
Não tenho nada contra “cinema comercial”, até pelo contrário. Se o “cinema arte” faz bem à alma e ao intelecto, o “cinema comercial” mantém o corpo estimulado. E ninguém é tão “cabeça” assim, a ponto de prescindir da corporalidade (“ninguém” é força de expressão, sempre há exceções…). Um bom filme de ação recarrega a energia vital com doses de adrenalina. Uma boa comédia romântica regenera as fantasias kitsch que formam a membrana protetora da alma, impedindo a realidade crua e dura de sequestrar a nossa vida para mantê-la encerrada num cativeiro frio e lúgubre. Fala sério: a gente não aguenta tomar a pílula vermelha todos os dias. Toma, passa uma hora, duas, e a gente já tá implorando pela azul, é ou não é?
O problema é quando o cinema comercial (no segundo parágrafo já se pode dispensar o uso de aspas) começa a tornar-se previsível, repetitivo demais. Essa é a impressão que tive ao ver, num vídeo do Youtube, a lista dos filmes mais badalados de 2025. Cito, a seguir, os exemplos que mais me chamaram a atenção.
Capitão América – Admirável Mundo Novo. Começo pelo primeiro super-herói que curti na infância, quando os álbuns da Marvel tinham formato grande (ou eu é que era muito pequeno) e os desenhos eram em preto e branco. Pelo que vi no trailer, o Capitão América mudou de CPF. Emprestou a identidade pro amigo alado, “Falcão” Sam Wilson, que de quebra carrega de souvenir o inquebrantável escudo, pra garantir a quebradeira. Mas a dança de identidades não para por aí. Não bastasse o mais encarniçado inimigo do Hulk, o obstinado general Ross, ter virado presidente dos Estados Unidos, ele ainda se transforma numa versão escarlate do próprio Hulk. Apesar do jogo de identidades, a simbologia parece imitar a de antigamente, com alguns truques de maquiagem: o Hulk vermelho pode representar tanto a Rússia de Putin, herdeira espiritual do antigo império soviético, quanto a China de hoje, principal rival econômica e geopolítica dos EUA. Por outro lado, me agrada o fato de ser o presidente norte-americano a se transformar na criatura bestial e destrutiva a ser combatida. Se a sátira foi intencional, ponto para o filme.
Bailarina (do mundo de John Wick). Já que não tem como conferir mais uma sobrevida ao Wick (nenhuma seguradora aceitaria o Keanu Reeves como cliente), por que não trabalhar com o seu legado? A grande novidade parece ser a mudança de gênero do protagonista, que agora é mulher. Nem por isso deverá haver menos cabeças explodindo, corpos virando peneira, e acrobacias desafiando as leis da Física, como se estivéssemos assistindo a uma sequência anencefálica de Matrix. Quem comprou ações de fabricantes norte-americanas de ketchup ou tinta vermelha está de parabéns: acaba de ficar rico!
Como treinar o seu dragão. Sério isso? A estas alturas, já estamos cansados de saber como treinar nosso dragão. O filme deve ser voltado ao público intrauterino.
Avatar – Fogo e Cinzas. Chega às telas a terceira sequência da franquia. Na segunda, o elemento foi Água. Na primeira, Terra (e Ar, acho eu). Para evitar que faltem elementos nas programadas sequências 4 e 5, sugiro passar dos quatro da tradição grega aos seis da tradição oriental, acrescentando Madeira e Metal à lista. Com isso, garante-se que nem a premissa da franquia nem a arrecadação das bilheterias percam substância.
Jurassic World – Rebirth. Possivelmente inspirada no sucesso dos bebês reborn, essa nova sequência promete muitos sustos inéditos em cenas como a da mãe extremada, que não vê mal nenhum em exigir assento preferencial no transporte público por trazer o seu bebê velociraptor no colo; do casal que não pode ter filhos e se reveza para chocar um ovo de pterodáctilo, com a esperança de adotá-lo depois; ou do executivo de Wall Street, que resolve pilotar um triceratops infantil em vez de dirigir o seu Hummer até o trabalho todos os dias.
Karatê Kid – Lendas. Deixa ver se eu adivinho. Um garoto chinês quer disputar um torneio de karatê, mas não fala japonês nem luta karatê. Então, ganha num bingo em Hong Kong o direito de ter o Jackie Chan de treinador, só que ele também não fala japonês, nem luta karatê. Os dois vão procurar um mestre japonês que ensina karatê, mas em compensação não fala chinês, nem inglês, e não está sabendo de torneio nenhum. Os três precisam viajar para os Estados Unidos, onde o torneio será disputado. Até comprar os bilhetes, viver confusões e mal-entendidos durante o voo, e conseguir passar pelos oficiais da Homeland Security no aeroporto de Los Angeles, o filme já terminou. O treino fica para a parte 2, e o torneio para a parte 3 da nova edição da franquia.
Predador – Badlands. Duas irmãs da espécie conhecida de todos como Predador se revoltam contra o machismo linguístico e o patriarcalismo de sua sociedade e decidem viajar para um planeta onde possam reivindicar o tratamento de Predadoras. Depois de destruir alguns mundos no caminho, as Predadoras acabam dando na Terra (sem nenhum trocadilho, por enquanto). Chegando aqui, elas descobrem que o simples fato de serem chamadas de Predadoras não impede que sejam encaradas como ameaça à sociedade, também dominada pelo machismo e o patriarcalismo. Enfurecidas com sua mancada interplanetária, elas saem decepando membros (inclusive viris), até que o establishment decide chamar o Hulk vermelho para combatê-las. O combate é tão violento que faz implodir a franquia. Aí a gente se dá conta de que tudo não passou de um sonho: a franquia ainda seguirá ativa por muitas e muitas décadas.
Cansou da lista? Peraí! Não foge, não! Ainda falta “Missão Impossível”, “Lilo & Stich”, “Quarteto Fantástico”, “Superman”…

Bert Jr. é gaúcho de Porto Alegre, formado em História (UFRGS) e Diplomacia (IRBr). Como diplomata, tem vivido em diferentes países. É autor de dois livros de contos, três de poesia, e do romance Antes do fim do riso. Lançou, também, Sem pé com cabeça – crônicas do século 21, coletânea de escritos humorísticos publicados na Revista Conexão Literatura.
Site: www.bertjr.com.br



