Um dos vícios de fala que mais tem assombrado o meio da comunicação social é a famigerada expressão “vítima fatal”. Os que acreditam nos dicionários sabem que fatal é algo capaz de provocar a morte, um instrumento de fatalidade: um golpe fatal, um disparo fatal, um acidente fatal. A vítima, justamente por estar na posição de vítima, é quem sofre a fatalidade, seja ela provocada por golpe, disparo, acidente, o que quer que seja fatal. Uma vítima fatal é, por definição, um paradoxo, um contrassenso. Contudo, façamos um esforço para detectar contextos em que a expressão “vítima fatal” poderia ter algum sentido.

– Uma pessoa que se atira de um edifício e cai sobre um transeunte. Nesse caso, teríamos duas vítimas: a fatal e a não fatal, ambas mortas.

– Uma mulher sedutora, assassinada pelo marido enciumado. Nesse caso, teríamos uma “mulher fatal” como vítima; consequentemente, poderíamos, não sem certo grau de ironia, concluir tratar-se de uma vítima fatal.

– Alguém que tira a própria vida. Talvez, nos casos de suicídio, fosse aceitável classificar a vítima de fatal, já que foi ela quem cuidou da própria morte.
Como não vejo outras hipóteses possíveis (quem souber de alguma, me avise), só resta apelar ao bom-senso dos comunicadores para que evitem chamar de fatais as vítimas de catástrofes naturais, atentados terroristas, latrocínios, balas perdidas, acidentes de trânsito, etc. Tachá-las de fatais implica um desrespeito à sua memória, pois sugere que as vítimas teriam tido alguma culpa na própria morte. E não vai adiantar substituir “fatal” por “mortal”, pois o erro será exatamente o mesmo.
Como sabemos, nem sempre o melhor a fazer é o mais fácil: nadar contra a correnteza da moda linguística, evitando a equívoca expressão “vítimas fatais”, tem lá o seu custo. Paga-se o preço de soar antipáticos, ou inconvenientes, ao empregar os termos clássicos: mortos, óbitos, decessos, baixas.
Porém, não há alternativa. A menos que se aceite incorrer num uso fatal do idioma.

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