O professor Edilson Gomes de Lima é ensaísta e escritor literário. Sua obra literária observa a vida urbana, o tempo contemporâneo e a condição humana com um olhar analítico e crítico. Em seus textos, a cidade surge como cenário e personagem, revelando silêncios, cansaços e pequenos indícios que passam despercebidos no cotidiano. Em parte de suas obras são explorados pontos objetivos e subjetivos, como a exaustão humana e essa intersecção perante ao grande sistema.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Edilson Gomes de Lima: Comecei escrevendo sem a intenção de ser lido, minha escrita é um fractal em construção. A escrita veio como uma necessidade de entender o mundo — construo pequenas peças de um quebra-cabeça maior. A minha literatura parte da observação analítica. Anoto meus pensamentos, imagens e frases soltas que vem a mente — muitas vezes sem saber o real significado — pensamentos são fractais brilhantes, alguns precisam eternizados pelas palavras. Com o tempo, percebi que esses fragmentos dialogavam entre si e carregavam uma mesma atmosfera. Foi quando entendi que ali havia literatura — não planejada, mas encontrada e formulada com os cuidados dos métodos rigorosos da química.

Conexão Literatura: Você é autor do livro “O bocejo da Metrópole”, poderia comentar?

Edilson Gomes de Lima: O Bocejo da Metrópole é um livro que nasce da observação da metrópole em seus momentos mais silenciosos. O bocejo não é tédio, é exaustão e o pacato — a obra captou e expôs o cansaço. É o instante em que a cidade parece estagnar se movendo — a obra traz assim essa percepção de estar percorrendo muito, e não chegando a lugar algum. Os poemas falam de ruas cansadas, de pessoas que passam sem conexões, de um tempo que corre mais rápido do que conseguimos perceber engolido pelo tédio. É um livro sobre aquilo que a cidade cala.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Edilson Gomes de Lima: Meu processo é analítico, é feito de atenção e muita observação — uma alquimia literária. Costumo usar os métodos precisos de observação da físico-química e seus métodos para construir arte literária. Observo assim o ritmo das ruas, os gestos, movimentos e ações, a arquitetura de tudo, o silêncio entre um ruído e outro. As inspirações vêm do cotidiano — de uma janela acesa à noite, de um olhar perdido, de uma esquina qualquer. Concatenando meu trabalho é que escrevo quando algo insiste em ficar. Tento assim eternizar fragmentos de momentos e ideias em meu fractal literário.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do seu livro especialmente para os nossos leitores?   

Edilson Gomes de Lima: Claro. Um trecho que considero representativo dessa nova obra:

“A cidade acorda antes das pessoas,

mas dorme antes que elas se deem conta.

Há ruas que caminham sozinhas,

enquanto os homens apenas repetem seus passos.”

Esse fragmento sintetiza a ideia central do livro: a inversão entre quem habita e aquilo que é habitado.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir o seu mais recente livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Edilson Gomes de Lima: O livro está disponível em plataformas online e canais editoriais. Aos poucos, também venho organizando espaços digitais onde irei compartilhar textos, poemas, reflexões e novidades sobre meus trabalhos literários. Gosto da ideia de que o leitor conheça e possa acompanhar a produção, o desenvolvimento como quem entra em uma cidade desconhecida. Nós somos a máquina humana que ensina e aprende pela interação e assim formamos o complexo organismo que são as sociedades.

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura no Brasil?

Edilson Gomes de Lima: A leitura no Brasil sempre enfrentou muitos obstáculos, mas também vejo uma subjetiva vontade de ler crescente e que carrega profundidade. A poesia, especialmente, tem encontrado novos leitores que buscam pausa, não velocidade. Ler, hoje, é quase um gesto de desaceleração saudável — e isso é profundamente necessário. Na França aprovaram um voucher para compra de cultura, uma atitude que poderia ajudar, talvez no futuro quando o país estiver melhor economicamente.

Conexão Literatura: Em um mundo cada vez mais acelerado e ruidoso, qual você acredita ser o papel da poesia hoje?

Edilson Gomes de Lima: A poesia, hoje, talvez seja uma das últimas formas de observação profunda e escuta da natureza e da alma humana em sentido amplo e literal. Enquanto tudo esvanece, esta permanece suavemente pelo tempo. Não compete com a velocidade do mundo, acompanha — oferece pausa. A observação e poesia não resolve, não explica, não acelera; simplesmente se põe como a observação, mantém e revela o que passa despercebido. Em tempos de excesso, escrever e ler poesia é um modo de lembrar que ainda somos humanos. Diferente das tecnologias atuais, a poesia é mais compatível com a nossa biologia.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Edilson Gomes de Lima: Certamente. Continuo formulando em meu laboratório os fractais literários e técnicos que em seguida irão formar obras memoráveis, frases, literatura, poesia e pensamentos — sempre atentos ao cotidiano e às transformações do tempo urbano. Tenho um pé no mundo científico e da engenharia onde intensamente capturo e crio muito inclusive. Há também projetos mais longos em amadurecimento, que seguem essa mesma linha de observação da construção de minha jornada literária.

Perguntas rápidas:

Um livro: Euclides da Cunha – Os Sertões

Um ator ou atriz: Anthony Hopkins

Um filme: Blade Runner

Um hobby: ensinar e aprender

Um dia especial: o dia da árvore

Conexão Literatura: Poderia encerrar com uma nota sobre seu novo livro?

Edilson Gomes de Lima: Espero que O Bocejo da Metrópole encontre leitores dispostos a caminhar devagar pelas páginas, sem pressa de chegar a um sentido final. Em tempos rápidos, a poesia não quer explicar — apenas acompanhar.

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