Luna Bela Morte é uma escritora de poesia gótica e terror, feita de silêncio, lua cheia e palavras afiadas.
Sua obra mergulha nas sombras da existência humana, onde a dor, o desejo e a morte deixam de ser monstros para se tornarem espelhos.
Entre cemitérios, livros raros e noites insones, ela transforma o medo em linguagem e a decadência em beleza.
Não escreve para confortar almas frágeis, essa mania humana de querer colo até do abismo.
Escreve para desenterrar verdades, rasgar véus e revelar o que pulsa sob a pele do mundo.
Luna é arquivista de trevas, ritualista urbana e testemunha íntima daquilo que a luz prefere negar. 

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Luna Bela Morte: Meu início no meio literário não aconteceu como uma estreia luminosa, com flores na mesa e aplausos civilizados, essa pequena comédia humana. Aconteceu em silêncio, entre livros antigos, madrugadas inquietas e uma sensação quase física de que eu precisava escrever para não ser devorada por aquilo que observava.
Cresci cercada por sombras muito férteis: bibliotecas, cemitérios, filmes de horror, poesia maldita, simbolismo, romantismo sombrio, vozes como Poe, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Anne Rice, Álvares de Azevedo. Não os li como quem visita autores mortos; li como quem encontra parentes enterrados em páginas.
Antes de publicar, eu já escrevia para compreender o que a maioria prefere maquiar: a morte, o desejo, a culpa, a violência íntima, os fantasmas sociais que moram dentro das casas. Depois vieram os textos, os leitores, os livros, a criação da minha própria mitologia. Mas a raiz continua a mesma: eu não entrei na literatura para enfeitar o mundo. Entrei para abrir suas paredes e mostrar o que respira atrás delas.

Conexão Literatura: Você é autora do livro “Poesia para ser lida no cemitério”, poderia comentar?

Luna Bela Morte: “Poesia para ser lida no cemitério” nasceu como uma vela acesa no centro da noite, não para expulsar a escuridão, mas sim para revelar o que sempre esteve ali, esperando coragem para ser visto.
É um livro de poemas góticos, sim, mas não apenas no sentido estético. O cemitério, pra mim, não é apenas uma decoração mórbida. É uma filosofia, entende? É o lugar onde as vaidades humanas perdem a maquiagem, onde o tempo se torna honesto e onde percebemos que toda vida é uma obra breve tentando deixar alguma marca antes do silêncio.
Nesse livro, falo de morte, amor, desejo, fantasmas, casas assombradas, vampiros, bruxaria, solidão e renascimento. Mas, no fundo, todos esses temas são máscaras para uma pergunta maior: o que fazemos com a nossa própria sombra?
Eu o escrevi para leitores que não têm medo de sentir profundamente. Para aqueles que sabem que a beleza nem sempre vem perfumada de flores claras. Às vezes, ela nasce entre lápides, sob uma lua fria, quando finalmente aceitamos que também somos feitos de ausência, ruína e mistério.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Luna Bela Morte: Meu processo de criação começa quase sempre com uma inquietação. Uma imagem, uma frase, uma ferida antiga, um rosto visto de relance na rua, uma casa silenciosa demais. Eu não parto de uma ideia domesticada. Parto de um incômodo. A literatura, quando é honesta, não nasce limpa. Ela vem com terra sob as unhas.
Escrevo muito à noite, quando o mundo baixa a voz e a imaginação ganha mais força, esse milagre raro numa época em que até o silêncio parece precisar de notificação. Costumo construir primeiro a atmosfera: o cheiro do lugar, a temperatura da cena, a textura emocional da personagem. Depois vem a estrutura, porque até o caos precisa de arquitetura. Um conto, um poema ou um romance não pode ser apenas uma sombra espalhada. Precisa ter ossos.
Minhas inspirações vêm do horror gótico, da poesia simbolista, do romantismo sombrio, do cinema de terror, da música pesada e das ruínas humanas que encontro no cotidiano. Poe me ensinou a escutar a culpa. Baudelaire, a encontrar flores no lodo. Augusto dos Anjos, a tratar a carne sem delicadeza mentirosa. Anne Rice, a compreender que o monstro mais fascinante é aquele que ainda carrega uma alma em conflito.
Mas minha maior inspiração continua sendo a condição humana. O medo de morrer. O desejo de ser amado. A violência escondida nos lares. A solidão das cidades. A necessidade desesperada de transformar dor em beleza antes que ela nos transforme em pedra. Escrevo a partir desse lugar: onde o abismo deixa de ser um fim e se torna uma linguagem.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho do seu livro especialmente para os nossos leitores?

Luna Bela Morte: Como a sua pergunta não especifica de qual livro, vou escolher um trecho do livro “Poesia para ser lida no cemitério”, que é uma espécie de altar poético dentro da minha obra. Afinal, já que me deram uma porta aberta, seria rude não entrar carregando uma vela preta.
Um trecho que representa muito bem o espírito do livro é:
“Ensinaram-nos a temer a noite… Mentiram. A escuridão é fértil.”
Gosto desse trecho porque ele resume uma das ideias centrais da minha escrita: a sombra não é apenas uma espécie de ameaça. Ela também é uma revelação. A cultura costuma tratar a dor, o medo, a morte e a melancolia como quartos trancados da alma, desses que a sociedade manda esconder para manter a mobília emocional apresentável. Eu faço o contrário. Entro nesses quartos, acendo uma vela e pergunto: o que ainda vive aqui?
Então, concluindo, “Poesia para ser lida no cemitério” não é um livro para fugir da noite. É para atravessá-la com os olhos abertos. Nele, o cemitério não é um fim: é um espelho, um templo, uma confissão.

Conexão Literatura: Além de poesia, você também criou uma saga literária chamada “Ordo Umbrae”, composta por contos e livros em prosa literária. Poderia falar sobre essa saga? 

Luna Bela Morte: A Ordo Umbrae é o meu universo de horror gótico em prosa, mas gosto de pensar nela como um grimório disfarçado de saga literária. Ali, o terror não aparece apenas para fazer barulho no corredor, como certos sustos baratos que a humanidade insiste em chamar de profundidade. Ele surge como uma força filosófica: aquilo que revela quem somos quando o amor, a fé, o desejo e a morte deixam de obedecer às nossas pequenas ilusões.
A saga começa com o e-book “O Aprendiz das Trevas”, que apresenta a origem de Castor, um homem quebrado pelo luto e lançado ao contato com forças que jamais deveriam responder a uma oração. Esse e-book pode ser baixado gratuitamente em meu site. Depois, no romance “O Beijo e a Maldição”, esse universo se expande com Cael e Isolda, dois seres presos entre paixão, condenação e rituais antigos. É uma história sobre amar aquilo que pode nos destruir, tema que, infelizmente, continua bastante humano.
Além dos livros, existem contos paralelos que aprofundam esse mundo, como “O Covil de Nyxara”, “Cães Fantasmas da Ordo Umbrae” e “A pintura antes da morte”. Neles, trabalho bruxaria, sociedades secretas, portais, violência psicológica, casas corrompidas e personagens que caminham sempre no limite entre vítima, monstro e revelação.
Pra mim, a Ordo Umbrae é uma catedral escura construída com dor, desejo e mistério. Cada personagem carrega uma pergunta perigosa. Castor pergunta até onde o luto pode deformar um homem. Cael pergunta se uma maldição ainda pode amar. Isolda pergunta quanto de humanidade estamos dispostos a sacrificar por conhecimento. Nyxara, talvez a mais indomável de todos, pergunta quem realmente tem o direito de decidir quais verdades devem permanecer trancadas.
No fundo, essa saga é sobre atravessar o véu. E, quando o leitor atravessa comigo, descobre que o pior monstro nunca esteve do outro lado. Estava apenas esperando que alguém tivesse coragem de acender a vela.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir o seu livro e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Luna Bela Morte: O leitor que sentir o meu chamado pode atravessar o portal principal do meu universo literário em aprendizdastrevas.com. Ali estão meus textos, meus livros, meus contos, minha poesia, meus projetos sombrios e essas pequenas armadilhas delicadas que preparo para almas curiosas. A internet ainda serve para alguma coisa além de transformar a humanidade em ruído, vejam só.
Meus livros também estão disponíveis pela Editora Uiclap, para quem prefere ter a obra em mãos, sentir o peso físico das páginas e lembrar que literatura ainda pode existir fora da rolagem infinita das telas.
No meu site, o leitor encontra não apenas informações sobre as publicações, mas também caminhos para conhecer melhor minha escrita, meu universo gótico, a saga Ordo Umbrae, meus poemas e os eventos literários que organizo. Gosto de pensar naquele espaço como uma casa antiga: quem entra por curiosidade talvez encontre apenas uma página; quem permanece, acaba descobrindo corredores, retratos, vozes e portas que não estavam no mapa.
Então, se alguém deseja conhecer meu trabalho, o convite é simples: entre em aprendizdastrevas.com. Leve uma vela. Algumas sombras gostam de ser lidas de perto.

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura no Brasil?

Luna Bela Morte: A leitura no Brasil é uma ferida aberta, mas também uma possibilidade luminosa, dessas que insistem em nascer mesmo entre os escombros. Eu não acredito nessa ideia preguiçosa de que “o brasileiro não gosta de ler”. Isso é uma simplificação confortável demais, e simplificações costumam ser o travesseiro dos intelectualmente cansados.
O problema é mais profundo. Ler exige tempo, silêncio, acesso, formação emocional e uma sociedade que trate o livro não como enfeite de estante ou luxo de iniciados, mas como instrumento de liberdade. E o Brasil, infelizmente, muitas vezes oferece ao leitor em potencial justamente o contrário: pressa, precariedade, telas vorazes, escolas feridas, bibliotecas abandonadas e uma cultura que ainda transforma o pensamento em ameaça.
Mas há algo muito forte aqui: quando o brasileiro encontra um livro que fala com sua dor, sua cidade, seu medo, sua fé, sua violência, seu desejo e sua memória, ele lê com fome. O leitor brasileiro não precisa ser subestimado. Precisa ser convocado.
Acredito que a literatura deve descer do pedestal e entrar na vida. Não para se vulgarizar, mas para respirar. O livro precisa voltar a ser visto como uma espécie de portal, um espelho, uma arma, um abrigo, um veneno necessário. Porque um povo que lê melhor também sonha melhor, desconfia melhor e obedece menos. Talvez seja exatamente por isso que a leitura ainda assuste tanta gente.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Luna Bela Morte: Sim. O projeto que está mais vivo, ou talvez mais perigosamente desperto, é o Halloween da Luna 2026, que será o lançamento oficial de “O Grimório de Nyxara”, no dia 31 de outubro. Nyxara é uma das presenças mais intensas da minha saga Ordo Umbrae: uma bruxa que se adapta às trevas e modela a escuridão. A humanidade chama isso de ameaça, naturalmente. A humanidade chama qualquer mulher lúcida demais de ameaça. 
Esse livro acompanhará a peregrinação obscura de Nyxara até o Templo dos Vampiros, reunindo rituais vampíricos, simbologias ancestrais, cerimônias coletivas, métodos secretos do vampirismo, fragmentos filosóficos e profecias proibidas. Será uma edição especial, com acabamento premium, capa colorida, orelhas laterais, miolo inteiramente colorido em papel couchê e cerca de 250 páginas. 
Mas o Halloween da Luna não será apenas um lançamento. Será um evento literário participativo. Haverá sorteios de cinco exemplares físicos de “O Grimório de Nyxara” e cinco pôsteres da Bruxa Nyxara, além da seleção de 13 almas para integrarem essa noite: poetas, contistas, um influenciador literário, um ilustrador e leitores que poderão se tornar personagens dentro da obra, em contos criados como consultas espirituais com Nyxara. 
Gosto dessa ideia porque ela rompe a vitrine fria entre autora e leitor. Não quero apenas leitores observando meu universo do lado de fora, com o nariz encostado no vidro como fantasmas educados. Quero alguns deles atravessando a porta, deixando pegadas no chão, tornando-se parte da mitologia. Para conhecer as regras e atender ao chamado, basta visitar a página Halloween da Luna 2026, no meu site oficial, que é uma espécie de portal que finge estar fechado, testando quem realmente deseja entrar.

Perguntas rápidas:
Um livro: Drácula, de Bram Stoker. 
Um ator ou atriz: Eva Green. 
Um filme: Entrevista com o Vampiro. 
Um hobby: caminhar por cemitérios e visitar bibliotecas antigas.
Um dia especial: 31 de outubro. Halloween. A noite em que o mundo finge brincar com as trevas, enquanto eu apenas recebo visitas em casa.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Luna Bela Morte: Sim. Gostaria de encerrar deixando um chamado aos poetas e contistas que sentem a literatura como quem sente uma porta rangendo dentro do peito.
Estou à procura de autores para compor o meu projeto literário de Halloween. As inscrições continuam abertas, e os textos selecionados farão parte dessa celebração sombria que venho preparando com muito cuidado, muita febre criativa e, naturalmente, uma quantidade moralmente questionável de velas acesas.
O que posso adiantar é isto: os escolhidos não participarão apenas de um evento isolado. Eles poderão ser convidados para novos projetos literários que já estão em pauta, mas que, por enquanto, ainda precisam permanecer atrás do véu. Algumas criaturas não devem ser nomeadas antes da hora. A humanidade já estragou mistérios suficientes com excesso de anúncio e pouca alma.
Agradeço profundamente à revista Conexão Literatura por este espaço e ao editor Ademir Pascale pela atenção ao meu trabalho. Que os leitores se aproximem sem medo. Meu universo literário não promete conforto, mas promete verdade, beleza sombria e algumas portas que talvez nunca mais consigam fechar.

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Uma resposta

  1. Luna Bela Morte é uma escritora original, algo raro em nossos tempos. Também é dona de uma narrativa cativante. Leio os seus contos/poemas e encontro neles uma linguagem de libertação e nunca a do medo com enfeite de adjetivos.
    Luna, além de seu extenso trabalho literário, diz na entrevista cedida à Revista Conexão Literatura que os cemitérios não ostentam “decorações mórbidas”, mas são “lugares onde a humanidade perde sua maquiagem”. Este dizer metafórico, em Luna, é belo, é poético, é filosófico. E é justamente aqui que a morte, para ela, é pura transgressão. Um levante à vida!
    No entender da entrevistada, o que está na vida é um “incômodo”, a partir do qual ela dá início à sua literatura que, aliás, “vem com terra sob as unhas”.
    Certo dia, de repente, Luna Bela Morte surgiu na tela do meu computador como um chamado ao bom estilo no ato de escrever, que costumo saborear com o mesmo deleite de um “cão fantasma”.

    H. Francisconi.

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