Alguém lembra que, em 2018, o multibiliardário Elon Musk usou um foguete da companhia SpaceX, da qual é dono, para lançar ao espaço o seu próprio carro, um Tesla Roadster? Pois é, aparentemente o pessoal do Centro de Planetas Menores, observatório de Astrofísica operado pela universidade Harvard e o instituto Smithsonian, tampouco lembrava dessa extravagante travessura astro-mercadológica do mega ricaço sul-africano. Ao notar o objeto que descrevia uma órbita estranha, distante menos de 240 mil km de nós, pensaram tratar-se de um asteroide, desses que irão se chocar com a Terra dentro de, supostamente, milhões de anos. Passadas algumas horas, no entanto, os cientistas descobriram a verdade sobre o tal objeto: era o carro usado do Musk, tendo por piloto um manequim batizado de Starman, propagandeando ao universo as qualidades de um veículo elétrico Tesla.
Decorridos sete anos daquele glorioso lançamento, hoje são as marcas chinesas que dominam o mercado global dos elétricos. A Tesla precisaria, portanto, elevar o moral da empresa, preparar uma contraofensiva, e nada melhor para isso do que recordar a emblemática unidade da marca, único veículo de quatro rodas a orbitar em torno do sol, em sua perene viagem de milhões e milhões sem fim de quilômetros. No atual contexto, a notícia até poderia ser oportuna, embora pessoalmente eu não veja razão para se lançar um carro elétrico ao espaço (faria mais sentido se fosse movido a energia solar…).
O problema é que a confusão gerada no caso do “Teslaroide” trouxe reflexões incômodas. Por um lado, os cientistas apontam para a necessidade de transparência no acesso aos dados dos objetos que trafegam no espaço exterior; por outro, alertam que o aumento do número de objetos artificiais em órbitas próximas à Terra poderá prejudicar a observação de corpos celestes, sobretudo asteroides com risco de atingir o nosso planeta.
Ou seja, se a moda de lançar carros ao espaço pegar, as chances de um asteroide nos pegar desprevenidos aumentam. Felizmente, os biliardários existentes ao redor do mundo não são tantos assim, menos ainda os donos de companhias aeroespaciais. A extrema concentração da riqueza numa quantidade cada vez menor de magnatas teria, pelo menos nesse caso, um efeito positivo, ao fazer diminuir a probabilidade de que outros incorram em aventuras excêntricas, cujo custo poderia ir muito além do monetário.
Pensando bem, não seria preciso contar com limitações econômicas se o poder simplesmente se curvasse à ética. Bastaria que o poderoso de turno fizesse a si mesmo a pergunta de ouro: o que aconteceria se todos (que podem) resolvessem proceder de forma idêntica? Posto em funcionamento, tal mecanismo ético de autodissuasão afastaria a hipótese de um carro esporte, sedan, ou SUV vir despencar sobre o nosso teto. Longe da ética, qualquer absurdo se torna possível. Já imaginou se os Faraós egípcios pudessem lançar suas pirâmides ao espaço? Teriam feito isso sem nenhum remorso, e estaríamos agora nos perguntando se o objeto no telescópio seria mesmo um asteroide ou a pirâmide de Quéops.
Uma dúvida nada científica que o caso me despertou é se o nome do manequim que pilota o carro teria sido inspirado na canção Starman, de David Bowie. O famoso cantor britânico era conhecido por sua capacidade de reinventar-se e antecipar-se às tendências culturais, o que lhe valeu o apelido de Camaleão. Bowie partiu em 2016, dois anos antes do lançamento do “Teslaroide”.
Se a canção de Bowie tivesse originado o nome do manequim, haveria ao menos algo de poético nessa história.

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