
Fale-nos sobre você.
Sempre busquei extrair o máximo de mim mesma. Reconheço que cada pessoa tem seu “próprio máximo”, mas é em meu máximo que encontro a verdadeira realização. Minha trajetória escolar foi exemplar e culminou com o diploma em Química pela USP. No campo profissional, persegui um caminho em constante ascensão, não linear, mas sempre orientado pelo meu propósito, desde a química até ao empresariado.
Agora, vivo uma transição de carreira que, na verdade, é um retorno às minhas raízes. Escrever sempre foi uma paixão: a maneira de dar forma aos meus sentimentos e ideias, transformando-os em cores sobre o papel branco. Para mim, escrever é como conversar com alguém que me compreende, abrir-me diante de uma presença confiável. As palavras que eu mesma concretizo nunca poderiam me ferir. Talvez seja por isso que meus contos envolvem e acolhem, revelando beleza até nos momentos mais sombrios da vida.
Fale-nos sobre o livro. O que a motivou a escrevê-lo?
A motivação para escrever meu livro Uma Tênue Linha veio naturalmente, quase de forma inevitável. Sentindo-me um pouco mais livre das pressões que o mundo insiste em impor, pude me conduzir de volta às origens, às paixões antigas, à identidade adormecida à espera de ser despertada.
Nesse retorno, somaram-se acontecimentos que colocaram minha saúde em risco e que exigiram de mim (e ainda exigem) uma coragem suplementar para enfrentar o inesperado. Escrever, então, tornou-se um gesto tão espontâneo quanto abrir a porta de uma velha casa e reencontrar cada canto, cada sombra, cada centímetro já conhecido, onde memória e emoção se entrelaçam e onde cada palavra é matéria que reconstrói minha própria essência.
Como analisa a questão da leitura no país?
É visível que o Brasil esteja passando por uma crise de leitura; mais da metade da população não lê livros regularmente. Em paralelo, vemos o crescimento do analfabetismo funcional e a perda de referenciais culturais sólidos. Estes fenômenos, além de estarem interligados como causa/consequência, eles juntos contribuem para a decadência cultural, já que a leitura é um dos pilares da formação crítica e da preservação do legado cultural.
Para esta entrevista, eu procurei alguns dados atuais sobre a leitura em nosso país, e que transcrevo aqui:
53% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos três meses (2024), segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.
Houve uma redução de 6,7 milhões de leitores em apenas quatro anos, o maior índice de “não leitores” desde 2007.
Apenas 27% concluíram a leitura de um livro inteiro no período pesquisado.
A falta de tempo, desinteresse e competição com redes sociais são os principais fatores que afastam os brasileiros dos livros.
Esses dados ficam mais evidentes quando nos deparamos com o analfabetismo funcional de nossa população, que sente dificuldades de concentração ou compreensão, o que compromete a capacidade de interpretar textos simples e participar plenamente da vida do país como cidadão. Sem leitura há empobrecimento da linguagem, há a perda de referências históricas e menor acesso ao pensamento crítico, o que acarreta numa decadência cultural. Para agravar ainda a situação, há a colaboração das redes sociais, que com seus conteúdos rápidos, superficiais e mirados a dirigir a população, reduzem a paciência e o foco necessários para absorver obras literárias.
A queda no hábito de ler reflete-se em debates públicos mais superficiais, menor valorização das artes e maior vulnerabilidade a discursos simplistas. O enfraquecimento da leitura contribui para uma sociedade menos crítica e criativa, incapaz de sustentar avanços culturais e científicos.
Qual a sensação de ter ganhado o prêmio Laurel Verbum de Literatura de Entretenimento 2026, com este seu livro de contos “Uma tênue linha?
Já a comunicação dos finalistas foi, para mim, motivo de intensa emoção e alegria. No dia da entrega dos prêmios, ouvir que meu livro havia sido escolhido por um júri especializado como melhor do ano na minha categoria fez meu coração pulsar em sintonia com cada leitor que se deixou tocar pelos contos. A sensação foi arrebatadora: como se todas as memórias, afetos e reflexões que me inspiraram a escrever tivessem encontrado eco e reconhecimento.
Quanto ao significado do prêmio, recebê-lo representa uma conquista literária e, sobretudo, a confirmação de que a escrita feita com amor, delicadeza e verdade pode atravessar fronteiras invisíveis e alcançar a alma das pessoas. Sinto uma gratidão profunda e uma alegria que reforçam minha crença na força da literatura como ponte entre vidas e sentimentos. É um abraço coletivo que me envolve e me dá coragem para continuar escrevendo.
De que maneira a ideia de ancestralidade e memória genética influencia a construção dos personagens e das narrativas em Uma tênue linha, e como você acredita que essa conexão invisível entre passado e presente pode transformar a experiência do leitor?
Veja, não é que eu trate diretamente de ancestralidade. Meu livro é de ficção, não é científico nem pretende ser lido dessa forma. Ele reúne contos românticos, leves, mas que ao mesmo tempo dialogam com o leitor, convidando-o à reflexão sobre suas atitudes e sua identidade. O que gosto de destacar é a ideia de que existe uma tênue linha que conecta eventos, sentimentos e reações. Carregamos em nossas células o DNA de nossos ancestrais, com informações que moldam não apenas nossa biologia, mas também nossa forma de reagir diante das situações da vida. Essa noção encontra eco em estudos da epigenética, que mostram como experiências vividas por gerações anteriores podem influenciar comportamentos e predisposições atuais.
Assim, o que nos define como indivíduos está no nosso sangue, mas também no lugar onde nascemos e crescemos, que contribui para moldar nosso patrimônio genético e cultural. Somos resultado de uma herança múltipla: biológica, histórica e afetiva. Devemos nos orgulhar de sermos um conjunto bem-sucedido de ancestrais, pois cada gesto, cada escolha e cada emoção que carregamos é parte de uma narrativa maior que nos antecede.
A literatura, nesse sentido, torna-se uma ponte poderosa: ao escrever, busco transformar essas conexões invisíveis em histórias palpáveis, que permitem ao leitor reconhecer-se como parte de uma linhagem e, ao mesmo tempo, como protagonista de sua própria trajetória. Uma tênue linha é justamente esse convite, para que cada leitor perceba que sua identidade é feita de fios delicados que unem passado, presente e futuro, e que a beleza está em reconhecer-se como continuidade e renovação.
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Ambos com formação em Letras, são professores, escritores e palestrantes, com dezenas de livros publicados por diversas editoras. São colunistas da revista Conexão Literatura.



