Pedimos que o escritor Marcelo Nunes, editor da Editora Nauta, falasse sobre o livro que organizou e traduziu: “Soltando o verbo”.
E ele o fez com presteza admirável. Acompanhem:

Você é o editor da Nauta. Como está sendo o desafio de levar avante uma editora independente, em face das grandes editoras, dos grandes grupos editoriais? 

R: É uma luta diária. Em setembro agora a Nauta fará três anos, e foram três anos de muito aprendizado. Acho que você nunca sabe tudo sobre o mercado editorial, porque ele está sempre mudando, e hoje muito mais, por causa dos avanços tecnológicos. O último é a IA, que está transformando o modo como os livros são escritos, revisados e editados. Fora isso, hoje as pessoas leem menos literatura, o nosso nicho encolhe a cada dia. Mas eu acredito que a literatura e os livros nunca morrerão, apesar de tudo.
 
Você organizou e traduziu o livro “Soltando o verbo”. Por que a ideia de publicar este livro? Ele é voltado a apenas escritores e aspirantes a escritores?

R: Eu sempre gostei de livros de frases. Em 1990, a Companhia das Letras publicou um livro chamado “O melhor do mau humor”, com frases compiladas e traduzidas pelo Ruy Castro. Era como uma Bíblia para mim, há frases ali que eu até decorei e vivo repetindo. E eu sempre anotei frases que gosto, principalmente sobre o fazer literário, daí veio a ideia de fazer essa compilação agora. Mas não é um livro voltado apenas para escritores e aspirantes, mas também para quem gosta de ler. 
 
Você menciona a escritora estadunidense Lillian Hellman, que afirmou: “se eu tivesse que dar um conselho a jovens escritores, seria: não ouçam escritores falando sobre a escrita – nem sobre eles mesmos.”  A frase não seria uma contradição com o teor do livro, ou está mais para uma provocação?

R: Foi proposital, é uma provocação total, por isso eu menciono essa frase na apresentação do livro. A ideia é que essas frases são engraçadas, cínicas, venenosas, por vezes poéticas, mas não devem ser levadas ao pé da letra – até porque muitas se contradizem. Eu espero que as pessoas leiam o livro pelo deleite, para meditar e também para dar boas risadas, porque, afinal, uma característica comum a todos os escritores – e todas as pessoas inteligentes em geral – é o humor. Mas nenhum deles tem a verdade final, porque cada um tem suas próprias crenças. Um diz “escrever é difícil, é um inferno”, e outro diz “escrever é o maior prazer que eu tenho na vida”. Os dois estão falando a verdade. A ideia do livro é que você entenda isso e procure a sua própria verdade.
 
Como escritor, que dica poderia fornecer a quem deseja ser escritor e seguir uma carreira literária?

R: Desenvolva o senso crítico. Eu também sou escritor, já publiquei quatro livros, e de tudo que tive que aprender, o mais difícil e o mais valioso é a autocrítica. E não é fácil ter autocrítica, principalmente quando você é autodidata e só vê o próprio umbigo, como aconteceu comigo na juventude. Antes de publicar o meu primeiro romance, eu escrevi três outros que foram rejeitados por todas as editoras, inclusive as pequenas. Hoje eu também não publicaria esses três livros, eu consigo ver os seus muitos defeitos, mais do que as suas poucas qualidades. Então, um conselho que eu dou a jovens escritores é: leia muito, escreva muito, e procure um curso de escrita, uma mentoria, peça uma leitura crítica de alguém experiente – porque só aí você conseguirá desenvolver a sua autocrítica e melhorar a sua escrita. É possível fazer isso sozinho? Sim, mas é muito mais difícil e demora muito mais tempo.
 
Link para o livro:
https://editoranauta.com.br/Produto.aspx?idProduto=532878

Entrevista com o escritor e editor Marcelo Nunes:
https://revistaconexaoliteratura.com.br/entrevista-com-escritor-marcelo-nunes-seus-livros-e-a-editora-nauta-por-cida-simka-e-sergio-simka/

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