
Um casal para lá dos sessenta aguarda o café-da-manhã na confeitaria muito bem decorada, de uma elegância sem esnobismo. O ímã de sua atenção é o garoto de uns oito anos de idade, provavelmente seu neto, com quem ambos mantêm uma conversa em tom carinhoso. Numa das mesas vizinhas, localizada atrás do assento do garoto, um homem acima dos quarenta começa um diálogo ao celular, num volume que coloca a conversa no ouvido de todos em volta.
— Já disse pra ele não insistir com essa m&£#@, p*££@!
Os sexagenários se entreolham, visivelmente alarmados.
Do lado de lá da ligação, supostamente alguém responde que também havia insistido com o tal Fulano, sem resultado.
— É f#@ mesmo tratar com gente escr]@!
Segue-se uma pequena pausa, em que o boca-suja ouve que sim, tem razão, mas que o problema continuará a se repetir. Nesse ínterim, a senhora pede ao marido para tomar alguma providência. Enquanto ele se levanta, o homem do celular solta mais uma frase com assinatura pessoal.
— Pois é, mas se depois esse p¨]* vier reclamar das m&r#@s que faz, eu vou mandar ele tomar no [¨ dele, tô avisando!
O avô, meio desnorteado, agarra o menino pela mão e o leva em direção ao banheiro. O problema está temporariamente contornado, mas apenas em parte, porque a avó continua à mesa, exposta à torrente verbal do desbocado. Ela também pode ir ao banheiro, mas e se a comida chega quando ninguém está na mesa? Alguém poderia roubar um dos pratos, ou despejar sal no chocolate quente do neto. Afinal, pode-se esperar qualquer coisa num local que admite aquele tipo de linguajar como trilha de fundo. Felizmente, o lanche do boca-suja é servido. Agora vamos ter uma trégua, suspira ela. O indivíduo encerra a conversa e começa a comer. Uma jovem chamativa se aproxima e senta-se à mesa com ele.
— Tu é f#@, hein! Eu disse pra não atrasar e olha aí, c@£@§?!
— Nem vem com babaquice pra cima de mim a essa hora, p*££@, aposto que ainda nem pediu o meu lanche, só sabe reclamar! Vai se f¨#&£!
Quando o avô sai do banheiro com o neto, encontra a esposa junto ao balcão. Melhor embalar o café-da-manhã para viagem e ir tomá-lo em casa.
É lamentável, mas cenas do tipo estão se tornando cada vez menos raras. Cresce o número de pessoas que se expressam, em público, por meio de impropérios e palavrões cabeludos, sem nenhum recato, nenhum decoro. Trata-se de fenômeno a ser devidamente estudado, explicado e combatido, como tantas outras formas de violência presentes no convívio social cada vez mais degradado de hoje.
Contrariamente ao que poderíamos pensar, o problema não se verifica apenas entre indivíduos de baixo nível de instrução, sendo frequente nas camadas médias e superiores do espectro social, incluindo profissionais liberais, políticos, e empresários de todos os ramos de negócio e envergadura econômica.
Para identificar os que têm o hábito de se expressar dessa maneira mal-educada, deselegante e ofensiva, criei o neologismo “linguarrudes”. Para mim, o linguarrudismo é uma forma de autoritarismo discursivo, ou bullying linguístico, em que os palavrões conferem uma ênfase agressiva a ideias pouco complexas, que se quer impor como verdades, e a comportamentos autoafirmativos, via de regra vulgares.
Qualquer comentário que forneça uma hipótese explicativa, ou sugestão acerca de como lidar com o problema, será bem-vindo.
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Bert Jr. é gaúcho de Porto Alegre, formado em História (UFRGS) e Diplomacia (IRBr). Como diplomata, tem vivido em diferentes países. É autor de dois livros de contos, três de poesia, e do romance Antes do fim do riso. Lançou, também, Sem pé com cabeça – crônicas do século 21, coletânea de escritos humorísticos publicados na Revista Conexão Literatura.
Site: www.bertjr.com.br