Renata Di Carmo é atriz, autora, diretora e jornalista, com formação em Artes Cênicas, Cinema e Jornalismo, PHD em Comunicação, Mestrado e Doutorado em Letras, na área de arte e narrativas. Começou sua trajetória profissional aos 13 anos e aos 18, ainda na década de 90, foi contratada pela TV Globo como autora, onde ficou por vários anos. Atua como consultora, criadora, roteirista final e autora para Netflix, HBO, Prime Video, Disney, Globoplay, Universal + e Canal E! Os últimos trabalhos foram na chefia de roteiro da série Toda Família Tem (Prime Video),  na redação final de Humor Negro (Globoplay), no desenvolvimento  e escrita da série internacionalmente conhecida Cidade de Deus – A luta não para (HBO),no roteiro e redação final da premiada série Os quatro da Candelária (Netflix), no reality No Jogo e na série (in)vulneráveis (2026) – um projeto cross do Universal + & Canal E!, que criou, escreveu e dirigiu, além de ter sido jurada e atriz – e no longa de comédia Tá Pago (2026). Já atuou por diversas vezes como consultora, curadora e mentora em eventos como Rio2C e Frapa, além de para instituições como a Anistia Internacional e a Prefeitura do Rio.  É autora do premiado livro infantojuvenil Anele – A menina dos olhos de Mundo.  Presença constante no teatro como atriz, Renata também tem atuações em exposições, como a Fruturos – tempos amazônicos, para o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Foi premiada pela CAPES e pela FAPERJ como pesquisadora na área de narrativas. Em 2022 foi premiada pelo FEST Curta Mossoró pelo pioneirismo e excelência na carreira e em 2025 foi indicada pelos prêmios Abra e Grande Otelo, pelas séries Cidade de Deus, Os Quatro da Candelária e também como Roteirista do Ano.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Renata Di Carmo: Profissionalmente foi com o concurso da editora Uirapuru para a publicação de novos autores. Naquele momento a editora procurava autores que buscavam uma primeira publicação. Eu concorri com o Anele, a menina dos olhos de mundo, e com um adulto, que ainda não publiquei, porque segui emendando um trabalho denso atrás do outro no audiovisual. Mas ainda vou. Eu ganhei o concurso para a publicação das duas obras. O ‘Anele’, além da premiação, me trouxe outras conquistas, ganhei outros editais com a história, fizemos apresentações em teatro, leituras, clubes de leitura, paletras… Ele foi minha porta de entrada na literatura. Depois veio o livro da Firmina, publicações em coletâneas de poesias, no campo mais acadêmico publicações de ensaios, artigos e capítulos de livro. Antes, eu era uma criança que escrevia, naturalmente. Eu criava histórias, desenhava, grampeava e dizia que era um quadrinho. Eu escrevia cartas. Sempre tive essa relação com a escrita, que sempre foi um lugar de esconderijo para mim e me pensar, de alguma forma. O que é curioso, pois também é um lugar de exposição.

Conexão Literatura: Você é autora do livro “As Faces de Maria Firmina dos Reis – Diálogos Contemporâneos”, poderia comentar?

Renata Di Carmo: Sim. Esse livro surge da minha dissertação de mestrado, que defendi pela PUC-Rio, com orientação do professor Alexandre Montaury, e o apoio fundamental da CAPES. Foi uma dissertação muito celebrada pela banca e veio o caminho para a publicação através da editora Bambual, em 2022. A dissertação, portanto, é anterior. O livro tem uma escrita ensaística que centra atenção na obra de Maria Firmina dos Reis, em especial o romance oitocentista Úrsula. É uma forma de apresentar Firmina de uma maneira distinta, desvelando seu pensamento a partir de intervenções de outras pensadoras. Há uma articulação do pensamento de Djamila Ribeiro com Lélia Gonzalez, em diálogo com discursos de Marielle Franco, com atravessamentos de Grada Kilomba, por exemplo. A ideia aqui é examinar diferentes ações intelectuais que, articuladas, propuseram dar centralidade à voz de mulheres negras. Fazendo reconhecer uma nas outras os gestos e pensamentos que as norteavam. Trata-se de um diálogo propositivo entre pensadoras que se comprometeram à reflexão acerca de suas próprias condições de inserção em uma sociedade fortemente marcada pela permanência da experiência colonial no Brasil. Há pensamentos de Firmina que reverberam em Lélia, que reverbera em outras pensadoras com suas elaborações sobre cultura e identidade, sobre a categoria política de amefricanidade, sobre racismo e sexismo na cultura brasileira, sua análise sobre os sintomas da nossa ‘neurose cultural’, como pontua Lélia em sua obra. São ecos que se tocam na ação e no gesto dessas pensadoras. Pontuo esses caminhos no livro. A partir de processos de separação étnicas e de gênero, a análise do romance se articula a vozes femininas do século XX, que se notabilizam por atos de resistência e insubordinação, ecoando, simultaneamente, o que chamo de ‘projeto’. Então, me utilizo do romance de Maria Firmina para grifar essa construção e esse pensamento.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Renata Di Carmo: Eu pesquiso, eu me isolo, procuro trocar com algumas pessoas quando acho necessário. Gosto de buscar referências em outros ambientes artísticos, como exposições, por exemplo. Também em música. Outro dia dei uma entrevista que vai compor um documentário sobre roteiristas e utilizei a palavra ‘ensimesmar’, que é esse processo que preciso ter de estar na solitude, ouvindo minha própria voz, para criar. Preciso do silêncio. A natureza é uma boa aliada também. Isso funciona para a criação, seja na produção de uma narrativa ficcional ou de uma elaboração crítica. Eu organizo as ideias e então começo. Me inspiro no dia a dia e também nas leituras que vou fazendo de escritoras e escritores, filósofos, críticos… Como sou atriz, também leio com as devidas intenções muitas vezes, para avaliar se estou chegando onde quero…

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do seu livro especialmente para os nossos leitores?   

Renata Di Carmo: Nossa. É difícil, mas vamos lá:

“Observar o discurso de Maria Firmina dos Reis (…) é entendê-la como sujeito político, capaz de suscitar reflexão sobre as várias possibilidades (…) de ser mulher e negra e brasileira. É neste ponto, de forma mais imediata, que Lélia Gonzalez (1935-1994) parece-nos vestir-se do mesmo gesto griotte que está ativo em Maria Firmina dos Reis durante sua empreitada estética. Sendo a palavra, para muitos povos de tradição oral, a força do ser materializada, ela é a própria substância da criação. Através da palavra, Maria Firmina dos Reis e Lélia Gonzalez narram uma realidade outra, divergente da introduzida pelas elites coloniais do Brasil, e se inscrevem no mundo através dela. Assim, no sentido da griotagem, os textos e falas de Lélia indicam quem ela é, da mesma maneira que a escrita de Maria Firmina aponta uma declaração acerca dela mesma. Ambas são intérpretes de seu tempo e de sua gente. A palavra é a própria mulher, e certamente elas são muitas. (…) Nos dispomos aqui a articular a inevitabilidade do presente ao tempo do discurso. Onde, de forma mais específica, as falas de Maria Firmina dos Reis, implícitas em ‘Úrsula’, atuam em diálogo com as questões levantadas por Djamila Ribeiro em ‘O que é: lugar de fala?´ (2017) – e também com as inquietações laboradas por Lélia Gonzalez (1935-1994) em suas produções e ações. O tempo do discurso é o tempo da narrativa, no qual estamos constantemente indo e vindo, nesta dança entre Cronos e Iroko. O corpo-negra de Firmina, um corpo que se propaga, estende e dilata, sonhando Djamila na interferência do discurso, a incorpora (…). Neste sentido (…) divulgar a produção intelectual de mulheres negras é pensar nestas mulheres como sujeitos e seres ativos, que pensam continuamente resistências e reexistências no sentido da coletividade. (…) Nesta roda de contação, onde estamos sentadas(os) ao pé do baobá, Maria Firmina dos Reis inspira Djamila Ribeiro e esta é capaz de atualizar tanto Firmina quanto Lélia…

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Renata Di Carmo: O caminho mais simples é ir no site da editora Bambual, que é Livros para a Transição Global – Bambual Editora ou pedir pelo Amazon. Aproveito e já sugiro que os leitores deem uma olhada nos outros títulos da editora, que é uma empresa engajada com causas muito importantes. A Bambual tem como proposta sensibilizar o ser humano para fazer escolhas mais conscientes e respeitosas em relação ao mundo, a natureza, a cultura e às existências que habitam a Terra. Esse olhar é urgente e necessário. Há títulos incríveis que ajudam a repensar nossos posicionamentos e nossa relação com a vida. E para saber sobre mim é só me procurar nas redes, como por exemplo em @renata_di_carmo, meu instagram.

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura no Brasil?

Renata Di Carmo: A 6ª edição da “Retratos da Leitura no Brasil” diz que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores à pesquisa. Isso é um dado de novembro de 2024.  Ou seja, não estamos bem. Acho que é um desafio para a educação, que não se resolve sozinho. A gente precisa de políticas públicas para a formação de leitores. Como sociedade a gente precisa encontrar as formas de promover esse estímulo, de facilitar o acesso ao livro, que para muitas famílias é caro. Conheço pessoas que tem pavor de abrir um livro, pois não tiveram uma boa relação com ambientes educacionais ou com a prática da leitura. Mesmo em casa nunca foi prazeroso para elas. A escola precisa de incentivo também. Os professores, diretores, gestores, fazem muito com pouco inúmeras vezes. Conheço outras pessoas que nunca entraram em uma biblioteca pública, por exemplo. Como a gente consegue tornar isso atraente? Como a gente consegue estimular e transmitir uma mensagem de que esse lugar está disponível para todos, que a leitura pode ser agradável? Há um déficit de atenção causado pelo uso da internet, mas não dá para ignorar as plataformas. Então, como conseguimos integrar? Eu sou uma apaixonada pelo livro, mas sei que a juventude, por exemplo, está muito mais no celular. Então, é preciso dialogar com esse espaço e usá-lo como um facilitador. De fato, ainda precisamos entender como criar essas pontes.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Renata Di Carmo: Existem. No tempo certo volto pra falar sobre eles. Estou ansiosa por isso.

Perguntas rápidas:

Um livro: O que estou relendo no momento, que é o Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Um ator ou atriz: Tanta gente boa, vou citar Flávio Bauraqui e a Octavia Spencer.

Um filme: Moonlight: sob a luz do luar, roteiro e direção de Berry Jenkis. O tempo passa e sigo encantada com esse filme.
Um hobby: Fazer trilha. Dançar. Fazer exercício físico.

Um dia especial: A defesa do meu doutorado.

Conexão Literatura: Recentemente você foi indicada como Roteirista do Ano pela Associação Brasileira de Roteiristas, um reconhecimento extremamente importante na área, principalmente considerando sua longa trajetória como autora. Você vê a criação literária de maneira diferente da construção de um roteiro, seja para TV, streaming ou cinema?

Quando você cria pro audiovisual você conta por imagens, pela composição das imagens, dos elementos dispostos. A imagem diz e não apenas a palavra. Você pode dizer pouco, já que tudo está contribuindo pra transmissão da mensagem, atribuindo sentido ao todo.  São as cores, é a música, contam as marcações das cenas, a interpretação dos atores, as expressões… Cada profissional envolvido dá a sua parcela de contribuição pra história que o público vai ver. Até a estrutura final, a montagem, o ritmo, tudo ajuda a contar, direciona o olhar, trabalha as sensações. Na literatura você pode imaginar sem limites, você não vai precisar produzir materialmente o que você está propondo. Na imaginação tudo é possível, você está livre pra propor o que for, sem precisar projetar a concretude daquela ideia, nem prever orçamentos. Ela é concreta no campo das ideias em si, ela é palpável lá. A proposta está inteira na palavra, o leitor lê e ele imagina considerando apenas o texto que você escreveu, a estrutura, a pulsação e o ritmo que propôs, não existe uma intermediação, apenas a palavra no papel. Sempre falo que acho isso extremamente bonito. O momento íntimo entre você e o leitor. Que gosto de imaginar algum solitário lendo o livro em algum lugar.  Ele vai formular pensamentos, se emocionar, tudo, a partir da tua escrita somente. Você vai precisar dar os elementos para que ele, o leitor, invente um mundo na cabeça dele. Dessa maneira vão existir vários livros a partir do teu. Depende do leitor.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Renata Di Carmo: Com um convite à leitura do livro. Abrir um livro é estar em diálogo com ele. No caso de ‘As faces de Maria Firmina dos Reis – Diálogos Contemporâneos’, é se colocar em conversa com essas mulheres, num alargamento do nosso olhar sobre nós mesmos e sobre o Brasil. Ler um livro é sempre se expandir.

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