*Por Lorrayne Saraiva

Eu
não tenho o hábito de ouvir a conversa alheia. Em fato, eu tinha; mas
mamãe e vovó fizeram o favor de aniquilar essa repulsiva mania de mim,
desde que fui pega ouvindo atrás da porta e, precisei passar a tarde
inteira ajoelhada no milho. Fiquei tão apavorada com o estado de minhas
rótulas depois, que nunca mais espichei as orelhas para a conversa de
ninguém… Até hoje.

Vivi uma manhã tumultuada: filhos
chorando, marido reclamando, o relógio correndo mais do que eu, o
encanamento dando problema, o telefone ficou mudo, e pra completar,
queimei minha blusa favorita pois a esqueci debaixo do ferro de passar
roupa… O atraso para o trabalho foi apenas consequência de uma
corrente de infelizes acontecimentos. Quando cheguei no ponto de ônibus,
estava em tal estado de estresse que, ao subir em um ônibus lotado –
muito lotado – nem me incomodei com o aperto de corpos, casacos e bolsas
– eu só desejava que aquele ônibus me levasse para longe dali, de mim, e
de todo aquele caos pessoal.

Quis o destino que, o
assento ao lado de uma mulher à minha direita ficasse vago. Rapidamente,
sentei acomodando minha sacola com guarda-chuva e alguns livros no
colo, e minha cabeça no encosto. Fechei os olhos, e respirei. O ônibus
parou no sinal, mais alguns passageiros entraram, e assim ele seguiu seu
caminho. Dentro de mim, uma fresta de alegria se abriu no meu muro de
mau-humor; um agradável sol entrava pela janela do veículo e beijava
minha face amorosamente com seu calor. Era bom. Relaxante. E de repente,
entrei nesse estado de quase meditação: sentindo o calor, o balançar, o
silêncio, até este último ser cortado pelo estridente toque de celular
da mulher sentada ao meu lado. Ligeiramente irritada pela interrupção da
calmaria que eu começava a conservar em mim, reparei na moça: tinha um
comprido cabelo alaranjado, e uma franja cheia sobre os olhos verdes
escuros, que ficavam por trás de óculos fundo de garrafa. Vestia talvez
mais de dez tons de verde e, seu perfume parecia ser de chiclete, ou
qualquer algo muito doce.

Ela disse ”alô” com uma
voz fanha, e arrastada que fez os pelos da minha nuca se eriçarem.
Depois soltou um pigarro, e a voz melhorou.

Contrariada,
virei para o lado da janela, e decidi bloquear o que a outra dizia ao
meu lado, mas em dado momento, não pude mais deixar de ouvir:


Maristela, eu te disse… Eu te disse que o sujeito não prestava! Ele
abriu a cabeça da pobre Lígia com o facão de cortar carne da mãe dela!
Foi uma desgraça… Foi, foi… Terrível! O homem é um Nosferatu, sabe? 

Repentinamente, todo o meu mundo entrou em desfoque
total, e eu senti que havia nascido apenas para ouvir mais sobre o
triste fim da pobre Lígia, e de seu Nosferatu.

E aquela naturalidade em narrar aqueles fatos… 

— Não, querida Mari, e você não sabe o pior!

Gelei! O que podia ser pior que partir o crânio de alguém em dois?!

— Isso mesmo! As calcinhas! — ela disse como se confirmasse um número de bilhete de loteria.

As calcinhas? Pensei com meus botões. O que tinha a ver calcinhas com o caso?


Creio que foram duas calcinhas sujas, que ele encontrou penduradas na
torneira do chuveiro. Encontraram-nas depois poucos metros do terreno da
casa. Sim, foi com elas que limpou suas impressões digitais no facão.

Calafrios
percorreram minha espinha. Pensei em todas as minhas calcinhas: a
surrada bege muito usada, a fio dental vermelha, a azul turquesa estilo
biquíni… Nenhuma delas serviria dignamente para limpar uma impressão
digital. Não pareciam heroicas o suficiente.

— E
depois, o Orlando passou mal, e por pouco não morreu também. — ela
continuou a conversa no telefone. — Sim, o pobrezinho comeu os miolos da
morta que ficaram caídos pelo chão.

O quê?! Senti o
estômago embrulhar. O que diabos estava pensando esse homem em comer os
miolos da morta?! Eu estava inteira arrepiada — era de longe, a pior
história que eu já havia ouvido.

— Sim, sim. Levaram ele a tempo pra emergência do veterinário. E o bichano sobreviveu!

Deixei escapar um suspiro de alívio: era um gato, afinal.


A gente tem que ter muito cuidado com esses homens. É verdade, Mari!
Veja só você: o tal Alberto parecia ser um partidão, e era: acabou
partindo a cabeça de Liginha. Pois sim, no começo era ”eu te amo” pra
lá, ”minha princesa” pra cá, romance puro. Eles não se desgrudavam.
Mas bastou um ato falho de Liginha e puff! Acordou no beleléu!

Àquela
altura do campeonato, eu não sabia se queria saber o que raios a tal
Liginha tinha feito pra acabar morta, na cozinha de casa, com a cabeça
partida, tendo seu gato comendo-lhe os miolos. 

Imaginei-a
muito branca, com os olhos vivos e castanhos emoldurados por cílios
grossos e cumpridos. Em minha mente, ela vestia seu habitual vestidinho
azul de florezinhas brancas, antes de morrer. Talvez estivesse na
cozinha cozinhando o almoço – quem sabe, uma refeição para aquele que
viria a ser seu assassino. Eu a vi, muito nitidamente: barriga encostada
no fogão, boca cantando uma antiga cantiga, enquanto espiava,
tranquila, um sol forte e claro entrar pela janela, acompanhado de uma
leve brisa que fazia dançar as cortinas finas e rosas. Quando cozinhava,
mexia os quadris, como sua mãe. Mas a especialidade da mãe era doce;
Lígia quando menina se deliciava com os doces de abóbora, canjica, arroz
doce que dona Mariana fazia. Era até meio gorducha. Depois que ficou
moça foi que emagreceu – tomou corpo, e fisgou Alberto. Quem sabe eles
tenham se conhecido na fila de algum parque de diversão. Se apaixonado
na roda-gigante. Tomado milkshake de morango juntos. Depois, Lígia se
desapaixonou de Alberto, e se encantou por Renato. Alberto não aceitou
e, esperou sua deixa para pegar Liginha sozinha em casa, e acabar com a
vadia.

— Acredito que suas palavras antes da
condenação foram ”ela partiu meu coração. Então eu lhe parti o
crânio!” — concluiu a mulher à Maristela que provavelmente ouvia aquele
relato tão horrorizada quanto eu. — Isso, isso! Em dez minutos chego
aí! Vou descer do ônibus agora.

E com um movimento de
erguer o braço, ela puxou a cordinha que sinalizava ao motorista uma
parada, levantou do meu lado, e desceu.

E depois nada.
Fiquei a sós com o fantasma de Lígia e sua cabeça aberta. De repente,
me vi profundamente triste pela morte daquela mulher que eu jamais
conheci — e que jamais conheceria. E quando o ônibus seguiu, chorei até
chegar no trabalho.

*Lorrayne Saraiva
escreve profissionalmente há 5 anos. Romancista, contista e poetisa, tem
dois livros publicados: ”A Ajuda Veio do Céu” (2014), Editora Schoba,
e ”Sobre Vivência”  (2018), Editora Multifoco”. Além de publicar
diversos artigos em sua página no Medium, e em outros veículos online.
medium.com/@lorraynesaraiva
Lorsaraiva21@gmail.com

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