
Pense numa dupla que convive feliz há 40 anos. Passeiam juntos, conversam animadamente, divertem-se. Não se trata, necessariamente, de uma relação conjugal, mas de uma forma de companheirismo, baseada em reciprocidade de afeto e atenção mútua. Agora imagine que alguém, investido de autoridade, um dia bate à porta, acusando essa relação de ilegítima pelo fato de não ter registro em nenhum foro legal. À falta de certidão emitida por órgão público, a dupla é separada à força. Já não podem mais se ver. A tristeza se abate sobre ambos, a vida perde a graça de antes, nenhum dos dois escuta mais a voz do outro, que ajudava a colorir os dias.
Foi mais ou menos isso o que aconteceu recentemente, numa cidade do interior de São Paulo, quando o órgão ambiental da prefeitura decidiu confiscar o papagaio de estimação de um cidadão local. De nada valeram os protestos emocionados; a ruptura foi imposta assim mesmo, contra a vontade de ambas as partes.
Não adiantou contar que o papagaio fora encontrado ferido 40 anos antes, se recuperara graças aos cuidados recebidos e se afeiçoara de tal modo a seu cuidador, que decidira permanecer a seu lado.
Não adiantou mostrar que a ave estava saudável e vivia livre, podendo regressar à natureza quando bem lhe aprouvesse.
Não adiantou oferecer testemunhas, pessoas que podiam atestar as bases saudáveis daquela relação. Porque, afinal de contas, fé pública não é isso; fé pública é um pedaço de papel que leva aposto um timbre de repartição burocrática.
A lei é dura para quem protege e cuida de animais silvestres quando estes necessitam, não os enxotando em seguida, quando decidem continuar sob a proteção e o cuidado de quem os acolheu. Como se o problema residisse aí, não nos caçadores ilegais e contrabandistas, que matam e traficam, aos milhares, os exemplares de nossa fauna, nem nos desastres ambientais causados por ações humanas, como desmatamentos e incêndios criminosos.
O empresário em questão hoje apela à Justiça para reaver o papagaio. Enquanto isso, a ave, que vivia livre, permanece confinada numa gaiola, aguardando que se complete o seu programa de reeducação para a vida selvagem, um processo longo, que poderá durar até 4 anos, caso resista à nova conjuntura.
Papagaios, em geral, vivem muito, alguns chegam aos 80 anos. Assim que atingem a maturidade sexual, por volta dos 2 anos de idade, escolhem um companheiro e com ele, ou ela, passam o resto da vida. Constituem um dos exemplos mais perfeitos de monogamia no reino animal. Ao que tudo indica, o espécime em questão escolheu o seu cuidador como parceiro e com ele já tinha vivido, no mínimo, metade de sua existência.
Há algo de estranho ao se querer impor a liberdade a alguém, ainda mais quando este tem asas para voar bem longe e jamais voltar. Talvez se pretenda, no fundo, ver realizado, a todo custo, o nosso próprio sonho de retorno a um estado imaginário de natureza, que numa idílica era remota teríamos compartilhado com os animais.
Animais silvestres que são socorridos e preferem não retornar à natureza parecem representar o maior dos perigos: o de colocar em xeque as nossas mais arraigadas idealizações de liberdade.
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Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



