Fale-nos
sobre você.
Sou jornalista, com mestrado em Estudos Culturais
(Filosofia/USP Leste), especialização em informação, mídia e cultura (Celacc-ECA-USP)
e comunicação e marketing (Faenac/SCS). Atuei por muitos anos na Rádio e TV
Bandeirantes e Rádio Gazeta. Na Band AM, além do jornal diário, me divertia
fazendo crônicas radiofônicas para serem lidas pelo saudoso José Paulo de
Andrade e Milton Parron. Na Gazeta, Moraes Sarmento pedia e interpretava o que
eu escrevia. Era uma forma de somar jornalismo e literatura.
No campo acadêmico, como coordenadora de comunicação da
Universidade do Grande ABC (UniABC), criei a Editora UniABC, publicando mais de
30 livros em dois anos, além de diversos artigos. Sempre estive às voltas com
livros e textos. Fui colunista do Literário do site Comunique-se, portal
de jornalistas e integrei o programa Comunique-se levado
ao ar pela All TV.
ENTREVISTA:
Você é publisher
da Editora O Artífice. Fale-nos sobre ela. Fale-nos sobre os livros publicados.
O Artífice foi criada há 24 anos com o intuito de
incentivar a publicação de novos autores e atua nos segmentos de ficção, não ficção,
ciências sociais e humanas, esportes, linguística, literatura infantojuvenil e
espiritualismo. Em sua trajetória, como editora independente, angariou
reconhecimento, incluindo o meu romance Todos os homens são girassóis, que
recebeu o prêmio Clio da Academia Paulistana da História, bem como os
títulos Convocação geral – a folia está
na rua: o carnaval de São Paulo tem história de verdade de
Nelsinho Crecibeni, que retrata 438 anos do carnaval em SP; Cambuci ontem e hoje – 100 anos de vida e
história (1906-2006) de Atílio Lucchini; O tempo e suas sementes, romance
de Sandra Baffi; Jânio
Quadros – Fi-lo, de Nelson Valente; e Histórias assombradas & mal-contadas da
Câmara Municipal de São Paulo, do jornalista Lázaro Roberto de
Oliveira.
1995, meu poema Movimento n. 13 venceu um tradicional concurso de poesia de uma
cidade do interior de São Paulo. Fui contactada pela secretaria de cultura e
enviei a pedido dela o livro estruturado, que nomeei como Jardins
Irregulares. O prêmio era a publicação, algo em torno de 500 ou mil
exemplares, não lembro mais. Aí, sentei e esperei, e espero até agora, pois fui
‘tungada’ pela prefeitura que nunca mais me deu retorno e, num último contato,
informaram que já havia sido publicado e distribuído. Ficou claro para mim que
houve desvio de verba e outra pessoa foi ‘favorecida’ e essa autora aqui,
desrespeitada. A partir daí fiquei com receio de ser plagiada, de meus textos
serem usados indevidamente. Como já prestava serviço para algumas editoras,
revisão e copydesk, resolvi que tinha a capacidade de me autopublicar como
editora independente e não parei mais a partir daí. Nunca tive pressa em editar
um título. Creio que há um tempo para amadurecer o texto. Um bom trabalho se
faz com uma boa equipe: conto com revisores qualificados e o projeto gráfico
sempre entrego ao designer Marcos Paulo Cappelli, parceiro de trabalho há mais
de duas décadas.
O grande problema de ser independente é o impacto com as crises
que pegam as pequenas primeiro, e muitas não resistem, e ainda a questão de
distribuição. Há uma dificuldade para obter melhor exposição nas prateleiras
das grandes livrarias e é preciso trabalhar com as de bairro e independentes
também. Há vantagens e desvantagens.
Como analisa a questão da leitura
no país?
chega pelas telas digitais, mais os ebooks, os audiobooks, e novas expressões
como o bookTok (o TikTok para a literatura), o que não quer dizer que estamos
formando leitores melhores, mas é um impulso. Há um mar de textos para se
navegar e ler na internet. Creio que o Painel do Varejo de Livros no Brasil dá
conta dessa mudança de cenário. Em março deste ano, por exemplo, foi
vendido 1 milhão a mais de livros do que no mesmo mês do ano passado, e me
pergunto a qual motivo se pode atribuir esse resultado. A pandemia deixou as
pessoas mais restritas em seu lar, e se buscou alternativas de diversão e
distração nesse momento complexo? É uma possibilidade. A literatura nos permite
viajar para mundos diferentes, fugir um pouco da realidade. Mas isso não quer
dizer que o mercado editorial não tenha sofrido: muitas livrarias se
reinventaram; outras, fecharam. Editoras adiaram reedições e lançamentos, as
grandes e as pequenas, e a minha também. A opção de feiras virtuais tem o
benefício para quem está distante e pode participar on-line, mas creio que se
perde a proximidade do escritor ali, conversando com o público, dando
autógrafo, brindando com uma taça de vinho. Houve rearranjos neste momento
pandêmico, que ninguém contava. Todos foram pegos de surpresa, dos
profissionais do mercado a leitores.
Ainda creio que a melhor forma de formar novos leitores, e manter
os existentes, é por meio de oficinas, leituras públicas, encontros do escritor
na escola, que geralmente só lidam com os mortos e consagrados. Na biblioteca
pública do Ipiranga, conheci diversos autores que indiretamente me
impulsionaram rumo à literatura: Marina Colassanti, Lygia Fagundes Telles,
Loyola Brandão. Conheci esses autores na biblioteca do bairro, não foi em
Bienal, e me influenciaram uma vida inteira.
O que tem lido ultimamente?
Tenho a mania de ler vários títulos ao mesmo tempo. Como gosto
muito da literatura espanhola, estou ‘degustando’ neste momento Os
herdeiros da terra de Ildefonso Falcones, por quem me apaixonei
desde A Catedral do Mar e A rainha descalça. Os latino-americanos
estão sempre na minha cabeceira para reler, como o fantástico O jogo da
amarelinha, de Julio Cortázar, e Cem anos de solidão, de
Gabriel García Márquez, para reviver a cidade fictícia de Macondo e a saga da
família Buendía, pois este livro marcou minha juventude. Tive muita saudade
dele quando estive recentemente na colorida Cartagena de las Índias, na
Colômbia, e vi a casa do escritor, mas tristemente fechada à visitação.
Sempre retomo em algum momento meus escritores prediletos: Cora Coralina,
Cecilia Meireles, Adélia Prado, a imbatível Clarice Lispector, passeio pela
estrutura literária perfeita de Machado de Assis, retomo Isabel Allende, Lya
Luft, o queridíssimo Fernando Pessoa, e a picardia de Anaïs Nin, a
professora Orides Fontela – esquecida por muitos, mas
genial –, e o ‘primo’ Jorge Luis Borges (brincadeira, apesar da
ascendência espanhola, meu Sólon Borges vem do bisavó Youssef que saiu do Egito
e se perdeu no Brasil). Vale muito a pena voltar ao consagrados e conhecer os
novos, isso ‘areja’ a mente e se aprende muito. Uma releitura possibilita ter
um novo entendimento a respeito do texto. O novo traz outras formas de se
expressar.
O que publicou agora?
Acabei de lançar meu segundo livro de poesias, À espera
dos girassóis: poesias de amor e espera, com a proposta de tornar possível
um passeio pela casa – a sólida, que nos habita, mas que leva à estrutura
interior, repleta de sonhos e expectativas, chegadas e partidas, emoções e
naufrágios. E com prosa poética intensa: “Há dias de sol tão forte que me abro
inteira – feito cortinas –, assim as perdas queimam e secam as cicatrizes.
Quero violetas com flores porque o trabalho de cura é só meu”, um exemplo de
comparação do jardim exterior e interno, com os quais brinco.
Os poemas foram agrupados em função dos motivos tratados:
Jardins regulares – uma brincadeira com o título de seu primeiro livro, Jardins
Irregulares –, Motivos de chegadas, A casa dos sabores, Cotidianos, A
linguagem das águas, As estações do amor (Temporais, Verão, Primavera, Outono,
Inverno).
Na parte dedicada às Estações, pode-se ler: “As estações têm
sempre a porta aberta para o segundo verão. Na turbulência dos girassóis
exuberantes, você surge com o sorriso ávido de flores e ervas aromáticas e
percebo que não estou apenas diante de um corpo absolutamente másculo à vontade
em si mesmo. Mas um rosto com seu depoimento de fera e história, com a sua
biografia de barcos que atravessaram outros mares em busca das cartas
celestiais”, ao se referir aos cheiros domésticos e à essência das flores, mas
acima de tudo à profundidade que existe no feminino. “Suspiramos depois do
amor, possuídos um do outro, quando um bafeja seu espírito no interior do seu
contrário”, é outro exemplo do que se pode esperar do amor, alicerce entre
pares, e deste livro.
Estou na fase final de produção de meu livro de contos, Janelas
abertas para uma canção desesperada, havia ficado na gaveta, e também
finalizei Mudei meu passado, e agora?, escrito a quatro mãos e dois
cérebros, o do amigo Coca Valença e o meu. Estamos com o lançamento recente
de A historinha do cachorro Cheirudo, meu e do Cappelli, e conto
com mais três livros de poesia, de outro autor, para lançamento no segundo
semestre, se a pandemia deixar. E trabalho arduamente no livro Cicatrizes
da imigração, resultado da minha dissertação, sobre a repressão aos
espanhóis nos anos 1930, na ditadura Vargas.
Link da editora:
http://editoraoartifice.com.br/
CIDA SIMKA
É licenciada em Letras pelas
Faculdades Integradas de Ribeirão Pires (FIRP). Autora, dentre outros, dos
livros O enigma da velha casa (Editora Uirapuru, 2016), Prática de escrita:
atividades para pensar e escrever (Wak Editora, 2019), O enigma da biblioteca
(Editora Verlidelas, 2020), Horror na biblioteca (Editora Verlidelas, 2021) e O
quarto número 2 (Editora Uirapuru, 2021). Organizadora dos livros Uma noite no
castelo (Editora Selo Jovem, 2019), Contos para um mundo melhor (Editora
Xeque-Matte, 2019), Aquela casa (Editora Verlidelas, 2020), Um fantasma ronda o
campus (Editora Verlidelas, 2020), O medo que nos envolve (Editora Verlidelas,
2021) e Queimem as bruxas: contos sobre intolerância (Editora Verlidelas,
2021). Colunista da revista Conexão Literatura.
SÉRGIO SIMKA
É professor universitário desde
1999. Autor de mais de seis dezenas de livros publicados nas áreas de
gramática, literatura, produção textual, literatura infantil e infantojuvenil.
Idealizou, com Cida Simka, a série Mistério, publicada pela editora Uirapuru.
Colunista da revista Conexão Literatura. Seu mais recente trabalho acadêmico se
intitula Pedagogia do encantamento: por um ensino eficaz de escrita (Editora
Mercado de Letras, 2020) e seu mais novo livro juvenil se denomina O quarto
número 2 (Editora Uirapuru, 2021).




Curti muito a matéria e já compartilhando nas redes sociais. A Conexão é essencial para quem ama livros, autores, leitores, editores. Grata pelo trabalho de vocês.
O trabalho da editora é fantástico! Que venham mais e mais títulos!
Solange e sempre profunda e tem uma literatura honesta. Seu último livro traz uma poesia madura, quente, desnuda e doce. Parabéns! Adoro!
Cada novo trabalho da Solange é um aprendizado e a certeza que a felicidade é possível. Sua sensibilidade é transferida para as letras e impressa no coração de quem a lê. Mais um sucesso, parabéns!
Eu tenho Jardins Irregulares! Ótimo 👍!Bjks, So