Aviso logo que esta crônica não trata de evolução das espécies, mas da adaptação de obras de ficção-científica, em que o romance dá origem a um produto audiovisual de ótima qualidade, fazendo emergir a pergunta: entre o livro e o filme, qual escolheríamos?
Posso falar de dois casos, em que li o livro e vi o filme. O primeiro deles é Jurassic Park, ou O Parque dos Dinossauros, do escritor estadunidense Michael Crichton (1942-2008). Para mim, o livro é uma espécie de modelo de best-seller. Por arte de descrições nada enfadonhas, somos levados a imaginar a recriação de um mundo primitivo, habitado por dinossauros, na ilha Nublar, localidade fictícia situada no Pacífico, a 190 km do litoral da Costa Rica. Personagens de distintas faixas etárias, com interesses divergentes, vivem uma sucessão de surpresas, num crescendo de emoções. A mirabolante empreitada de recriar seres vivos extintos há milhões de anos, perpassada por interesses econômico-comerciais, prova ser um excelente campo ficcional de ensaio sobre tudo o que pode dar errado em projetos desse tipo. No dizer do matemático Ian Malcolm, talvez o personagem mais interessante do livro/filme: a humanidade diante desse novo poder da ciência é como uma criança que encontra o revólver do pai.
Crichton lançou o livro em 1990; o filme, produzido pela Universal e dirigido por Steven Spielberg, chegou aos cinemas em 1993, tornando-se fenômeno de bilheteria. A adaptação para a telona teve o raro mérito de preservar a essência do livro, que, mais de 30 anos atrás, já chamava a atenção do público para as questões éticas implicadas na engenharia genética. Os efeitos especiais, gerados por computação gráfica, permitiram reproduzir de modo verossímil o cenário da história original. Enfim, o roteiro manteve-se bastante fiel ao livro, gerando uma transposição para o cinema que terá, provavelmente, satisfeito o público leitor do best-seller de Crichton. Ao menos foi isso o que aconteceu comigo.
O segundo caso é o filme Blade Runner – O Caçador de Androides (Warner Bros., 1982), inspirado no romance de Philip K. Dick (1928-1982). A situação aqui é outra, bem diferente do exemplo anterior. Para começar, o título do livro é “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, o que traduzido fica “Androides sonham com ovelhas elétricas?”. Publicado em 1968, sua adaptação para o cinema chamou atenção para os trabalhos do autor (fama póstuma, porque morreu meses antes da estreia), fazendo com que outras obras suas de ficção-científica também virassem filmes, como Total Recall (O Vingador do Futuro – 1990 e 2012) e Minority Report (2002).
Praticamente nada no filme dirigido por Ridley Scott reproduz com fidelidade a história do livro. No original, a história se passa no ano de 1992; no filme, em 2019. No romance, o mundo é árido e está envolto numa névoa, saturada de partículas derivadas de uma guerra nuclear que tornou a Terra um lugar inóspito; no filme, o ambiente está sempre escuro e chuvoso, as pessoas se comprimem nas ruas trajando capas impermeáveis e guarda-chuvas. No livro, boa parte da história se passa num local remoto e desértico; no filme, em ambiente urbano (em ambos, a metrópole de referência é a Los Angeles do futuro). No romance, o protagonista, detetive Deckard, tem por missão eliminar 6 androides do modelo Nexus-6; no filme, eles são 4. No livro, Deckard é casado e tem uma relação de atração e repulsa com a androide Rachel, que aje em defesa dos interesses da empresa que a criou; no filme, uma forte atração leva a um genuíno vínculo amoroso entre os dois, e Rachel aje guiada pela afetividade. Itens de tecnologia mostrados no filme não existem no livro, e vice-versa.
O filme faz breve menção à existência de animais sintéticos, enquanto no livro esse é um tema central, ao ponto de estar referido no próprio título. As pessoas que vivem na Terra (a maioria emigrou para Marte) almeja possuir algum animal de verdade. Um exemplar de carne e osso custa muito caro, já que quase todas as espécies estão extintas. Quem não têm condições acaba comprando uma versão elétrica (hoje diríamos eletrônica), o que provoca um sentimento de inferioridade social. Portanto, a nostalgia do mundo natural, pré-catástrofe nuclear, é uma obsessão para os humanos. Daí a pergunta: será que os androides também sonham com animais? A referência, no título, a “ovelhas elétricas” encerra uma ironia, indicando que mesmo se fossem capazes de sonhar, os androides sonhariam, no máximo, com seres artificiais.
No filme, o enredo gira em torno da busca dos androides pela extensão de seu tempo de vida. Uma das cenas mais impactantes é o encontro de Roy, o androide líder do grupo rebelde, com o cientista que os criou. Ante a falta de solução para o problema, Roy mata seu criador; no entanto, mais adiante, sentindo que sua própria vida chega ao fim, salva o policial Deckard da morte. Os atos de Roy, assim como o comportamento de Rachel, espelham contradições e possibilidades humanas: amor/ódio, redenção/destruição. Nada disso está no livro: o encontro de Roy com seu criador não existe, tampouco a preocupação dos androides com a morte, ou a complexidade afetiva na relação com os humanos.
O romance de Philip K. Dick funciona melhor como reflexão sobre as eventuais condições de existência numa sociedade distópica, em que a presença de androides rebeldes é um dos muitos problemas. A meu ver, como história policial deixa bastante a desejar.
Enfim, o mérito do roteiro de Blade Runner foi criar uma história diferente da original, com outras questões filosóficas de fundo e sequências de ação empolgantes. Embora não tenha sido um sucesso de bilheteria, o filme, com seu estilo neo-noir, é cultuado como uma das melhores produções já feitas por Hollywood.

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