A literatura brasileira ganha mais uma obra instigante com o lançamento de Correspondências do fim do mundo, novo livro do autor baiano Gilmar Duarte Rocha. A narrativa transporta o leitor para a década de 1930, em plena época do Estado Novo, quando o sargento da Força Nacional José Rossini recebe uma estranha carta de um amigo residente em uma isolada cidade das serras catarinenses. As correspondências relatam mortes misteriosas atribuídas a Barkut, um ser mitológico que teria saído da Alemanha para atacar cristãos no Brasil.

Unindo elementos históricos, suspense, mito e crítica social, Gilmar constrói um romance que explora não apenas o sobrenatural, mas também o comportamento humano diante do medo e da superstição.

Natural de Jitaúna (BA), Gilmar Duarte Rocha é engenheiro de sistemas, economista e escritor. Retornou à literatura em 2005 com o romance Um morto na minha cama, e desde então publicou romances, contos, artigos e crônicas em diversos jornais e revistas. Membro da Academia Brasiliense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do DF e diretor da Associação Nacional de Escritores (ANE), o autor reafirma em sua nova obra sua habilidade em mesclar realidade e ficção com intensidade narrativa.

A seguir, a Revista Conexão Literatura conversou com o autor sobre o processo criativo e os bastidores de seu mais novo livro.

Entrevista – Revista Conexão Literatura com Gilmar Duarte Rocha

Revista Conexão Literatura: Como surgiu a ideia de escrever Correspondências do fim do mundo e o que o motivou a ambientar a trama nas serras catarinenses da década de 1930?

Gilmar Duarte Rocha: A ideia veio do ressurgimento da ideologia fascista em todo o mundo e eu me lembrei do regime nazista-fascista que arrebatou a Alemanha no fim da década de 1920; do clima de fanatismo que foi gerado a partir de então, desaguando no desastre total que foi a Segunda Grande Guerra Mundial. Então me veio em mente um filme brasileiro da década de 1970, chamado “Aleluia, Gretchen”, do cineasta catarinense Silvio Bach, que trata da presença do nazismo no Brasil, e isso me motivou a escrever o romance “Correspondências do fim do mundo”, logicamente em outro contexto diverso do enredo do filme.    

Revista Conexão Literatura: O personagem Barkut, uma figura mitológica que atravessa fronteiras, é central na obra. Como foi o processo de criação desse mito e o que ele simboliza na narrativa?

Gilmar Duarte Rocha: Realizei pesquisas em diversos sites e descobri que esse personagem mitológico Barkut era levado a sério na região que hoje se entende por Bavária, no sudeste da Alemanha. Os imigrantes alemães da história do romance provêm, em quase toda a sua totalidade, dessa região. Daí vinculei uma coisa a outra, para justificar a série de mortes esquisitas que ocorriam na fictícia cidade de Nova Baden-Baden, onde se desenrola a trama do romance.  

Revista Conexão Literatura: O livro mistura realidade histórica, suspense e elementos sobrenaturais. Como foi equilibrar esses diferentes aspectos durante a escrita?

Gilmar Duarte Rocha: Procurei equilibrar a realidade histórica com o caráter ficcional que todo romance deve ter. Pincei algo real, como a aglutinação de alemães em torno de uma pequena cidade brasileira, com a fantasia que se concentra nas cartas e telegramas que o sargento Bo Rossini (personagem central da história) recebia do seu amigo judeu, um intelectual que vivia nessa cidadezinha fictícia atemorizado com a mudança gradativa de comportamento dos seus amigos de origem alemã e que não eram judeus.

Revista Conexão Literatura: A correspondência é a base da trama. Por que optou por esse recurso narrativo para conduzir a história?

Gilmar Duarte Rocha: A rigor, o livro não é um romance epistolar, como Drácula, de Bram Stoker. As cartas que o sargento recebia do amigo judeu serviram para que ele comprovasse in loco tudo que ele achava absurdo e que ele supunha que o amigo estava exagerando naquilo que escrevia. Porém, as coisas eram piores do que o sargento imaginava. Assim que ele pôs os pés na cidadezinha, era como se ele estivesse entrando num mundo surreal e apocalíptico. O romance então foi desenvolvido por alguém (no futuro) a partir do teor das cartas e de um diário que o sargento Bo Rossini levava consigo e onde ele registrou quase tudo que aconteceu posteriormente às cartas naquela misteriosa cidade.   

Revista Conexão Literatura: O Estado Novo é um período complexo da história brasileira. De que forma o contexto político e social influencia o enredo do livro?

Gilmar Duarte Rocha: Excelente pergunta! A trama da história do romance se passa em 1939, então se alguém for consultar os jornais e os anais da época verá que, em pleno Estado Novo, Getúlio Vargas ficou seduzido por propostas da Alemanha nazista e por pouco não adere ao pacto do Eixo (Alemanha-Itália-Japão). Na medida em que o tempo passa, a verdade vai surgindo à tona e o então ditador brasileiro se rende à realidade e ao convite de adesão à causa Aliada feito pelos Estados Unidos, que desejam investir pesado no Brasil e manter o nosso país – assim como outros da América Latina – distante da utopia beligerante do Terceiro Reich.

Revista Conexão Literatura: O medo coletivo e a crença em seres sobrenaturais aparecem com força na obra. Qual a sua visão sobre como mitos e lendas moldam o comportamento humano?

Gilmar Duarte Rocha: Como diria o filósofo Hegel, os mitos e lendas representam uma forma de conhecimento e de expressão da consciência coletiva de uma época, que buscam expressar verdades de forma “ingênua” e “imaginada”, em contraste com a razão, e isso é a pura realidade, pois em regimes autoritários, primeiro a classe dominante impõe à urbe uma espécie de medo com alguma coisa temerária (o ingênuo e o imaginado) e depois associa os seus adversários políticos a esses pretensos demônios, mitos e lendas, para mantê-los afastados da razão (da realidade do estado) e ter condição de reinar de forma absoluta.

Revista Conexão Literatura: Ao longo de sua trajetória, o senhor publicou romances, contos e crônicas. De que maneira Correspondências do fim do mundo se diferencia dos seus livros anteriores?

Gilmar Duarte Rocha: Os meus livros, via de regra, carregam nas suas entrelinhas a fantasia e o imaginário e têm o objetivo único de entreter o leitor com uma história bem engendrada, com começo, meio e fim explicitamente delineados. Sempre digo aos amigos que os meus livros constituem excelentes enredos de filmes de ação, drama e aventura. “Correspondências” difere um pouco dos anteriores somente pela seriedade com que trato o pano de fundo político-social da história.

Revista Conexão Literatura: Como foi o processo de pesquisa para a ambientação histórica e cultural retratada na obra?

Gilmar Duarte Rocha: Difícil, como todas as outras que fiz para outros livros. Porém, com o crescimento gradual do acervo digital e o surgimento da inteligência artificial, esse processo de pesquisa está ficando cada dia mais acessível e futuramente será possível alguém escrever um romance ambientado na Idade Média com extrema precisão da realidade daquele tempo.

Revista Conexão Literatura: O senhor acredita que o romance dialoga com questões atuais, apesar de ambientado no passado?

Gilmar Duarte Rocha: Sim. O nosso “Correspondências do fim do mundo” faz isso de certa forma. O leitor atento verá muita analogia do enredo com fatos que estamos nos deparando exatamente neste momento que em lhe respondo estas questões.

Revista Conexão Literatura: Para finalizar, quais são os próximos projetos literários que seus leitores podem esperar e como os interessados poderão adquirir a sua obra?

Gilmar Duarte Rocha: Estou envolvido atualmente em dois projetos específicos: “Heróis digitais”, um livro de ficção extraordinária (ou ficção científica) que desenvolvi há vinte anos e que tirei da gaveta para revisar e publicar ainda este ano. Tem também “Terra de Santa Cruz”, um romance caudaloso, com expectativa de mais de 700 páginas, cujo enredo se desenrola na zona cacaueira da Bahia nos anos 1920 (olha eu voltando ao passado de novo), lugar onde nasci e que conheço com a palma da mão. Esse romance tem inspiração em “Os irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, e “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Espero publicá-lo em 2026, se alguma editora tiver coragem (risos). No mais, fico muito agradecido com a Conexão Literatura pela generosidade em me oferecer este espaço para divulgar o nosso trabalho.

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