
Sobre o autor
Marcelo Nery nasceu em Belo Horizonte, mas já atravessou muitas dimensões: da Ciência da Computação ao tarô, de professor universitário à criação de mundos virtuais. Com formação em Ciência da Computação, foi professor universitário por 16 anos e coordenou o renomado curso de Jogos Digitais da PUC Minas. Transitou do universo acadêmico para o mercado criativo, atuando como designer de jogos de tabuleiro e, atualmente, como coordenador de game design na ARVORE Immersive Experiences, desenvolvendo projetos para empresas como Meta e Universal Studios. Cresceu entre a capital e o interior, cercado por pastos, rios, carrinhos de rolimã e bambuzais. Desde pequeno encontrou na máquina de escrever o espaço para inventar histórias, quando o drama ainda era um hábito, não um talento. Aos dez anos integrou o júri do Concurso de Literatura Infantojuvenil João de Barro, onde a paixão pelos livros se firmou. Fora de época, com o coração em technicolor em um mundo que flerta com o streaming, virou a mais cafona (e romântica) criança viada da família. Hoje escreve como quem investiga um mistério e disseca sentimentos, como um bom escorpiano de 1978. “Flores Astrais” é seu primeiro romance.
Fale-nos sobre o livro. O que o motivou a escrevê-lo?
“Flores Astrais” fala de minhas experiências como uma criança gay que cresceu entre a capital de Minas e o interior, maravilhado com os mistérios da vida, reais ou não, dos silêncios impostos, das dúvidas, dos medos, das alegrias e aquilo tudo que nos torna vivos, mesmo tratando da morte que nos ronda e nos assombra.

É uma história que estava adormecida em algum lugar da minha infância: rascunhos de ideias nunca revisitados, folhas datilografadas e esquecidas em caixas de papelão cheias de traças, na casa dos meus pais, no interior de Minas. Nos últimos três ou quatro anos, reencontrei essa paixão e deixei a história fluir, quase como se eu estivesse assistindo a uma minissérie ou a uma novela dos anos 1990 — referências importantes para o ritmo e o estilo da trama, que o escritor Santiago Nazarian define como “uma trama bem estruturada que mistura suspense, kitsch e crítica social com muito tempero”.
Mas como definir a motivação? Senti que agora, aos 47 anos, estava pronto para olhar os vermes passeando em luas cheias. A literatura de mistério e terror costuma tocar naquilo que a gente finge que não existe; eu quis tocar naquilo que a gente finge que existe, como afirmar que o Brasil não é racista, intolerante religiosamente ou homofóbico, o verdadeiro horror no livro e de onde toda a tragédia brota.
Como analisa a literatura de terror nacional?
“Flores Astrais” contém elementos fantasmagóricos, mas habita essa fronteira instável entre a realidade e o fantástico, flertando com o terror, o suspense e o mistério. A literatura de gênero brasileira é vívida, rebelde e, às vezes, esquizofrenicamente criativa. Autores como Santiago Nazarian, Stefano Volp, Claudia Lemes, Larissa Brasil, Raphael Montes, André Vianco, entre tantos outros, ajudaram a azeitar o caminho para novos escritores, como eu.
Existe algo especialmente prazeroso — e corajoso — em transpor um gênero historicamente europeu ou norte-americano para o universo tropical brasileiro, sobretudo quando falamos de gótico. Estamos acostumados a castelos medievais sob névoa espessa, gelo, correntes arrastadas em cemitérios monumentais. Mas, no Brasil, como criar uma estética gótica? Eu acredito em atmosferas, sejam elas construídas sobre cenários, pessoas ou situações. A escritora Jarid Arraes traduz bem essa ideia ao afirmar que “as ambientações são personagens vivos, organismos que respiram dúvidas e incômodos profundos”. Assim, transformei o castelo em casarão de café, a névoa em poeira vermelha, as florestas em bosques de bambuzal e os fantasmas… bem, esses são os mesmos em qualquer lugar do planeta.
Como analisa a questão da leitura no país?
Pesquisas recentes indicam uma queda no hábito de leitura, o que não chega a surpreender em um país onde qualquer traço cultural costuma ser visto como elitista. O comportamento simplório, popular e humilde é frequentemente encarado como mais “descolado”, mais “divertido”, mais “brasileiro”. Isso cria um ciclo vicioso: sem educação de base, não há estímulo para a leitura; sem leitura, não se forma repertório; sem repertório, não há senso crítico. Ler acaba se tornando privilégio — não pelo preço do livro, mas pela ausência de incentivo e estrutura para que esse hábito seja naturalizado, e não tratado como pedantismo. Quem lê é visto como inteligente e intelectual, não exatamente por ler, mas por parecer pertencer a um clube restrito.
Por que o título “Flores Astrais”?
O título evoca uma atmosfera e não a trama, criando essa zona ambígua onde mistério, beleza e sobrenatural cabem na mesma frase. É ambíguo por natureza, alinhando-se ao tema central do livro: nem tudo é o que parece.
“Flores” remete à vida, mas também à morte; ao belo, e ao efêmero. Elas aparecem em momentos-chave: damas-da-noite que perfumam o casarão como um presságio de morte, flores do café, flores de laranjeira no mausoléu, e as flores roxas da belladonna, núcleo venenoso e estopim da narrativa.
“Astrais” traz o místico, o transcendente. A junção dos termos cria um campo sensorial que conversa com a obra: etéreo, inquietante, não revelando demais, e nem de menos. O mesmo está no design de todo o livro: a capa possui uma sobreposição onde, ao ser removida, revela-se a realidade.
Além disso, “Flores Astrais” é o título de uma música da época da ditadura militar (Secos & Molhados, 1973), um dos períodos históricos retratados no livro. Para mim, a letra fala de gestos de resistência e esperança. Quando a dedicatória diz “para todas as cores e outras mais”, verso da canção homônima, enxergo um pluralismo amplo: etnia, idade, sexualidade, crenças — e tudo o mais que couber, como o Brasil. É um retrato de uma mineiridade profunda, que assa pão de queijo, coa café no pano e conta “causos” de mistério em voz baixa, fingindo guardar segredo.
Por fim, “Flores Astrais” também carrega um certo ar de título de novela ou minissérie: um folhetim com DNA brasileiro desde o primeiro contato do leitor com a trama, além de elementos característicos desse tipo de obra televisiva.
O que você diria ao leitor que só veio por causa do rótulo “terror”?
Resposta curta: seja bem-vindo.
Resposta filosófica: “terror” aqui é porta, não destino.
Quem é você quando não está escrevendo?
Um sujeito que toma café forte, coleciona perguntas perturbadoras, não tem medo de mudar e se refazer e que, principalmente, aprendeu que um pouco de humor resolve quase tudo na vida — até cenas cafonas de sexo.
Tem outros projetos literários pela frente?
Sim, um romance concluído e a ser publicado pela mesma editora Mondru, com o título provisório de “Não se engane com a morte” e que trata sobre gaslighting. Também estou trabalhando em um texto sobre a distopia de refugiados climáticos, desenvolvido sob mentoria do escritor Celso Taddei, finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Romance de Entretenimento.
Link para o livro:
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Ambos com formação em Letras, são professores, escritores e palestrantes, com dezenas de livros publicados por diversas editoras. São colunistas da revista Conexão Literatura.



