
Nosso idioma enriqueceu-se, eis que nova palavra foi admitida no dicionário: misocinesia! Onde os fogos de artifício? Onde o espumante a jorrar, colhido em ávidas taças, acompanhado do brinde de boas-vindas à recém-chegada?
Talvez a ausência de comemoração se explique porque a nova palavra designe um tipo de afecção psicológica, caracterizada pela aversão a movimentos repetitivos, tais como o balançar de pernas inquietas, o tamborilar de dedos, ou o enrolar de fios de cabelo na ponta das falanges. Segundo estudos recentes, cerca de 30% dos indivíduos pesquisados manifestaram algum grau de incômodo com esse padrão de movimento. O significado da palavra, portanto, poderia estar inibindo a comemoração.
Talvez não se tenha comemorado o reconhecimento do vocábulo por culpa de sua impessoalidade: o fato é que não há, até o momento, um nome específico para aqueles que padecem de misocinesia. Como somos uma espécie que preza, e muito, a subjetividade, não nos conformamos facilmente com a impessoalidade absoluta, o que nos leva a querer preencher a lacuna vernacular recorrendo a comparações com outras palavras dotadas do prefixo “miso”. O resultado se mostra, no entanto, inconclusivo: quem sofre de misoginia (aversão ao sexo feminino), por exemplo, é misógino; por outro lado, quem sofre de misoneísmo (aversão ao que é novo, ou que comporta novidade) é misoneísta. Então, os que padecem de misocinesia seriam misocinéticos, ou misocinesistas?
Talvez não se tenha, ainda, comemorado a incorporação do vocábulo por conta de um erro de dicionarização. Na versão online do Aurélio, misocinesia aparece classificada como adjetivo, em vez de substantivo feminino. Trata-se, evidentemente, de um lapso, que precisa ser corrigido o quanto antes (ô, pessoal do Aurélio, corre lá para consertar essa falha!). Surpreendidos com essa falha, só estaríamos aguardando a reclassificação da palavra para poder comemorar sua entrada em campo.
Talvez, por encontrar-nos no país do Carnaval, a misocinesia esteja fadada à impopularidade. Seguramente, qualquer tipo de aversão à repetição de movimentos merecerá, no mínimo, a desconfiança de um público afeito ao frenesi carnavalesco. Daí, a provável implausibilidade de se pensar, sequer, em comemorar a admissão de tal vocábulo.
Talvez não tenha havido comemoração devido à natureza mesma do fato, que o condena a passar despercebido. Por um lado, a incorporação de novas palavras ao idioma não configura fenômeno raro. Volta e meia acontece, e a gente nem fica sabendo. Podia-se criar um boletim para divulgar as novidades linguísticas, mas quem é que lê boletins? Por outro lado, o fato não seria notado porque o interesse geral pela língua é baixo. Como se sabe, a maioria de nós se aferra a dois princípios elementares: o de que o português tem regras demais, impossíveis de dominar; e de que já sabemos o suficiente para ir levando a vida. Nesse esquema mental, uma nova palavra representa apenas um grão de areia num enorme deserto.
Poderíamos, talvez, simplesmente comemorar o fato de nossa língua ter o dom de despertar curiosidade e inspirar reflexões, de tal forma que uma palavra nova signifique um oásis, um ponto de reabastecimento e reanimação, a partir do qual seguimos, revigorados, no caminho do aprendizado em todos os quadrantes da vida, sejamos, ou não, misocinéticos. Ou misocinesistas.
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Bert Jr. é gaúcho de Porto Alegre, formado em História (UFRGS) e Diplomacia (IRBr). Como diplomata, tem vivido em diferentes países. É autor de dois livros de contos, três de poesia, e do romance Antes do fim do riso. Lançou, também, Sem pé com cabeça – crônicas do século 21, coletânea de escritos humorísticos publicados na Revista Conexão Literatura.
Site: www.bertjr.com.br