Ademilde Felix nasceu em Campinas, SP e mora atualmente em Paulínia. É formada em Letras pela PUC Campinas, tem mestrado e doutorado em Linguística Aplicada pela Unicamp. Foi professora no curso de Letras na PUC; na Unicamp atuou como vice-diretora do RH Central, assessora do diretor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação e responsável pelo Laboratório de Acessibilidade. É autora dos livros Só podia ser o Christiano e outras histórias do dia a dia da FEEC (autopublicação), A anjinha que escondia as asas (Lura editorial) e Por que os pavões gritam (editora Urutau). Seus textos apresentam temáticas como inclusão, etarismos e empoderamento feminino.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Ademilde Felix: Quando adolescente, eu tinha um caderno onde copiava poesias, principalmente as de Cecília Meireles. Também redigia meus próprios pensamentos e pequenos poemas. Fui uma menina sonhadora.

Como gostava de escrever, me inscrevi no curso de Letras. Fiz o vestibular e passei. Só que esse curso não formava para a escrita literária. Aliás, naquela época não havia essa quantidade de cursos para formação de escritores. A escolha ocorria entre magistério, secretariado bilíngue ou tradução. Me formei em magistério para a língua inglesa. No mestrado parti para a área de formação de professores e no doutorado fiz pesquisa sobre inclusão de alunos surdos em aulas de português e inglês nas escolas públicas.  

Durante o dia trabalhava na área administrativa da Unicamp e à noite ministrava aulas na PUC. Ou seja, ao ingressar na vida profissional, abandonei a escrita.

Somente em 2015, já com a carreira consolidada, publiquei meu primeiro livro. Na época eu era assessora do diretor na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Unicamp. Os professores e funcionários gostavam de conversar comigo e contar fatos e eu me encantava com os relatos. Quando abriu um edital para selecionar livros para publicação, percebi que tinha a oportunidade de voltar a praticar a escrita dessas histórias. Submeti o manuscrito e o livro foi aprovado. Contei com colegas da universidade para a elaboração da publicação – uma jornalista da assessoria de imprensa fez a revisão, um técnico da área de marketing fez a diagramação, o pessoal da biblioteca me auxiliou com a ficha catalográfica e ISBN. O lançamento foi um sucesso – participaram o reitor, os pró-reitores, professores e funcionários.

Só que fui promovida para um cargo na Reitoria e a escrita foi deixada de lado novamente.

Durante a pandemia, presa em casa como todo mundo, conheci os cursos de escrita literária e retomei a escrita de textos – contos, infantis, autoficção.

Em 2025, dez anos depois do meu primeiro livro, voltei a publicar um infantil e um de contos.   

Conexão Literatura: Você é autora do livro “Por que os pavões gritam”, poderia comentar?

Ademilde Felix: Eu já tinha alguns contos redigidos, resultantes dos trabalhos desenvolvidos nos cursos e oficinas dos quais participei. Decidi organizá-los em um livro e submetê-los para apreciação em uma sessão de pitch para uma editora. O retorno que tive é que seria interessante se houvesse algum tipo de ligação entre eles. Foi aí que decidi colocar um casal de pavões passeando pelos contos.

Embora as histórias acompanhem a trajetória do casal, elas são independentes, ou seja, podem ser lidas separadamente.

E qual é a organização dessa coletânea? Um pavão é forçado a abandonar a mata onde vivia e parte em busca de um novo território. Uma pavoa o acompanha nesta jornada e o casal chega em um bairro novo, despertando sentimentos diversos nos moradores, que podem ser de fascinação diante da cauda colorida e exuberante ou de irritação e desprezo pelos gritos agudos a qualquer horário do dia ou da noite.

Os pavões passam pelas vidas dos habitantes e os dramas dos protagonistas vão se revelando – da vendedora negra que trabalha em uma loja de grife, da única mulher que estuda em um curso puramente masculino, da professora idosa que se percebe invisível nos ambientes que frequenta. Disputas de classe, raça e gênero ganham forma nas narrativas breves que exploram sentimentos que tentamos reprimir, mas permanecem à espreita, prontos para emergir. Gestos, olhares e silêncios são pistas do que os personagens pensam de fato sobre aquele que é “diferente” ou que julgam como inferior. As situações são apresentadas de modo a deixar o leitor se questionando o que realmente está acontecendo naquele contexto ou qual o verdadeiro caráter dos protagonistas, que podem ser oprimidos pelas situações vivenciadas. Ou os opressores. Ou ambos.

Os contos são independentes, mas têm como fio condutor, além dos pavões, os embates silenciosos e ferozes que revelam preconceitos cotidianos – de gênero, raça, idade e outros. Me pergunto se, de algum modo, também nos enxergamos nesses confrontos. Até que ponto esses sentimentos estão ocultos dentro de nós?

Os temas abordados nas narrativas fazem/fizeram parte do meu universo pessoal e profissional. Quando fui diretora adjunta do RH central na universidade, tive que arbitrar situações de machismo e misoginia. Durante a fase em que fui responsável pelo órgão que auxiliava alunos e professores com deficiência, presenciei as lutas travadas pela inclusão e permanência desse público na instituição. Como mulher negra vivenciei situações de discriminação racial. Por ter pais idosos, observo e sofro com eles as dificuldades para aceitar as limitações impostas pelo avanço da idade. Os conflitos que presencio, vivencio e ouço cobram para que eu os apresente para o mundo em forma de escrita.

Além disso, moro em um lugar onde há pavões. Houve uma época em que contávamos com mais de 15 caminhando livremente, voando nos telhados e pousando nos fios de energia. Lindos? Sim! Mas eles despertam paixão em algumas pessoas e ódio em outras. A cauda em forma de leque é bela, mas os gritos são agudos e ocorrem a qualquer momento do dia. Ou da noite.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Ademilde Felix: As inspirações para minha escrita vêm das coisas que observo, ouço e vivencio no dia a dia. Quase todas as histórias se baseiam em eventos que realmente ocorreram. E elas ficam martelando na minha cabeça, me pedindo para ser escritas.  Enquanto não as coloco no papel, não me dão sossego.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do seu livro especialmente para os nossos leitores?   

Ademilde Felix: “[Ana] começou a levantar a mão lentamente para sinalizar sua intenção. Com espanto, sentiu uma mão pousando sobre a dela, forçando-a com uma afabilidade incisiva para baixo, até que voltasse à mesa. Era a mão de Wilson, discreta o suficiente para que o professor não se atentasse para o gesto. E um sussurro:

– Acho melhor você não fazer pergunta agora. Pode deixar que te explico mais tarde como as coisas funcionam.”

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Ademilde Felix: Por enquanto o livro pode ser adquirido somente pelo site da editora Urutau: @editoraurutau

Para me conhecer um pouco mais, basta me seguir no Instagram: @escritosdaade

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura no Brasil?

Ademilde Felix: Para mim tudo é muito complexo. A pesquisa Retratos da Leitura 2024 nos mostra que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro. Por outro lado, as redes sociais estão repletas de influenciadores dando dicas de livros e recebem centenas de curtidas. Li uma reportagem que mostra eventos literários lotados. Questiono o que as pessoas estão fazendo com os livros comprados nas bienais e feiras de livros.

Vale ressaltar que milhares de novos títulos são lançados no Brasil. O mercado editorial brasileiro é muito ativo. Ou seja, temos eventos para estimular a leitura, há novos livros, há pessoas falando sobre livros, nos shopping centers há quiosques que vendem livros de todos os segmentos a R$ 10,00. O que mais pode ser feito para estimular as pessoas a lerem? Sei que é preciso incentivo da escola e em casa. Os pais? Entendo o dia a dia corrido. Mas se os pais não leem, então temos um problema. A escola? Talvez seja preciso entender o que a molecada goste de ler.

O primeiro livro que li foi A ilha perdida de Maria José Dupré. Ninguém precisou me incentivar. Depois passei para a fase de Júlia e Sabrina. Algum tempo depois descobri o Círculo do livro. Recebíamos uma revista em casa e tínhamos que escolher os livros que queríamos adquirir. Foi uma festa – li Agatha Christie, Colleen McCullough, Jorge Amado, Harold Robbins, Sidney Sheldon.  Hoje em dia continuo com o hábito de ler todos os dias – livros brasileiros contemporâneos e de vários continentes: asiáticos, africanos, europeus, latinos. E não é uma quantidade grande de páginas. Mas é todos os dias.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Ademilde Felix: Sim, iniciei a escrita de um livro infantojuvenil que aborda questões de meio-ambiente e tenho em fase avançada uma autoficção que mostra a trajetória de 3 gerações de uma família de negros no interior do estado de São Paulo.

Perguntas rápidas:

Um livro: O ninho, de Bethânia Pires Amaro

Um ator ou atriz: Viola Davis

Um filme: Interestelar

Um hobby: atividade física. Fico na academia de 2ª. a sábado, das 8h00 às 11h

Um dia especial: O dia do lançamento de Por que os pavões gritam

Conexão Literatura: E sobre os pavões?

Ademilde Felix: Uma curiosidade sobre os pavões é que eles são territorialistas. Se jogo sementes para uma fêmea, ela expulsa todos os demais a poder de bicadas enquanto houver comida. É engraçado vê-la correndo atrás dos outros. O macho abre as asas e dá passos em direção ao oponente para afastá-lo do espaço que definiu como dele. Algumas coisas se repetem em todas as espécies.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Ademilde Felix: Meu sonho é que o Brasil se torne um país de leitores. Temos excelentes livros que merecem ser lidos. No metrô de São Paulo vemos pessoas concentradas na leitura durante o trajeto, mas poderíamos ter também nos cafés, nos bancos dos shoppings e praças, nas academias enquanto caminhamos na esteira ou pedalamos na bicicleta. E precisamos descobrir como incentivar as crianças e jovens a se tornarem ávidos pelos livros.   

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