Bruno Crispim – Foto divulgação

Nascido em Niterói, em 1984, Bruno Crispim vem conquistando cada vez mais leitores e espaço no cenário literário nacional. Escritor, professor e mestre em Escrita Criativa pela PUC-RS, já publicou obras que transitam entre o policial, o suspense e a fantasia, como O Segundo Caçador, vencedor do Prêmio UFES de Literatura, e Ascensão, um eletrizante suspense sobrenatural. Mas foi com Kaito: reze por uma boa morte (Alta Novel) que ele alcançou reconhecimento ainda maior: eleito Livro do Ano pelo Prêmio Book Brasil, o romance mergulha os leitores em uma atmosfera pós-apocalíptica marcada por dilemas existenciais, cultura japonesa, afetos proibidos e uma intrigante gamificação da morte. Nesta entrevista exclusiva para a Revista Conexão Literatura, Bruno Crispim, finalista do Prêmio Kindle com o livro da morte sua, fala sobre sua carreira, influências e os bastidores da criação de Kaito.

Entrevista

Revista Conexão Literatura: Kaito foi eleito Livro do Ano pelo Prêmio Book Brasil. Como você recebeu essa conquista e o que ela representou para sua trajetória como escritor?

Bruno Crispim: Kaito é uma obra muito importante para mim e receber esse prêmio fez toda a diferença. Primeiro, ele fez com que a obra chegasse a mais gente. O selo do prêmio mostra uma relevância, mostra qualidade e potencializa muito o alcance do livro.

Além disso, no âmbito de pessoa criadora, esse tipo de prêmio te dá uma confiança grande para continuar o trabalho, para continuar nessa trajetória. Então foi muito importante ter recebido esse prêmio, foi muito importante que esse prêmio fosse recebido com Kaito, que é um livro tão importante para mim.

Eu comecei querendo escrever histórias fantásticas, mas adiei essa empreitada esperando ter a confiança de construir uma boa história. Foram vários anos com algumas histórias de fantasia na cabeça e, finalmente com Kaito, eu me senti apto a escrever uma história que fosse original, que fosse forte, que capturasse o leitor. Esse prêmio mostrou que eu não estava alucinando (risos).

Revista Conexão Literatura: A trama de Kaito mistura fantasia urbana, apocalipse e elementos de cultura japonesa. Como surgiu a ideia desse enredo tão singular e multifacetado?

Bruno Crispim: Kaito é uma história bastante original e eu acho que ela não nasceria de um lugar muito comum (risos). Ela veio de uma composição de fatores. A primeira foi de um estudo (ou pseudoestudo), que se propunha a calcular o número de pessoas que já passou pela Terra. Chegaram a um número de 100 bilhões de pessoas. Esse número ficou comigo ao longo dos anos. Sempre pensava nele, sempre voltava para ele.

Mas a faísca que acendeu o fogo aconteceu quando eu visitei Seul, capital da Coreia do Sul. Em um metrô na hora do rush, eu fiquei pensando: ‘Meu Deus, como esse metrô aqui está tão lotado e as pessoas não se empurram.’ Existe um respeito ali, um respeito que eu não observo em transportes públicos no Rio e em São Paulo. Aí eu pensei: ‘Qual a quantidade de gente necessária para que esse respeito seja quebrado?’ Eu lembrei desses 100 bilhões de pessoas, aquilo ficou muito forte na minha cabeça.

Eu comecei a testar a história, e alguns meses depois eu morei em Tóquio, no Japão, por dois meses. Eu tinha ido para lá com a ideia de escrever outro livro, mas quando cheguei, Kaito exigiu ser escrito – e foi completamente embebido em cultura japonesa. Ele começou, inclusive, como um roteiro de mangá. Não é à toa que, quem gosta de mangá e anime costuma gostar de Kaito.

A partir desses insights (e de outros que viriam depois, como a Bíblia) a história foi se construindo.

Revista Conexão Literatura: O protagonista é filho de um japonês e de uma sul-africana, carregando o peso de não se sentir pertencente a lugar nenhum. Essa sensação de deslocamento tem alguma ligação com experiências pessoais ou observações suas?

Bruno Crispim: Sim, existe uma questão de falta de pertencimento que vem da minha infância. Quando eu tinha, imagino, uns sete, oito anos, me percebi completamente isolado. Era uma turma grande, de 45 pessoas. O colégio tinha dez turmas para cada série, então tudo era muito grande lá. E eu estava completamente perdido, conseguia me relacionar com pouquíssimas pessoas.

Naquele momento, eu percebi que eu estava virando um alvo. A gente entrava na sala de aula em um fila organizada por ordem de tamanho e eu era o quarto mais baixo. Eu usava óculos desde cedo e usava aquele aparelho que chamam de freio-de-burro. Eu era um alvo fácil.

A forma que eu achei para me proteger foi investir no futebol. Isso virou uma obsessão. Eu comecei a treinar tanto que, em poucos meses, já me destacava. Sim, eu era muito tímido, mas jogava bem o futebol – e isso meus colegas aceitavam.

Até hoje, essa questão do pertencimento continua sendo uma questão importante. Tanto de uma forma reflexiva, quanto quando eu olho as crianças no mundo hostil que pode ser uma escola. Essa é uma questão relevante, que reflete traços estruturais da minha personalidade e que, vez ou outra, derrama para os meus texto – como é o caso de Kaito.

Revista Conexão Literatura: A relação entre Kaito, Clara e Aika adiciona uma camada emocional ao caos do Apocalipse. Como foi equilibrar o drama humano com a ação frenética da narrativa?

Bruno Crispim: Ainda que as cenas de ação alucinantes sejam um ingrediente importante nas minhas histórias, eu faço um grande esforço consciente para que as minhas personagens sejam o motor do enredo. Nesse sentido, o protagonista não pode ser uma pessoa que só reage aos perigos que enfrenta. Em boa parte dos filmes estadunidense da década de 90, por exemplo, temos um protagonista que é colocado numa situação em que ele é obrigado a reagir – e o único traço interessante na sua construção é o como ele reage.

Em Kaito, procurei trazer uma alta complexidade emocional para essa personagem de forma que, mesmo em momentos de grande perigo, tudo seja mais intrincado do que apenas um instinto de sobrevivência aguçado. Dessa maneira, tudo é uma escolha do protagonista, que se permite, inclusive, o direito de ser contraditório. Frente à algumas ameaças, ele tem a vontade de fugir, se isolar. Em outras de mesma grandeza, ele tem a vontade de seguir a todo custo, de ficar mais forte para proteger as suas pessoas. Nos dois casos, ele é conduz a história.

De forma complementar, existe também uma preocupação com o ritmo narrativo. Quando mantemos o cadência alucinada de uma cena de ação por toda a história, essa repetição de estímulos cansa o leitor e acaba desvalorizando a história. Cabe ao escritor escolher: fazer uma breve pausa e deixar o ritmo narrativo ser abalado ou manter o nível de emoção alternando a emoção envolvida. Em Kaito, a tensão do perigo iminente é intercalada com a tensão romântica, mantendo o leitor continuamente engajado com a história.

Revista Conexão Literatura: A gamificação da morte — onde matar dá poder — é um dos conceitos mais instigantes da obra. Como surgiu essa metáfora e de que forma ela dialoga com a nossa realidade contemporânea?

Bruno Crispim: A pergunta que acendeu a centelha foi: e se a gente esgarçasse os dois acontecimentos únicos na nossa existência (o nascimento e a morte), repetindo eles tantas vezes até que percam seu significado intrínseco? Uma vida que não termina e mortes recorrentes – podendo acontecer várias vezes ao dia. Será que valorizaríamos a vida ou a morte? Minha hipótese é que a existência humana como conhecemos perderia o sentido.

O apocalipse em si vem de uma construção de vários pequenos pedaços de mitologias e crenças que foram sendo pegos aos poucos para que fosse possível tirar dessa vida eterna a tranquilidade, ou melhor, a estabilidade. E aí eu fui buscando conceitos e tentando construir essa nova sociedade eternamente miserável. Tive duas inspirações principais. A primeira foi o apocalipse cristão, onde à poucos é entregue a paz do céu. Aos demais, a tormenta eterna. Penso que morrer no inferno não seria uma fuga possível para o castigo – tampouco, acredito que nossos torturadores seriam comedidos ao ponto de não deixar ninguém morrer. O que cria a necessidade de impedir essa morte de alguma forma.

A outra grande fonte que bebi foi a mitologia dos vampiros. Eles têm a vida eterna, podem morrer e se nutrem da morte dos outros. Pelos olhos de um vampiro eu enxergo, inevitavelmente, uma existência sem propósito. Por outro lado, eles detêm uma bênção tão grande que não conseguiriam abrir mão da eternidade e aceitar a morte. Eles estão presos – e cada novo dia agrava a carga de crimes e de culpa.

A pergunta seguinte foi: e se a própria morte perdesse o seu propósito? Nada tira mais o valor de algo do que a repetição, do que a abundância. Então, a forma de banalizar a morte seria repeti-la ao máximo. Uma vida eterna entrelaçada à mortes rotineiras. Esses dois concentos ficam completamente desgastados. E aí, naturalmente, as pessoas precisam buscar novas formas de conceber a experiência humana.

Você perguntou como isso dialoga com a nossa realidade. De certa forma, a gente está abrindo mão da nossa atenção, da nossa vida, sem perceber, ou pior, se importar. É uma reflexão sobre como estamos desistindo de um pouco da nossa existência por causa de coisas superficiais, conteúdos que em 20 minutos ninguém mais se lembra. A gente assiste séries que viram febre e, dois meses depois, ninguém lembra. É E isso vai muito além das redes sociais e dos streams. Faz parte dessa liquidez dos nossos tempos. Quando tudo muda tão rápido, por que lutar para impedir a ruína de algo? Sobretudo quando esse algo é relevante apenas para o outro. É também uma crítica a isso.

Revista Conexão Literatura: Você também é mestre em Escrita Criativa. Como essa formação acadêmica influenciou seu processo de construção do livro Kaito?

Bruno Crispim: Em primeiro lugar é preciso dizer que fazer o mestrado em Escrita Criativa na PUC Rio Grande do Sul foi uma experiência incrível. Muito aprendizado e uma conversa de altíssimo nível com os professores, com meus colegas. Foi realmente incrível. Mas, especificamente para a construção de Kaito, não houve impacto porque eu escrevi Kaito antes de entrar no mestrado.

Mas ele teve um impacto muito grande, por exemplo, na escrita do livro da morte sua. Eu vinha trabalhando nesse livro há alguns anos e cheguei na PUC com um desfecho que não me convencia. O livro era complexo e eu não estava conseguindo chegar lá. Então, a partir de muitas leituras e sugestões dos professores, eu consegui compreender a história em um nível de complexidade maior. Reescrever o final foi uma consequência disso e acho que agora ele está à altura.

Posso dizer também que os estudos na PUC RS mudaram e aprofundaram muito o meu entendimento sobre a literatura em si. Eu me sinto mais preparado, inclusive, para os próximos livros. É um ganho para vida. Eu recomendo.

Revista Conexão Literatura: Além de Kaito, você já publicou romances de suspense, policial e até um guia para escritores. Como transitar por diferentes gêneros literários enriquece sua escrita?

Bruno Crispim: Eu sou bem eclético, gosto de todo tipo de arte, todos os assuntos são interessantes para mim. Com a literatura não é diferente. Eu não me limitaria a ler ou a escrever apenas um tipo de história. Por isso, é meio natural escrever todo tipo de gênero, e pretendo, inclusive, abraçar outros no futuro. Tenho pensado em um livro de poesia, um de terror, um romance romântico. da morte sua, por exemplo, meu romance finalista do Prêmio Kindle, bebe das fontes da poesia e da dita “literatura contemporânea”.

Especificamente em Kaito, a gente consegue ver algumas facetas interessantes desta mistura. Por exemplo, quando eu crio, dentro de uma história fantástica, uma tensão do estilo é tudo ou nada – um típico atributo emprestado do suspense. Ou quando o clima começa a esquentar e Kaito (e o leitor) quere que a paixão seja consumada, mas ela não é. Essa sensação acridoce é a tensão romântica que foi construída a partir histórias de amor. Temos momentos de introspecção filosófica, de terror, de guia de viagem, de humor. Tudo isso engrossa o caldo da história. A partir de todos os gêneros, eu consigo construir uma história mais complexa e que tem mais textura.

Revista Conexão Literatura: Muitos leitores destacam o ritmo intenso e cinematográfico de Kaito. Você pensou a obra já com essa atmosfera, como se fosse um anime, série ou filme?

Bruno Crispim: Kaito nasceu, inicialmente, como um roteiro de mangá. A cena de abertura, em especial, é exatamente o que eu imaginava para o primeiro episódio de um anime. Quando retornei à literatura, mantive essa cadência intensa dos quadrinhos japoneses, o que deu à narrativa uma dinâmica muito particular.

Ao mesmo tempo, procurei estruturar a história de modo que ela estivesse sempre pronta para uma adaptação audiovisual. As cenas de ação foram escritas como se estivessem sendo filmadas, com a câmera buscando constantemente o ângulo mais sincero do protagonista. Esse caráter cinematográfico acabou sendo inevitável, por conta da minha formação autodidata em Escrita Criativa. Ao procurar por textos de referência, descobri que tínhamos pouco material publicado para escritores iniciantes em português. Parti para os manuais de roteiro que são abundantes em inglês. Naturalmente, a minha escrita foi influenciada por essa bagagem e acabou por ganhar um caráter cinematográfico.

Revista Conexão Literatura: Para os leitores que desejam conhecer Kaito: reze por uma boa morte, como eles podem adquirir o livro e acompanhar suas próximas publicações?

Bruno Crispim: Eu te adianto, em primeira mão, que acabei de terminar um spin-off de Kaito que se passa no Brasil. É uma história com novos personagens que vão se encontrar com Kaito mais à frente. Ela já foi enviada para a editora e logo teremos novidades – que vocês podem acompanhar nas minhas redes: https://www.instagram.com/brcrispim/ e https://www.tiktok.com/@bruno_crispim

Para quem quiser conhecer melhor a história, Kaito está disponível nas principais livrarias do Brasil.

Visite: https://www.brunocrispim.com/

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