
Salatiel Soares Correia é engenheiro eletricista, administrador de empresas e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp. Ao longo da vida, descobriu que a técnica, sozinha, não bastava para compreender o mundo. Encontrou na literatura, na história, na economia e nas viagens novas formas de olhar para a vida. Leitor dos grandes clássicos, acredita que diferentes áreas do conhecimento se complementam e ajudam a enxergar a realidade de forma mais ampla. Autor de dez livros e articulista da imprensa há mais de 30 anos, escreve para compartilhar esse olhar e provocar reflexões sobre as pessoas, a sociedade e o tempo em que vivemos.
ENTREVISTA:
Revista Conexão Literatura: O ponto de partida de O Jogo Invisível das Instituições é bastante original ao transportar o olhar de William Shakespeare para o universo das instituições. Como surgiu essa ideia e de que forma a obra do dramaturgo influenciou a construção do romance?
Salatiel Soares Correia: A ideia surgiu da minha experiência observando o comportamento humano ao longo de muitos anos, especialmente em momentos de crise nas instituições. Sempre me chamou a atenção que os problemas costumam ser explicados apenas pelo aspecto técnico, quando, na verdade, são as escolhas das pessoas que determinam o destino das organizações. Ao reler Hamlet, percebi que Shakespeare revelava a natureza humana justamente em ambientes de disputa, poder e desconfiança. Foi esse insight que inspirou o livro. Criei um observador que acompanha os acontecimentos sem julgar. Cabe ao leitor tirar suas próprias conclusões sobre o caráter dos personagens e refletir sobre como as pessoas agem quando acreditam que ninguém está olhando.
Revista Conexão Literatura: O livro apresenta um observador invisível que acompanha os acontecimentos sem interferir. Por que você escolheu esse recurso narrativo e quais possibilidades ele oferece ao leitor.
Salatiel Soares Correia: Escolhi esse recurso porque queria investigar a natureza humana sem interferir na história. O observador invisível apenas acompanha os acontecimentos e permite que o leitor enxergue os personagens como eles realmente são, sem máscaras, sem justificativas e sem fingimentos. Esse olhar parte de um universo específico, mas revela comportamentos que se repetem em qualquer ambiente. As instituições mudam, os cenários mudam, mas as escolhas humanas se repetem. O observador não julga ninguém. Ele apenas mostra os fatos. Quem tira as conclusões é o leitor.
Revista Conexão Literatura: Ao retratar instituições imaginárias, você evita apontar casos específicos e concentra a atenção no comportamento humano. Essa escolha teve como objetivo tornar a narrativa mais universal?
Salatiel Soares Correia: É exatamente isso. Procurei tornar a história uma coisa universal, porque onde tem gente, tem esse tipo de situação. Então parto de um mundo pequeno e procuro estender para um mundo maior, que é o mundo real das pessoas. O ser humano, esteja ele onde estiver, vive conflitos, enfrenta dúvidas e comete transgressões. Foi isso que procurei fazer. Por isso, criei reinos imaginários. Não queria escrever sobre a empresa X ou a pessoa Y. Isso não importa. O que importa é mostrar os fatos e o comportamento humano, sem personalizar. Isso tornaria o texto pequeno. A principal razão dessa escolha foi dar ao livro uma dimensão mais universal. O ser humano, seus dramas, suas tristezas e seu caráter transcendem a história. Não importa se ela acontece em Goiânia, em São Paulo ou em qualquer outro lugar. O que importa é que o ser humano é ser humano em qualquer lugar.

Revista Conexão Literatura: Um dos aspectos mais marcantes da sinopse é a análise das relações de poder, dos silêncios cúmplices e das escolhas morais. Até que ponto esses elementos refletem situações vividas no cotidiano das organizações?
Salatiel Soares Correia: Esses elementos fazem parte da realidade das organizações. Os silêncios, as escolhas morais e as cumplicidades mostram o que o ser humano é dentro de uma instituição. Foi exatamente isso que procurei retratar, porque essas atitudes acabam se impregnando na cultura organizacional. Quando alguém usa o poder para fazer algo que não é ético, muitas vezes age porque acredita que não será punido ou responsabilizado. Aos poucos, esse conjunto de escolhas vai criando um ambiente em que a perda de princípios passa a ser vista como algo natural. No livro, procurei mostrar esse processo. A instituição vive um período de apogeu, em que as coisas são feitas corretamente e a ética está presente. Depois, começa um processo de decadência que, antes de ser administrativa ou financeira, é uma decadência moral. As escolhas silenciosas, as cumplicidades e as decisões tomadas longe dos olhos de todos vão se acumulando e acabam corroendo a organização por dentro.
Revista Conexão Literatura: Em sua obra, a corrupção e o assédio moral aparecem como práticas que podem ser naturalizadas pela cultura institucional. Quais reflexões você espera despertar nos leitores sobre esses temas?
Salatiel Soares Correia: Procurei mostrar exatamente isso. Quando comparamos os momentos de glória de uma instituição com os momentos de decadência, percebemos que os valores também mudam. Nos períodos de glória, determinadas práticas simplesmente não existiam, porque as pessoas respondiam pelas suas atitudes e havia um compromisso maior com a ética.Com o tempo, a cultura da instituição passa a incorporar outros valores, muitos deles questionáveis. Quando alguém usa o poder para fazer algo que não é ético, muitas vezes age porque acredita que não será punido. Aos poucos, aquilo que antes era inaceitável passa a ser visto como normal. Foi esse processo que procurei retratar no livro.
Revista Conexão Literatura: Você afirma que o livro busca investigar a formação e a deformação do caráter humano. Durante a escrita, qual foi o maior desafio para representar essa complexidade sem cair em estereótipos?
Salatiel Soares Correia: Procurei evitar os estereótipos por meio da diversidade dos personagens. Eles têm histórias e perfis diferentes, mas vivem a mesma realidade dentro de uma instituição que deixa para trás os valores alicerçados na ética e passa a conviver com a esperteza e a falta de caráter. Essa diversidade foi importante para preservar a universalidade da narrativa. O que une os personagens é o comportamento humano diante de um ambiente em decadência.
Isso ficou muito claro nas conversas que tive com leitores. Um colega da Usiminas disse que viveu exatamente aquela realidade. Outro fez a mesma observação. Isso mostra que o ser humano é ser humano em qualquer lugar. Foi isso que procurei demonstrar, saindo da personalização para chegar à universalidade.
Revista Conexão Literatura: O título O Jogo Invisível das Instituições desperta curiosidade logo à primeira vista. O que exatamente representa esse “jogo invisível” e por que ele costuma passar despercebido pela maioria das pessoas?
Salatiel Soares Correia: O jogo invisível é justamente aquilo que acontece longe dos olhos da maioria das pessoas. São decisões, acordos e conchavos feitos na calada dos gabinetes, protegidos pelo sigilo e por relações de poder. Quem está fora dessa rede não consegue enxergar como determinadas decisões são tomadas. O que é ilícito procura sempre permanecer escondido. Muitas vezes, as pessoas apenas veem o resultado de uma decisão, mas não sabem como ela foi construída nem quais interesses estavam por trás dela. Quem não tem ética, acredita que não será punida e sabe que conta com a proteção da cúpula da instituição. Por isso, sente-se invisível para agir. É por isso que esse jogo permanece invisível. Ele acontece dentro das instituições, protegido por uma rede de relações à qual a maioria das pessoas não têm acesso.
Revista Conexão Literatura: Embora a narrativa trate de instituições fictícias, ela aborda conflitos éticos que parecem universais. Você acredita que o leitor conseguirá identificar esses mecanismos também em diferentes contextos da sociedade?
Salatiel Soares Correia: Isso existe. É natural. Um trabalhador que está em um hospital e outro que trabalha em um parque de diversões convivem com pessoas e com colegas. Um se sobressai, um é promovido e o outro não. Um é demitido e o outro permanece. Isso traz inveja. A inveja é uma coisa universal. A perseguição também existe e faz parte de todas as organizações. Se o leitor já passou por uma situação como essa, vai reconhecer o que está sendo contado, esteja ele trabalhando em um hospital, em um cemitério, em um bazar ou em qualquer outro lugar.
Onde tem ser humano, onde tem convivência entre pessoas, onde tem injustiça e inveja, essas situações existem. É por isso que elas transcendem a narrativa e o leitor percebe esse tipo de coisa.

Revista Conexão Literatura: Sua sinopse sugere uma análise quase clínica das relações humanas. Como foi o processo de pesquisa e preparação para construir uma narrativa tão voltada aos aspectos psicológicos e institucionais?
Salatiel Soares Correia: O processo de pesquisa começou com a minha própria experiência. Depois de mais de 35 anos convivendo com organizações, acabei conhecendo o lado informal das relações entre as pessoas. São histórias, comentários e situações do dia a dia que, muitas vezes, acabam se transformando em fofocas.
Se eu escrevesse um livro apenas sobre esses episódios, faria um livro muito pequeno, que não acrescentaria nada ao grande debate. Foi por isso que busquei na literatura o caminho para transformar essas experiências em uma reflexão mais ampla. Encontrei em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, por exemplo, uma importante reflexão sobre a maldade humana. Depois, passei por Machado de Assis, que também revela as fraquezas do ser humano. Mas foi em Shakespeare, especialmente em Hamlet, que encontrei o que procurava.
Eu precisava de um observador que mostrasse as pessoas como elas realmente são, sem fingimentos, que as desmascarassem. Essa foi a chave para construir a história. A partir desse olhar, o observador acompanha pessoas que convivem há muito tempo e revela o caráter de cada uma delas, mostrando-as como realmente são.
Revista Conexão Literatura: Que mensagem você gostaria que permanecesse com o leitor após a última página de O Jogo Invisível das Instituições? E o que espera que essa obra provoque em termos de reflexão sobre ética, poder e caráter?
Salatiel Soares Correia: A principal mensagem que procuro deixar neste livro nasce da minha própria história de vida. Depois de 35 ou 40 anos convivendo com pessoas dentro das organizações, chego à conclusão de que gostaria de viver novamente muitas situações, mas com a experiência que tenho hoje. Muita coisa eu teria driblado.
Essas situações existem. Identifique o jogo, proteja-se, procure fazer o certo e evite pertencer a grupos organizacionais que tiram a sua liberdade.
Quem tem uma postura crítica também precisa saber que toda crítica incomoda, principalmente em organizações com elevado grau de aparelhamento. Se você tem condições psicológicas de enfrentar isso, enfrente. Se não tem, procure contornar a situação, porque senão vai sofrer demais.
Muitas vezes eu me vi envolvido em situações injustas e não percebi o jogo. Por isso, é muito importante identificá-lo para se prevenir, enfrentar ou até desistir, quando for necessário. Identificar esse jogo na raiz ajuda a conviver e a lidar melhor com as situações que encontramos ao longo da vida.
Revista Conexão Literatura: Como os leitores poderão saber mais sobre você e sua obra?
Salatiel Soares Correia: Este é o meu décimo livro. Já escrevi obras como o Setor Elétrico Brasileiro: Uma Falência Mais do que Anunciada e A Construção de Goiás. São livros que procuram mostrar às pessoas a realidade das coisas. Estão disponíveis nas grandes redes.
Quem quiser saber mais sobre mim vai encontrar isso nos meus livros, nos artigos que escrevo e nos jornais em que atuo. Embora sejam jornais regionais, são veículos importantes nas regiões onde vivo e acompanho há muitos anos.
Na internet também é possível encontrar muito do meu trabalho. Há mais de 30 anos escrevo para jornais como o Diário da Manhã, o Jornal Opção, o Empório de Minas e o Jornal do Tocantins. Ao longo desse tempo, sempre procurei escrever sobre temas que fazem parte da minha trajetória, como o combate à corrupção, a defesa do patrimônio público e o fortalecimento das instituições.
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros e várias revistas literárias, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Itália, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



