Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Diego Lisboa: Meu início na literatura foi, no mínimo, curioso. Cresci na periferia, em uma época em que a leitura não era exatamente um hábito incentivado. Segundo meus familiares, eu era uma criança bem atentada, cheia de energia e vivia arrumando problema. Por isso, passava boa parte do tempo de castigo.
Até que meu pai resolveu aumentar a punição. Além de ficar sem sair para a rua ou jogar videogame, eu era obrigado a ler um livro e escrever uma redação sobre o que havia entendido. Eu odiava aquilo.
Havia alguns livros lá em casa, não muitos. Quando chegou a hora de escolher um, não procurei o mais fácil nem o mais interessante. Escolhi o que achei mais bonito. Era um livro de capa dura sobre motores diesel.
Pode parecer estranho, mas foi ali que aconteceu o meu encantamento pela leitura.
Depois de algumas páginas, as palavras deixaram de ser apenas palavras e começaram a formar imagens na minha cabeça. Pela primeira vez, percebi que um livro podia criar um mundo inteiro dentro de mim. Foi naquele momento que descobri que um livro era capaz de criar mundos.
Depois vieram Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Capitães da Areia, Quincas Borba, O Cortiço, Macunaíma e tantos outros. Quando esses livros chegaram, a resistência já tinha ficado para trás. Eu os lia por vontade própria. E o incentivo das minhas professoras de Língua Portuguesa, na escola pública, foi fundamental para formar o leitor que eu me tornei.
Mas existe um detalhe dessa história de que gosto muito. No bairro onde cresci e entre os amigos da rua e da escola, gostar de ler não era algo admirável. Os livros acabaram se tornando quase um segredo. Naquela época, eu provavelmente preferiria admitir qualquer besteira que tivesse feito a confessar que passava as noites lendo Machado de Assis.
É interessante olhar para essa história hoje. Aquilo que um dia escondi por vergonha acabou me levando justamente para o lugar onde sempre me senti mais livre: a literatura.

Conexão Literatura: Você é autor do livro A Idade da Dependência – A ética necessária para o futuro. Poderia comentar?

Diego Lisboa: Todo livro nasce de uma inquietação. A minha começou quando percebi que talvez estivéssemos tentando compreender o presente com categorias que já não eram suficientes para explicar o mundo em que vivemos.
Ao longo da história, cada grande transformação recebeu um nome. Falamos em Idade da Pedra, Idade Média, Revolução Industrial, Sociedade da Informação, Era Digital. Essas expressões não descrevem apenas períodos históricos; elas representam maneiras de interpretar uma época.
A Idade da Dependência nasce justamente dessa inquietação. O livro propõe uma hipótese: talvez já tenhamos atravessado outra mudança de época e ainda não tenhamos percebido. Minha proposta é olhar para o presente a partir de uma nova lente, em que a característica mais marcante do nosso tempo não seja apenas a tecnologia, mas a crescente dependência de sistemas que passaram a organizar a comunicação, o trabalho, o consumo, a informação e até a forma como construímos nossos desejos.
Não escrevi esse livro para condenar a tecnologia, nem para transformar empresas ou bilionários nos grandes vilões da história. A tecnologia ampliou extraordinariamente as possibilidades humanas, e seria um erro ignorar isso. A minha inquietação é outra: toda vez que uma sociedade amplia o seu poder, ela também precisa ampliar sua responsabilidade.
É por isso que o subtítulo do livro é A ética necessária para o futuro. Se estamos, de fato, vivendo uma nova configuração histórica, talvez a grande questão do nosso tempo não seja apenas o que somos capazes de criar, mas que princípios serão capazes de preservar a nossa lucidez e a nossa autonomia diante daquilo que criamos.
Como todo ensaio, A Idade da Dependência não pretende encerrar um debate. Pelo contrário. Ele oferece uma hipótese, uma lente e um convite. Se, ao final da leitura, o leitor passar a olhar o presente de uma forma diferente — concordando ou discordando da minha interpretação — acredito que o livro já terá cumprido o seu papel.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Diego Lisboa: Não sei exatamente como nasce um livro. Sei reconhecer quando ele começou. Normalmente isso acontece quando uma pergunta passa a me acompanhar por tempo demais. Existem inquietações que simplesmente se recusam a ir embora. Elas atravessam leituras, filmes, pesquisas, o trabalho e a própria vida. Chega um momento em que escrever deixa de ser uma escolha e passa a ser a única forma de continuar investigando aquela pergunta.
Escrevo para compreender. Talvez por isso eu nunca comece um livro acreditando que tenho uma resposta. Começo justamente porque sinto que ainda não a tenho. O processo de escrita é o caminho que encontro para pensar com mais profundidade.
Costumo dizer que os livros são como filhos. Nós os escrevemos a partir do conhecimento que temos naquele momento. Depois, ao relê-los, descobrimos que eles também nos transformaram. Talvez essa seja a parte mais bonita da escrita: perceber que nenhum livro modifica apenas quem o lê. Ele modifica, antes de tudo, quem o escreveu.
As minhas inspirações não vêm de um único autor ou de uma única área do conhecimento. Elas nascem do encontro entre literatura, filosofia, psicologia, história, tecnologia e da tentativa permanente de compreender o tempo em que vivo. Escrevo porque acredito que cada época exige novas perguntas — e porque algumas delas simplesmente não aceitam respostas fáceis.

Diego Lisboa: Há um trecho da introdução que, para mim, sintetiza a proposta de todo o livro:
“Chamar este tempo de Idade da Dependência não é reivindicar autoridade para nomear a história de forma definitiva. É oferecer uma chave de leitura. Uma tentativa de tornar visível aquilo que, justamente por estruturar o cotidiano, tende a passar despercebido.”
Acredito que esse trecho resume também a postura que procurei adotar ao longo de todo o ensaio. Nunca me interessou escrever um livro para encerrar um debate ou oferecer respostas definitivas. Meu objetivo foi propor uma hipótese, uma nova lente para interpretar o tempo em que vivemos.
Se essa lente ajudar o leitor a enxergar o presente com um pouco mais de lucidez — concordando ou discordando da minha interpretação — acredito que o livro já terá cumprido a sua função.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Diego Lisboa: Meus livros estão disponíveis na Amazon, tanto para compra quanto para os leitores assinantes do Kindle Unlimited. Acredito que esse seja o caminho mais simples para quem deseja conhecer o meu trabalho.
Mas a verdade é que a conversa raramente termina em um livro. Gosto de experimentar diferentes formas de escrita e de diálogo. Às vezes publico ensaios no Substack; em outras, compartilho contos, crônicas e outros textos no Medium. Também produzo vídeos sobre literatura, filosofia, psicologia e psicanálise para o TikTok e o Instagram. Quando sobra um pouco de tempo, gosto de conversar com as pessoas no Observatório Periscópio, um grupo da Periscópio criado justamente para prolongar essas reflexões.
No fundo, todos esses espaços fazem parte da mesma proposta. Não os vejo como plataformas diferentes, mas como formas diferentes de continuar uma conversa que começou nos livros.
Se, em algum momento, um livro, um ensaio, um conto, um vídeo ou uma conversa conseguir oferecer ao leitor uma nova lente para olhar o mundo, acredito que todo esse trabalho já terá feito sentido.

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura no Brasil?

Diego Lisboa: Sempre tenho certo cuidado quando ouço a afirmação de que o brasileiro não lê. A pergunta que me interessa é outra: o que estamos chamando de leitura?
Fui agente de leitura em um projeto do Governo Federal, realizado em parceria com a Prefeitura de São Bernardo do Campo, e essa experiência me ensinou a olhar para essa questão com menos preconceito. De onde estou, vejo muitas pessoas lendo, interessadas em livros e procurando novas formas de se aproximar da literatura. Às vezes, o que falta não é interesse, mas acesso, mediação e o encontro com o livro certo.
Hoje, inclusive, plataformas frequentemente associadas ao entretenimento rápido também têm desempenhado um papel importante na formação de novos leitores. O BookTok, por exemplo, mostrou que a literatura encontrou novos caminhos para circular, despertar curiosidade e criar comunidades em torno dos livros. Isso não elimina os desafios, mas nos convida a abandonar a ideia simplista de que as pessoas deixaram de se interessar pela leitura.
Ao mesmo tempo, acredito que a leitura adquiriu um novo significado no mundo contemporâneo. Vivemos cercados por informações rápidas, fragmentadas e consumidas, muitas vezes, em formato de vídeo ou áudio. Nesse contexto, escolher a leitura é quase um ato de resistência. Não uma resistência nostálgica à tecnologia, mas uma escolha por outro ritmo de experiência.
Escolher um livro, nesse sentido, é escolher uma forma de atenção que o presente tem tornado cada vez mais rara. É aceitar o silêncio, a demora, a imaginação e o esforço de construir sentido sem que tudo nos seja entregue pronto. Um vídeo pode mostrar uma imagem. Um livro nos convida a criá-la dentro de nós.
Talvez seja por isso que a leitura continue tão necessária. Em uma época marcada pela velocidade, ela ainda oferece aquilo que poucas experiências conseguem oferecer: tempo para pensar, espaço para imaginar e a possibilidade de habitar, por algumas páginas, o olhar de outra pessoa.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Diego Lisboa: Sim, existem muitos projetos. O que às vezes falta é tempo.
Escrevo há cerca de quinze anos e, olhando para trás, tenho a impressão de que esse período foi menos sobre publicar livros e mais sobre descobrir o que eu realmente queria dizer. Hoje sinto que finalmente encontrei a minha voz autoral.
Grande parte desse percurso nasceu de uma obra chamada Criador, que comecei a escrever em 2012. Curiosamente, ela está pronta, mas ainda não acabada. Sempre encontro alguma frase, alguma cena ou alguma ideia que acredito poder ser aprimorada. Acho que esse livro acabou se tornando uma espécie de centro gravitacional da minha escrita.
Durante o processo de criação de Criador, vivi muitas ressacas criativas. E, para descansar de um livro, eu acabava escrevendo outro. Foi assim que nasceram, por exemplo, A Idade da Dependência e Innominatum. O que parecia uma fuga acabou se transformando em novos caminhos de investigação e criação.
Ao longo desses anos também surgiu Mitologia do Desejo, um livro de poesias. Já O Silêncio das Celas nasceu da tentativa de compreender como as estruturas de poder atravessam a vida das pessoas. Nesse percurso, as leituras de Michel Foucault foram fundamentais para pensar essas relações, enquanto a psicanálise de Sigmund Freud influenciou profundamente a construção dos personagens, especialmente a maneira como compreendo a neurose, a psicose e a perversão.
Desse mesmo processo nasceu a Coleção Lucidez, formada por três livretos: O Mal-Estar do Homem Moderno, O Delírio da Civilização e À Beira do Abismo. A coleção reúne ensaios, contos e crônicas que dialogam entre si e procuram oferecer diferentes perspectivas sobre o nosso tempo.
Há também outros projetos muito importantes para mim, como Diário de um Suicida, que procura contribuir para o debate sobre saúde mental; A Morte do Império; e O Evangelho Esquecido, o segundo livro que escrevi. Curiosamente, ele nasceu inspirado apenas pelo título de um romance de José Saramago que eu nunca li. A força daquele título despertou uma pergunta que permaneceu comigo por muito tempo e, aos poucos, acabou se transformando em uma história completamente diferente. Hoje, O Evangelho Esquecido está disponível na Amazon.
Também tenho um carinho especial pela literatura infantil. Beleléu foi o início desse caminho e, atualmente, outros dois livros infantis estão em negociação com uma editora. Espero que, em breve, eles também encontrem seus leitores.
Ou seja, projetos realmente não faltam.
Talvez o maior desafio, hoje, não seja escrever novos livros, mas encontrar a melhor forma de reunir tudo isso dentro de um mesmo projeto autoral.
Foi justamente dessa necessidade que nasceu a Periscópio Produções. Durante muito tempo procurei uma editora que conseguisse compreender a amplitude desses projetos e da visão de mundo que procuro construir por meio deles. Como esse encontro ainda não aconteceu, decidi criar o meu próprio caminho.
Publicar de forma independente tem me dado algo que valorizo muito: liberdade. Liberdade para experimentar diferentes gêneros, desenvolver projetos de longo prazo e, principalmente, manter um diálogo direto com os leitores. Se um dia encontrar uma editora que compartilhe dessa visão, será um prazer caminhar junto. Até lá, sigo construindo essa obra com a independência e a liberdade que considero essenciais.

Perguntas rápidas:
Um livro
Diego Lisboa: O Iluminado, de Stephen King, porque foi o livro que me fez acreditar que eu também poderia escrever. Lembro de estar lendo e dizer para a minha mãe que, um dia, seria escritor. Também não posso deixar de citar Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que me apresentou ao realismo fantástico e ampliou completamente a minha forma de imaginar a literatura.

Um ator ou atriz
Diego Lisboa: Atualmente, Wagner Moura. Gosto da forma como ele transita entre diferentes personagens e da inteligência com que pensa o próprio ofício.

Um filme
Diego Lisboa: Essa talvez seja a pergunta mais difícil da entrevista. Tenho muitos filmes que marcaram momentos diferentes da minha vida, e seria injusto escolher apenas um. Minha relação com o cinema é muito parecida com a que tenho com a literatura: cada obra chega em um momento diferente e acaba dialogando com perguntas diferentes.

Um hobby
Gosto de ler, ouvir música e ir à academia. São momentos em que consigo desacelerar um pouco e colocar as ideias no lugar.

Um dia especial
Diego Lisboa: Talvez o dia da minha morte. Não por um desejo de morrer, mas porque imagino que será o único dia em que todas as perguntas que me acompanham deixarão de exigir respostas. Depois disso, haverá apenas o silêncio — ou o nada. E, curiosamente, acho essa ideia muito bonita.

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