É interessante notar como as produções audiovisuais de corte comercial dos últimos tempos modificaram a figura do herói, transformando-a no arquétipo que hoje vemos nas telas.
Na mitologia grega, fonte mais popular dos mitos heroicos da antiguidade, as ameaças mais terríveis, que desafiavam a sobrevivência da sociedade, eram enfrentadas por indivíduos de capacidades sobre-humanas. Essas capacidades se originavam de uma genética parcialmente divina. No caso de Héracles (Hércules, na versão latina), que venceu a Hidra de Lerna, a paternidade foi atribuída a Zeus, o deus atmosférico entronizado no Olimpo; no caso de Teseu, que eliminou o Minotauro, o responsável teria sido Poseidon (Netuno), senhor dos mares. Em ambos os casos, as mães eram mulheres de grande graça e beleza, seduzidas e fecundadas pela divindade masculina de turno. As capacidades especiais desses heróis não correspondiam a superpoderes incongruentes com a natureza humana – como voar, lançar raios, ou contar com visão de raio-x –, mas sim ao reforço de atributos comuns aos indivíduos da nossa espécie, tais como força física, destreza e perspicácia.
Ao longo do conturbado século XX, vimos a cultura de massas apropriar-se do mito do herói e adaptá-lo às exigências do momento, gerando lucros significativos com o sucesso dessas histórias, na medida em que tinham ressonância na psicologia social. Afinal, como sabemos, as ameaças civilizatórias não se dissipam com o avanço tecnológico; pelo contrário, tornam-se mais temíveis e complexas, e isso levou a uma escalada nos atributos dos heróis modernos. Para enfrentar os novos desafios, não bastavam aos heróis modernos capacidades sobre-humanas similares às de seus ancestrais gregos. Eles tinham que possuir superpoderes, do tipo voar, lançar raios, ter visão de raio-x, serem virtualmente indestrutíveis, etc. Os superpoderes provinham, basicamente, de duas origens. De um lado, havia os heróis oriundos de civilizações extraterrestres, ou universos míticos: Super-homem, Mulher-maravilha, Thor. De outro, os heróis cujos poderes eram derivados da tecnologia, em sua maioria de acidentes em experimentos científicos, não raro envolvendo radioatividade: Capitão América, Hulk, Homem-aranha, Quarteto Fantástico, Demolidor. No caso do Homem de Ferro e do Batman, os superpoderes não estavam entranhados no personagem, sendo, antes, produto de puro engenho tecnológico.
Note-se que havia a preocupação de fornecer uma explicação pretensamente científica para a origem desses superpoderes, na tentativa de convencer o público de sua verossimilhança. Com isso, quero salientar que a crença nas capacidades dos super-heróis não abolia completamente a racionalidade. É claro que isso exigia uma suspensão parcial da dúvida, num pacto de aceitação das explicações pseudocientíficas como válidas no ambiente ficcional.
Com o posterior surgimento dos X-Men, uma nova geração de heróis passou a contar com superpoderes originados de mutações genéticas aleatórias. No meu modo de ver, aqui começa uma etapa de transição, em que a explicação para a origem do superpoder perde força. Mutantes surgem a todo instante, em todas as partes, aleatoriamente, ostentando poderes os mais diversos. Além disso, à diferença de seus predecessores tipicamente modernos, os mutantes não têm um caráter moral definido: podem inclinar-se tanto para o bem quanto para o mal. Não há como saber se o mutante mais próximo é do bem ou do mal, somente sua conduta irá dizê-lo. O problema é que até ver como ele se comporta você poderá ser trucidado, ou, na melhor das hipóteses, desintegrado.
Após um período de reciclagem dos heróis modernos na indústria do cinema e do streaming, chega-se ao estágio atual, em que protagonistas humanos, inexplicavelmente, apresentam poderes muito superiores aos dos reles mortais. Um traço frequente desses heróis pós-modernos é sua promiscuidade com o mundo do crime. John Wick ilustra bem o conceito: um matador profissional, capaz de proezas insuperáveis, que se volta contra figuras do crime movido por um desejo pessoal de vingança. John Wick não está combatendo o crime, seu alvo não é todo e qualquer criminoso, não se trata de um justiceiro, como o personagem de Charles Bronson no clássico Desejo de matar (1974), em que o revide encerra uma condenação radical ao crime. John Wick não passa de um criminoso, mais talentoso que os demais, executando uma vingança pessoal. Um exemplo parecido encontramos em O Contador (1 e 2), em que um contador autista trabalha arrumando a contabilidade de grandes grupos criminosos, até o instante em que sua vida é ameaçada. O que falta ao personagem, interpretado por Ben Affleck, em termos de habilidade social, sobra em destreza letal no manejo de armas e nas artes marciais. No dizer de uma resenha sobre o filme, retirada de um site na internet: “O contador com superpoderes é tão poderoso quanto aqueles personagens dos quadrinhos.” Também li que “finalmente os autistas podem ter o seu herói” (assustador, não?). Cabe, ainda, lembrar o Jason Statham de Carga explosiva (1 e 2), em que um motorista de aluguel faz entregas altamente suspeitas, sem se importar, em princípio, com o tipo de carga que transporta. Já em O equalizador (1, 2 e 3), o personagem de Denzel Washington não se confunde com os criminosos, embora se revele um matador frio, com um passado obscuro de serviços para o governo e habilidades que beiram o sobre-humano.
Enfim, o herói pós-moderno das telas de hoje é basicamente um assassino, que não precisa explicar de onde vêm seus poderes extraordinários, nem lutar por um ideal maior. Precisa, somente, saber livrar-se de apertos imediatos, movido por uma agenda pessoal, e aniquilar seus inimigos sem hesitação, com precisão robótica. Num mundo sem utopias, amplamente dominado pela razão instrumental e com fronteiras morais difusas, parece não mais haver espaço para heróis essencialmente éticos, centrados na defesa de valores coletivos. O passado (origem) e o futuro (projeto) deixam de ter importância, o que vale é garantir a sobrevivência em pequena escala: a do protagonista – para poder seguir com sua vida sórdida – e de alguém mais que queira proteger.
O momento parece propício para se rediscutir os heróis e seu valor simbólico na cultura de massas. Ou, simplesmente, contentar-nos em “consumir” o novo arquétipo ora em voga.

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