Paulo Cesar T. Ribeiro é psicólogo clínico em São Paulo, com mais de quatro décadas de escuta, e membro atuante da Maçonaria, onde detém o Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito e integra a centenária Loja Quintino Bocaiúva nº 10, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo. Sua clínica, de orientação humanista-existencial com influências junguianas, winnicottianas e da psicologia budista, encontrou na Arte Real um segundo laboratório da alma. É autor da Biblioteca da Psique, palestrante em lojas e congressos e colaborador da revista A Verdade. Escreve na fronteira entre a psicologia e o simbolismo iniciático, sempre em prosa que prefere acolher a explicar. Em Salmo 133 na Maçonaria, reúne essas duas vocações num único gesto: ler o mais breve dos salmos como um mapa da maturidade humana.

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Paulo Cesar T. Ribeiro: Começou pela escuta, não pela escrita. Durante muitos anos, minha vida foi ouvir histórias — no consultório, e depois também no Templo Maçônico, que é outro lugar onde as pessoas se revelam. Escrever veio como uma consequência natural desse ofício de ouvir: chega um momento em que aquilo que se acumula na escuta pede uma forma, pede voz. Há muito tempo mantenho a publicação de artigos em sites, jornais e revistas sobre os temas do comportamento humano, e foi por esse caminho, o do texto breve e frequente, que fui aos poucos descobrindo a página como território. Nunca me sentei para ser escritor no sentido literário do termo. Sentei-me para organizar, para dar contorno a intuições clínicas e simbólicas que já não cabiam apenas na sala de atendimento. A Biblioteca da Psique nasceu desse transbordamento — do desejo de que certas reflexões chegassem a quem eu jamais atenderia pessoalmente. Descobri, então, que a página é uma extensão da presença. E que se pode acompanhar um leitor, à distância e no tempo, com o mesmo cuidado com que se acompanha alguém sentado à nossa frente.

Conexão Literatura: Você é autor do livro “Salmo 133 na Maçonaria – União, Ego e Fraternidade”, poderia comentar?

Paulo Cesar T. Ribeiro: O Salmo 133 tem apenas três versículos, breves como um sopro e profundos como uma montanha. Ele celebra algo que parece simples — “quão bom e suave é que os irmãos vivam em união” —, mas essa simplicidade esconde um paradoxo que me interessou profundamente: a união é sempre uma obra difícil. Ela não nasce espontânea no coração humano. O ego não deseja união; ele deseja predominância, reconhecimento, segurança. A fraternidade é, no fundo, um chamado contra a gravidade natural da psique. O livro parte daí. Ele lê o Salmo em três chaves que se sustentam mutuamente: o Salmo oferece a alegoria, o Rito oferece a geometria, a Psicologia oferece a chave, e a Vida oferece o campo de prova. As imagens do texto deixam de ser ornamento e passam a descrever estados da alma — o óleo é a maturidade que desce e alcança a conduta; a barba é o ego que cede e deixa a unção passar; as vestes são as ações que revelam quem realmente somos; o orvalho é o cuidado silencioso que nutre o vínculo sem se anunciar. Escrevi o livro não para idealizar a união, mas para torná-la responsável. Não para enfeitar a fraternidade, mas para compreendê-la em sua realidade humana — seus medos, suas tensões, suas grandezas e seus pequenos milagres. Para o maçom, penso que ele devolve sentido a algo que se respira em loja mesmo quando não se nomeia. Para o leitor não iniciado, oferece um espelho da própria dificuldade de conviver.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Paulo Cesar T. Ribeiro: Escrevo como quem conversa, não como quem ensina. Fujo do tom professoral e do excesso de conceito; prefiro mostrar a experiência humana a explicá-la de forma abstrata. Meu processo começa quase sempre por uma imagem — o orvalho que repousa sem violência, a pedra bruta que se deixa desbastar, a travessia de um limiar — e é a partir dela que o pensamento se organiza. Deixo a metáfora fazer o trabalho que o argumento sozinho não faria. Mas essa aparente leveza tem um alicerce: a pesquisa séria e comprometida faz parte do meu processo de criação. Uma imagem só sustenta o peso de uma reflexão quando repousa sobre fundamento — o estudo cuidadoso das fontes, a fidelidade ao rigor clínico e simbólico, o respeito por aquilo de que se fala. Minhas inspirações estão em quatro correntes que não trato como disciplinas separadas, mas como águas que se misturam: a psicologia humanista-existencial, que me ensinou a respeitar a liberdade e a singularidade de cada pessoa; Jung, que me deu a linguagem da sombra, do Self e da individuação; Winnicott, que me mostrou o que é sustentar um vínculo e oferecer um ambiente continente; e a psicologia budista, que me trouxe a atenção ao instante e o cuidado com o excesso. Some-se a isso a Maçonaria, que não me deu apenas símbolos, mas um modo de estar no mundo. Aprendi nela que a construção mais exigente não é a de templos externos, e sim a do espaço interior onde habitam o ego, a sombra e a promessa constante de crescimento.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do seu livro especialmente para os nossos leitores?

Paulo Cesar T. Ribeiro: Escolho uma passagem do Prólogo, porque nela está o coração da obra:

“O ego humano raramente deseja a união; ele deseja predominância, reconhecimento, segurança. A fraternidade, enquanto experiência psíquica, é um chamado contra a gravidade natural da psique, e o rito torna visível essa luta interior. Um irmão não se torna fraterno porque conheceu outro irmão; ele se torna fraterno porque permitiu que algo dentro dele fosse polido, reorientado, afinado. O Salmo não descreve uma união já conquistada: descreve uma união a ser continuamente reencenada.”

Gosto desse trecho porque ele desfaz a ideia ingênua de que basta estar reunido para estar unido. A união não é o ponto de partida — é o horizonte, e um horizonte que se refaz a cada gesto, a cada silêncio compartilhado.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Paulo Cesar T. Ribeiro: O livro está disponível na Biblioteca da Psique, no endereço bibliotecadapsique.com/shop, onde o leitor encontra também o restante do meu trabalho — os demais livros, artigos e materiais que venho reunindo ao longo dos anos, tanto na esfera da psicologia quanto na maçônica. É ali que mantenho essa conversa aberta com quem se interessa pela jornada interior, maçom ou não. Quem desejar acompanhar mais de perto encontra na Biblioteca o ponto de partida natural para conhecer o percurso e as próximas publicações.

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura no Brasil?

Paulo Cesar T. Ribeiro: Vivemos um paradoxo que, como psicólogo, me parece revelador: nunca se teve tanto acesso à palavra e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade de habitá-la com profundidade. Lemos muito, mas em fragmentos; consumimos informação numa velocidade que raramente permite a contemplação. E ler de verdade exige justamente o contrário da pressa — exige a disposição de deixar um texto descer sobre nós, como o óleo do Salmo, e nos transformar sutilmente. Não sou pessimista quanto a isso. Percebo, sobretudo entre os que buscam sentido, uma fome verdadeira por obras que convidem ao encontro, ao cuidado e à introspecção. O desafio brasileiro não é apenas de acesso, embora ele exista e seja grave; é de formar leitores que suportem a lentidão necessária à reflexão. A leitura profunda é uma forma de escuta. E escutar, num tempo de tanto ruído, tornou-se um ato quase iniciático.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Paulo Cesar T. Ribeiro: Sim, e trabalho em várias frentes ao mesmo tempo, o que talvez seja um traço meu. Sigo alimentando a Biblioteca da Psique com novos livros e artigos na fronteira entre a psicologia e o simbolismo iniciático. Tenho também me dedicado à produção de audiolivros, porque acredito que certas reflexões ganham quando são ouvidas — a voz devolve ao texto a oralidade e o ritmo de uma conversa, e há leitores que reencontram um livro justamente ao escutá-lo durante uma caminhada. Há ainda um projeto mais íntimo em andamento, de caráter autobiográfico, no qual tento articular a Maçonaria e a psicologia como dois caminhos convergentes de autoconhecimento. São obras diferentes, mas movidas pela mesma intuição: a de que o ser humano só se constrói de dentro para fora, e de que vale a pena acompanhá-lo nessa travessia.

Perguntas rápidas

Um livro: O Homem e Seus Símbolos, de Carl Gustav Jung.

Um ator ou atriz: Anthony Hopkins.

Um filme: A Árvore da Vida, de Terrence Malick.

Um hobby: A leitura contemplativa e as longas caminhadas — onde penso melhor.

Um dia especial: As noites de reunião no Templo, quando o Salmo 133 abre os trabalhos.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Paulo Cesar T. Ribeiro: Gostaria apenas de deixar um convite, o mesmo com que encerro o livro: que estas páginas sejam, acima de tudo, um chamado para olhar para dentro com coragem, para olhar para o outro com ternura e para caminhar na direção de uma união que não é perfeita, mas possível. Sempre possível. Se estas reflexões oferecerem, ainda que de modo sutil, um pouco de óleo para suavizar as asperezas da convivência, ou um pouco de orvalho para renovar a esperança no encontro humano, terão cumprido sua função. Agradeço à Conexão Literatura pelo espaço e a cada leitor que aceitar fazer comigo essa travessia.

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