
A escritora e professora Clarissa Xavier Machado, nascida no Rio de Janeiro e residente no Sul de Minas desde 2017, construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre culturas, idiomas e afetos. Formada em Letras e Direito, pós-graduada em tradução, literaturas brasileira e inglesa, e atualmente pós-graduanda em Neurociências da Educação, Clarissa alia sua bagagem acadêmica à produção literária e ao ensino. Autora de Pelas Águas de São Lourenço, Buen(os) Aire(s) e do livro didático São Lourenço, Cidade da Gente, também participa ativamente de coletivos literários e projetos solidários, além de colaborar com revistas e jornais literários, entre eles a Revista Conexão Literatura. Nesta entrevista, ela fala sobre suas obras, sua atuação cultural e o papel da literatura como ferramenta de transformação social.
Entrevista:
Revista Conexão Literatura: Seu percurso acadêmico é bastante diversificado, passando por Letras, Direito, tradução, literaturas brasileira e inglesa, além da Neurociência da Educação. De que forma toda essa bagagem se reflete na sua produção literária?
Clarissa Machado: Sim. E sinto todas como áreas que se encontram e dialogam muito. A Literatura encontra o Direito no Direito à Educação, à Literatura, às Artes e à Cultura; e ambos encontram a Neurociência no tocante à Literatura Preventiva, Terapias Literárias, Arquétipos Literários e Cultura de Paz. Em meus textos, há sempre uma “deixa” para trabalhar a Literatura como ferramenta de paz, o fomento à cultura e o incentivo ao desenvolvimento do letramento literário.

Revista Conexão Literatura: Seu livro Buen(os) Aire(s) é uma homenagem à sua bisavó argentina e mistura português e espanhol na narrativa poética. Como foi o processo criativo de unir idiomas e afetos em uma mesma obra?
Clarissa Machado: Foi uma experiência linda que nasceu em meu coração ao longo de uma viagem que fiz com minha mãe. Ver o rostinho da minha mãe ao pisar a terra da avó foi um dos momentos mais emocionantes que vivi. Lá mesmo, em Buenos Aires, usando o bloco de notas do quarto do hotel comecei a escrever. Levava o bloco por todas as manzanas portenhas pelas quais passamos. Em minha infância, ouvia as histórias que minhas tias contavam sobre a minha bisabuelita Peres e olhando para o retrato dela em casa. As histórias sobre ancestrais estão muito presentes em minha família materna e paterna. As mais marcantes para mim, foram as histórias dessa minha bisavó, a que chamavam carinhosamente de “A argentina” e por parte de meu pai, foi a de Maruca Puri (a quem dediquei um poema publicado na Revista Conexão Literatura, edição de julho), chamada com afeto de “A índia”, foram duas mulheres super corajosas e muito à frente de seu tempo. Isto sempre me fascinou. Em relação, especificamente, à cultura hispânica, era constante em minha casa, a língua, a música, a cultura e a literatura; e alguns costumes que se confundem com os dos gaúchos do Brasil e ao que eu tinha proximidade pelas férias que passávamos com nossos tios do Rio Grande do Sul; e tudo isso se refletiu no livro, por isso, eu fiz questão de enfatizar as confusões na linguagem: estar falando em língua portuguesa, mas de repente eis que surge uma palavra em língua espanhola simplesmente porque essa “apareceu primeiro na cabeça”. Enfim, organizar os manuscritos de viagem para a publicação fez meu coração bater forte, porém ter o livro prontinho em mãos me levou às lágrimas. Olhei para a fotografia da minha bisavó e disse – ¡pa’ tí con todo mi amor!
Revista Conexão Literatura: Você também escreveu Pelas Águas de São Lourenço e o livro didático São Lourenço, Cidade da Gente. O que mais te inspira na cidade de São Lourenço para transformá-la em cenário e tema de sua produção literária?
Clarissa Machado: Meus pais sempre gostaram muito da cidade e, nas férias, costumávamos vir. A primeira vez em que visitei a cidade, eu devia ter cerca de 7 anos. Em 2017, ao me mudar para cá, comecei a ouvir muitas histórias sobre o lugar. Eu quis saber mais, no entanto, não encontrei livros sobre o assunto. No período do isolamento social, em virtude da pandemia, decidi coletar relatos e realizar pesquisas sobre os acontecimentos misteriosos e os personagens inusitados. Nesse processo, dei-me conta de que havia muita semelhança entre São Lourenço e Buenos Aires, o que me encantou ainda mais. Vejo São Lourenço como uma cidade com um potencial gigantesco, é um lugar pequeno, mas que abriga um acervo cultural extraordinário. A natureza, as águas e a tranquilidade são uma inspiração diária. É uma cidade encantada, é como se tivesse saído de dentro de um livro.

Revista Conexão Literatura: Além de escritora, você atua como professora de inglês na educação básica. De que forma sua experiência em sala de aula dialoga com sua escrita?
Clarissa Machado: As crianças têm um olhar muito mágico e divertido, suas observações são inesperadas, singelas e a capacidade de maravilhamento delas é sensacional. E dizem verdades! Tudo isso acaba influenciando, de alguma maneira, a produção dos meus textos. As verdades vêm todas com um brilho mágico e uma pitadinha de humor. Sou fã de crianças e trabalhar com elas é um presente. E é como eu sempre digo: eu aprendo muito mais com elas do que elas comigo, com toda certeza.
Revista Conexão Literatura: Você participa de coletivos como o Mulherio das Letras e o Grupo Literário Fonte das Letras. O que significa, para você, essa troca e esse trabalho coletivo dentro da literatura?
Clarissa Machado: Para mim, é fundamental. A Literatura precisa muito dessa representatividade, de permitir mais acesso e incentivar as novas gerações. Um coletivo permite olhares diversos e multiculturais, o que favorece o acesso à literatura, a manutenção da imaginação e da criatividade, e o incentivo à leitura e à escrita; ao mesmo tempo em que permite a modernização da Literatura, o que temos observado ser possível, por exemplo, por meio do slam, do art collage, do lettering e da escrita criativa.
Revista Conexão Literatura: Em sua trajetória, você também esteve presente em antologias de caráter humanitário e solidário. A literatura pode ser uma ferramenta de transformação social?
Clarissa Machado: Com certeza. Literatura humaniza, ela é um instrumento poderoso para transformação individual e coletiva, é um meio de autoconhecimento e possibilita o que se denomina letramento literário. É a Literatura que nos conduz à reflexão, a ler (ou ouvir) compreendendo o que realmente está sendo dito, que é algo muito além do significado das palavras, tem a ver com as figuras de linguagem, as entrelinhas, o não-dito, os arquétipos e até os silêncios. É dizer: ela nos ensina a saber falar – o que, como, em que momento – e a saber ouvir (escuta generosa). Assim, a Literatura nos forma seres pensantes, críticos, com um olhar mais aberto e mais empático, nos ensinando a dialogar e a respeitar opiniões alheias, a atuar a partir dos princípios da paz positiva; e por fim, a focar nas soluções e não nos problemas. Literatura é a chave que abre a porta de todas as gaiolas…
Revista Conexão Literatura: Você tem uma atuação marcante em prol do Turismo Literário e da Cultura de Paz. Poderia nos contar um pouco mais sobre esses projetos e como eles se conectam à sua escrita?
Clarissa Machado: A Literatura abraça os lugares. A cidade é parte integrante das histórias. Tudo acontece em algum lugar, fictício ou não. Mesmo sendo fictício, há um vilarejo, povoado, cidade ou bairro, alguns mais ou menos significativos, alguns, inclusive, os verdadeiros protagonistas. Sob esta perspectiva, a Literatura é peça crucial no desenvolvimento do turismo local. É um turismo que, se planejado, criativo e bem divulgado, atrai o turista; isto porque as pessoas amam visitar os lugares por onde seus olhos e suas almas viajaram. Porque a Literatura também é um tipo de turismo: é viajar para outros mundos sem sair do lugar, é como um “salto quântico”. Logo, temos uma legião de fãs e curiosos que vivem ávidos por conhecer lugares que estão ou que inspiraram livros. E para os moradores, o turismo literário além de pertencimento e proteção ao patrimônio material e imaterial, é ainda mais benéfico pela geração de renda. E assim, pode-se dizer que o turismo literário interessa não apenas aos escritores, mas a todas as comunidades. No espectro do turismo literário, a cultura de paz é um tema recorrente tendo em vista que o turismo aliado à literatura permite ricos diálogos, o exercício da empatia, a compreensão maior de mundo, de conhecer outras culturas, outras formas de viver e interagir com o novo, o desconhecido, o diferente. Isso amplia os horizontes, constrói pontes e permite uma maior socialização. Quem nunca fez novos amigos em uma viagem? E muita gente, a começar por mim, ainda interage com eles, mesmo após décadas. E não importa a cultura, a língua, a religião, a etnia… nada disso importa porque a amizade verdadeira está alicerçada no afeto, na memória e na cultura de paz.
Revista Conexão Literatura: Atualmente você colabora com revistas e jornais literários, inclusive com a Revista Conexão Literatura. Qual a importância desse espaço de divulgação para escritores e leitores?
Clarissa Machado: A importância é vital, sem esse espaço, nós, escritores independentes, não teríamos oportunidade de mostrar nosso trabalho. Permaneceríamos na invisibilidade e sem voz alguma. Escrever é um trabalho e é um ofício muito sério. O escritor sempre tem muito a dizer, está na vanguarda e é difícil ter uma chance para se expressar. Por isso, a colaboração em revistas e antologias, espaços que a Revista Conexão Literatura desde sempre ofereceu, é essencial para a nossa existência como autores, e em última análise, para a Literatura.
Revista Conexão Literatura: Como mãe, professora, escritora e ativista cultural, quais os maiores desafios para conciliar tantos papéis sem deixar de lado a paixão pela literatura?
Clarissa Machado: É um desafio, indubitavelmente!! Entretanto, creio que ter livros em casa é um primeiro passo. Tive isso em minha infância, meus pais tinham na estante, ao lado da TV, uma pilha de livros a que tínhamos acesso – livros de “adulto”. E foi assim que eu, pequena, ia pegando, sem motivo algum, um dia um livro de Cecília Meireles, no outro de Federico García Lorca, no outro de Emily Brontë, no outro de Machado de Assis, no outro de Gabriel García Márquez, no outro de Agatha Christie… Logicamente, eu não entendia metade do que lia, mas a experiência marcou. E eu mantive essa “prática”. Aqui eu também deixo os livros ao alcance de todos sem me preocupar se vão riscar ou rasgar um pouco. Os livros sempre estarem visíveis e como parte da casa é memória e afeto. O escritor argentino Jorge Luís Borges costumava citar a biblioteca que seu pai tinha em casa como um lugar de grande relevância em sua vida. Claro que não basta ter os livros ali, eles precisam ser lidos e com satisfação. Isso, eu sempre testemunhei, meus pais lendo e se divertindo com a leitura, e depois comentavam conosco. Até hoje, minha mãe em algum momento diz “como diz Agatha Christie…” Eu segui esses passos: nunca deixar faltar livros e nunca deixar de falar sobre eles.
Revista Conexão Literatura: Para encerrar, onde os leitores interessados podem adquirir o livro Buen(os) Aire(s) e acompanhar seus próximos lançamentos e projetos?
Clarissa Machado: O livro Buen(os) Aire(s) segue disponível para aquisição no site da editora: Caravana Grupo Editorial
( https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/buenos-aires/ )
E a respeito dos próximos lançamentos, os leitores podem acompanhar em meu instagram @clarissaxmachado
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



