Raquel Fiori é educadora e pesquisadora com sólida formação em Química pela PUCRS, onde concluiu diversas licenciaturas, bacharelado e formações tecnológicas. Possui Especialização e Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos (ICTA/UFRGS) e Doutorado em Educação Química pelo PPGQVS/UFRGS. Atuou como Especialista em Saúde no Laboratório Central do Estado. Mesmo aposentada, segue contribuindo como Conselheira Federal no Conselho Federal de Química. Raquel mantém presença acadêmica ativa e reúne reconhecimentos como autora e divulgadora científica, possui postura colaborativa, liderança técnica e compromisso em fortalecer a área da Química por meio de ações educativas e institucionais de impacto. Neste momento de sua trajetória, deseja se aventurar no universo da escrita e explorar novas formas de compartilhar suas ideias.

ENTREVISTA:

Revista Conexão Literatura: Você construiu uma trajetória sólida e reconhecida na área da Química e da Educação. O que a motivou, neste momento da sua vida, a se aventurar no universo da escrita literária?

Raquel Fiori: Fiz um pacto silencioso com o papel: eu escreveria por toda a vida, sem cobrar destinos ou resultados. Sem buscar troféus, minha única ambição é envelhecer ao lado das palavras. Não escrevo para ser vista, mas busco a liberdade de mergulhar na fonte de tudo o que ainda não sei dizer. Escrevo porque a página em branco é o único lugar onde a rotina se dissolve e eu posso, finalmente, me reinventar.

Revista Conexão Literatura: Como surgiu o interesse em participar do e-book PARA SEMPRE, organizado por Ademir Pascale, e o que a levou a escrever o conto “Marcas da Inundação: um conto de amor em tempos de desastre”?

Raquel Fiori: Eu queria explorar como o amor se manifesta em situações limite. Marcas da Inundação nasceu do desejo de mostrar que, mesmo quando tudo ao redor é destruído pela água e pelo desastre, o que resta de humano em nós : os nossos laços,é o que nos mantém à tona.

Revista Conexão Literatura: Seu conto parte de um acontecimento real e profundamente traumático: a inundação de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. Como foi transformar uma tragédia coletiva em uma narrativa íntima e afetiva?

Raquel Fiori: Foi a tentativa de criar um refúgio íntimo dentro de um cenário de desolação, mostrando que, mesmo sob o trauma, o amor é a única âncora que nos impede de sermos levados pela correnteza.

Revista Conexão Literatura: Turi e Raquel se conhecem e se conectam em meio ao caos, quando tudo parece ruir. Para você, a literatura pode funcionar como um abrigo emocional em tempos de crise?

Raquel Fiori: Acredito que a arte não ignora a tragédia, mas ela nos oferece uma lanterna para atravessar o escuro, provando que, mesmo quando perdemos o chão físico, ainda podemos encontrar apoio no outro e nas histórias que compartilhamos.

Revista Conexão Literatura: O texto apresenta imagens fortes da enchente, mas escolhe destacar a solidariedade, o cuidado e a humanidade. Essa abordagem foi uma escolha consciente desde o início da escrita?

Raquel Fiori: Sim, foi uma escolha consciente e, eu diria, até urgente,minha intenção foi usar o cenário da inundação apenas como o palco onde a verdadeira história acontece.Se a água levou as casas, o afeto foi o que impediu que ela levasse a nossa dignidade. Destacar a humanidade em meio ao caos foi a minha forma de honrar a força de todos que ajudaram a reerguer o estado.

Revista Conexão Literatura: Sua formação científica e sua atuação como educadora e pesquisadora influenciaram de alguma forma a maneira como você construiu essa narrativa de ficção?

Raquel Fiori: Com certeza. Minha formação científica e minha atuação como educadora são as lentes através das quais eu enxergo o mundo, e elas acabam filtrando minha escrita de ficção de maneira muito orgânica.

Revista Conexão Literatura: O amor retratado no conto não nasce de promessas grandiosas, mas de gestos simples e cotidianos. Esse tipo de afeto “possível” dialoga com a realidade vivida durante a enchente?

Raquel Fiori: Totalmente. Durante a enchente, aprendemos que o amor mais heroico não é o das grandes juras, mas o dos pequenos gestos.Eu não queria um romance de cinema, queria o afeto da lama, do cansaço e da reconstrução. É esse amor pé no chão que dialoga com a realidade vivida .

Revista Conexão Literatura: A presença do cavalo Caramelo surge como um símbolo de resistência e empatia coletiva. O que esse episódio representa para você dentro da história?

Raquel Fiori: O episódio do cavalo Caramelo representa a síntese da vulnerabilidade e da resiliência. Assim como o Caramelo, meus protagonistas estão ilhados, e o que os salva não é apenas o barco físico, mas a rede de solidariedade que se forma ao redor deles.

Revista Conexão Literatura: Ao escrever ficção, você percebeu diferenças significativas entre o olhar da pesquisadora e o da escritora? A escrita literária lhe revelou algo novo sobre si mesma?

Raquel Fiori: Enquanto a pesquisadora entende a mecânica da inundação, a escritora sente o frio da água e o peso da perda. Escrever ficção me permitiu humanizar o que a ciência estatiza.

Revista Conexão Literatura: Marcas da Inundação marca sua estreia no campo da literatura. Podemos esperar novos textos, contos ou projetos literários no futuro?

Raquel Fiori: Com certeza! Marcas da Inundação foi uma porta que se abriu e que eu não pretendo fechar.  Já tenho algumas ideias sendo gestadas, explorando novamente a intersecção entre as relações humanas e os contextos sociais que nos moldam. A escrita literária passou a ser uma necessidade de expressão para mim.

Obrigada ao Ademir Pascale por criar este espaço nobre onde a literatura pode eternizar o que há de melhor em nós, mesmo nos tempos mais difíceis. Que estas palavras sirvam como um abraço em cada leitor.

Convido todos a mergulharem nessas histórias e a compartilharem suas próprias impressões comigo. A literatura só se completa no olhar do outro.

O e-book “PARA SEMPRE” estará disponível em breve no site da Revista Conexão Literatura.

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