“Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação.” Essa citação de Clarice Lispector me deixou curioso. Não pelo teor, cuja clareza é realçada com brilhante simplicidade na frase clariceana, mas sim pela pontuação. Quem lê os textos da autora estranha logo: dois pontos e vírgulas numa mesma frase, que, além do mais, nem é extensa!?
Posso apostar que Clarice não escreveu a frase desse jeito, com essa pontuação, disse para mim mesmo. No entanto, a frase estava lá, num perfil das redes sociais dedicado a falar de arte. Uma rápida pesquisa na Internet e a encontro, igualzinha, estampada num post de um dos grandes partidos políticos nacionais. O fato veio me tornar ainda mais convicto de que pontuação não deve ser algo tomado com leviandade. Pontuação reflete uma maneira de viver a vida. Enfiar dois pontos e vírgulas numa frase que não ocupa sequer uma linha de texto significa truncar a energia vital, é enveredar no sentido contrário ao da mensagem da autora.
O ritmo imposto à frase, da maneira como está pontuada, equivale a um episódio de arritmia cardíaca. As duas metades que contêm ponto e vírgula estão separadas entre si por uma vírgula, o que não faz nenhum sentido. Seria como dizer o primeiro enunciado de forma pausada, correr até o segundo e, então, dizê-lo de forma também pausada. Seguindo-se a lógica gramatical, o mais indicado seria pontuar o enunciado da seguinte forma: arte não é pureza, é purificação; não é liberdade, é libertação. Como se vê, essa fórmula é exatamente o oposto da anterior. Nela, o ponto e vírgula introduz a pausa longa entre as duas metades da frase, conferindo um ritmo mais orgânico à fala. A pontuação do post poderia, contudo, até ser admitida em circunstâncias particulares, por exemplo: na fala de uma personagem que sofresse de alguma alucinação, ou desvario, ou que se quisesse caracterizar como excêntrica.
É claro que não resisti à curiosidade e fui atrás do texto original. Descobri tratar-se de uma crônica de Clarice intitulada “O artista perfeito”, publicada em 1969. A frase em questão constitui o núcleo do terceiro parágrafo, o mais curto dos seis que compõem a crônica. Bem ao seu feitio, Clarice dispensa o uso de ponto e vírgula, apresentando a frase com a seguinte pontuação: “(…) arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação”. Apenas vírgulas, portanto, e a repetição da palavra “arte” no início da segunda metade do enunciado.
Ao não estabelecer uma quebra de ritmo no meio, a autora parece querer impelir sua frase ao voo, com um leve bater de asas a cada vírgula, sugerindo a libertação aludida na palavra final.
Autoras do porte de Clarice sabem que pontuação não é uma leviandade. Nela se reflete uma forma de relacionar-se com o mundo.

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