Moacir Fio – Foto divulgação

Fale-nos sobre você.

Sou escritor, pesquisador e professor. Sobretudo, professor. Sempre gostei de mistério e coisas macabras, razão pela qual escrevo literatura insólita e desenvolvo minha pesquisa acadêmica com foco no horror, no gótico e na relação entre corpo, memória e violência no contexto latino-americano. Me interesso pelas zonas de silêncio, pela experiência do indizível, pelo inexplicável.

Fale-nos sobre seus livros. O que o motiva a escrevê-los?

Cada livro meu nasce de uma dúvida, algo bem geral, indefinido, mesmo. Isso seria o mote. É essa primeira inquietação, nunca uma tese, que conduz ao que realmente me interessa: personagens. Quando encontro as personagens perfeitas, justamente em suas imperfeições, aí me encanto pela escrita. É a vontade de conhecê-las e a possibilidade de investigá-las (algo que só a literatura pode oferecer) que realmente me motiva a escrever, embora saiba que as respostas só virão com os leitores.

Aranha Movediça é seu primeiro romance. Fale-nos sobre ele.

Aranha Movediça é um romance que se estrutura em quatro linhas narrativas, uma delas um podcast investigativo. Um podcast true crime, como o gênero é mais conhecido. Esse podcast é narrado pela jornalista Alessandra Moretti, que tenta reconstruir a história de Jota do Lixo, um punk cearense morto na década de 80, cercado por boatos, ocultismo, desaparecimentos e violência policial. O livro reúne outras três linhas narrativas: um relato em primeira pessoa do primo de Jota, os diários da antiga namorada de Jota e uma história gótica que se passa no sertão colonial. Essas coisas estão interligadas direta ou indiretamente, levando a um quebra-cabeças que pode responder ou não a grande questão que assombra o livro: é possível compreender o passado?

Você é cofundador do Coletivo Escambau de Arte e Cultura e atua como editor-chefe da revista Escambanáutica e ainda é editor da Entrelaces, periódico do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC. Fale-nos sobre essas atividades.

O Escambau surgiu de uma necessidade que eu e Wilson Júnior tínhamos: embora vivendo numa das maiores capitais do país, encontrávamos pouco ou nenhum espaço para escritores iniciantes. Em outras palavras, faltavam coletivos abertos a quem desejasse produzir e discutir literatura. O Escambau nasceu assim e cresceu porque, de fato, a maquinaria editorial tradicional não liga a mínima para as periferias.
A revista Escambanáutica é um desdobramento disso, embora tenha demorado um pouco mais para se realizar. Era um sonho antigo, desde os 2015, quando o Escambau começou de fato, mas só conseguimos botar em prática no fim de 2020, em plena pandemia. É um projeto que me orgulha muito, pois é uma revista com editais abertos a todos e que, mesmo gratuita, remunera os escritores selecionados. Tudo isso com uma proposta editorial que parte de uma provocação sobre a literatura fantástica escrita no Brasil.

Já a Entrelaces é outro campo, é pesquisa acadêmica, uma atividade que integra minha prática na universidade. Mas esse trânsito entre o que é ficção, o que é crítica, o que é edição, faz parte do meu projeto de vida. Não há fronteiras na literatura.

Como analisa a questão da leitura no país?

O Brasil está sendo atravessado por revoluções tecnológicas sem nunca ter se estruturado como um país de leitores. Falhamos em estruturar políticas culturais continuadas, não só as de formação leitora. Agora, com a presença das redes sociais e de uma indústria de entretenimento robusta e poderosa como nunca, o que já era difícil está nas raias do impossível. Ao mesmo tempo, nunca houve tanta gente escrevendo, publicando, lendo, em geral nas margens, nos becos, nos zines, nas editoras independentes, nos coletivos, nos slams, nas periferias. A leitura é um privilégio, mas, como provam pesquisas recentes, não é um privilégio que tem a ver com alta renda. Isso dá esperança.
O Brasil real lê. O Brasil institucionalizado é que finge que não vê essa leitura. É preciso disputar essa mediação e legitimá-la.

Uma pergunta que não fizemos e que gostaria de responder?

Gosto quando me perguntam de onde vem o meu interesse pelo horror, pois, como não sei a resposta, tenho a oportunidade de sempre buscar uma explicação diferente. Hoje, por exemplo, eu diria que meu interesse vem das possibilidades que o horror oferece e da enorme confusão que ele causa na cabeça das pessoas. O horror como gozo sensorial, mas pode ser um método, uma forma de ler o mundo que reconhece algo de incurável na realidade. E não promete alívio, nem consola, nem purifica, nem resolve. Por isso ele interessa.

Link para o livro:

https://editoramoinhos.com.br/loja/aranha-movedica

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