão “vítimas fatais”, tem lá o seu custo. Paga-se o preço de soar antipáticos, ou inconvenientes, ao empregar os termos clássicos: mortos, óbitos, decessos, baixas.
Porém, não há alternativa. A menos que se aceite incorrer num uso fatal do idioma.
SAIBA COMO DIVULGAR O SEU LIVRO, EVENTO OU LANÇAMENTO AQUI NA REVISTA CONEXÃO LITERATURA: CLIQUE AQUI
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com




Uma crônica envolvente e reflexiva! O paradoxo traz uma visão profunda sobre a vida.
Grato pelo comentário, Jack. Fico feliz que tenha gostado.