Você é o fundador (podemos dizer assim?) e o editor da editora Tramatura, que está completando em maio cinco anos. Como foi o percurso até aqui? Encontrou muitos entraves? Qual foi o maior problema com que se defrontou em relação à editora? E quais os pontos positivos que encontrou ao longo dessa caminhada?

Acho que podemos dizer que sim, que sou o fundador da editora — ou, antes, foi ela quem fundou o editor em mim. A Tramatura nasceu oficialmente em 28 de maio de 2021, mas, na verdade, ela começou um pouco antes, de uma espécie de inquietação que me acompanhava enquanto eu fazia uma pós-graduação em Escrita Criativa. Foram dois anos muito gratificantes, de proximidade com a criação literária de outros autores e muito perto dos processos por trás de uma editora. Eu comecei a me interessar pelo que acontece depois da escrita, de entender por que caminhos um livro passa a partir do momento em que o escritor coloca o ponto final na história. Revisão, edição, preparação, projeto gráfico, impressão, posicionamento editorial… aquela parte invisível que transforma um texto em livro.
O primeiro título, A Casa das 100 Janelas, inicialmente seria publicado por outra editora. Só que, naquele momento, eu percebi que queria participar desse processo inteiro. Não apenas escrever histórias, mas construir livros e entender o caminho completo entre a criação e o leitor. A Tramatura nasce daí.
E o percurso de lá até aqui foi bastante intenso e cheio de aprendizagens — tropeços, alegrias, receios, erros e acertos. Acho que toda editora independente no Brasil vive um pouco numa corda bamba permanente. Você lida com custos gráficos altos, distribuição complicada, dificuldade de alcance, mudanças constantes no mercado e um espaço muito pequeno para projetos mais autorais ou de nicho.
Então entraves existiram muitos. Talvez o maior deles tenha sido justamente crescer sem perder identidade. Porque é fácil começar a fazer concessões quando você percebe como o mercado funciona — recebemos diversas propostas para editar livros de terceiros, com tiragens pagas pelos autores, ou para projetos que não têm a ver com a editora. Muito educadamente, explico sempre que esse não é nosso caminho. Eu sempre tive muito claro que a Tramatura precisava ter uma linha editorial própria, um catálogo com personalidade, valorizar o autor e sua obra e não cobrar dele pela publicação; isso eu deixo para as prestadoras de serviço, porque não é nosso caso.
E ao mesmo tempo, os pontos positivos compensam muito. A liberdade editorial é talvez o maior deles: poder publicar livros que muitas vezes não encontram espaço em editoras maiores; poder resgatar autores que eu amo, criar projetos gráficos específicos, investir nas séries pulp, trabalhar clássicos de uma forma mais cuidadosa. E existe também uma coisa muito importante: a comunidade que foi se formando em torno da editora. Hoje percebo que muita gente acompanha a Tramatura não apenas por um livro específico, mas pela proposta da editora em si. Isso talvez seja a coisa mais gratificante desses cinco anos.
 
Além de livros, a Tramatura tem publicado uma série de revistas. Poderia falar sobre cada uma delas?

Na verdade… são livros que são como revistas…
Me deixa explicar isso melhor: as séries de livros-revistas da Tramatura nasceram justamente da nossa paixão por literatura de gênero e pela história por trás daquelas antigas publicações pulp. Eu sempre fui fascinado por aquele período em que ficção científica, horror, aventura e fantasia conviviam nas bancas em revistas baratas, populares, mas extremamente criativas. Então começamos a planejar nossa “versão”, no formado físico de um livro (23×16 centímetros), mas com a alma de uma revista: com editorial, sessão de cartas, trazendo informação sobre autores, matérias sobre filmes e livros…
A Científica Ficção foi a primeira delas e talvez seja a série que melhor representa esse formato. Ela é uma homenagem direta às revistas pulp clássicas de ficção científica. Publicamos autores fundamentais do gênero, como Philip Francis Nowlan, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Clifford D. Simak, Richard Matheson, entre muitos outros, ao lado de autores contemporâneos brasileiros. A ideia nunca foi fazer apenas uma republicação nostálgica, mas criar uma ponte entre diferentes épocas da ficção científica.
Já a Gritos de Horror trabalha mais diretamente o horror clássico, weird fiction e horror pulp. Ela conversa muito com aquele imaginário das revistas de terror do começo do século XX, mas também com o horror literário mais atmosférico e psicológico. Também costumamos buscar autores anteriores ao movimento pulp, mas que fizeram parte dos alicerces dessa literatura de formação dos gêneros que hoje são populares. Algernon Blackwood, Arthur Conan Doyle, Arthur Machen… compõem, junto com outros escritores menos conhecidos e também autores nacionais, um panteão de histórias macabras muito inventivas e originais. São escritores que precederam grandes autores modernos, como Stephen King, Clive Barker, Paul Tremblay, Stephen Graham Jones…
Já a Fantástica Aventura mistura fantasia, aventura, mistério e espada e magia. É provavelmente a série mais próxima daquele espírito clássico das revistas de aventura do começo do século passado. Ali convivem autores como Robert E. Howard, H. Rider Haggard, Talbot Mundy e outros nomes fundamentais da literatura fantástica e aventuresca. O volume dois está quase chegando, trazendo aventuras de piratas, fantasias mágicas com elfos e mundos perdidos, e mesmo mistérios mundanos como as histórias noir de Dashiell Hammett; e até um conto do velho oeste…
Além disso, existe a Fronteiras da Imaginação, que surgiu de uma percepção muito interessante: eu descobri que autores como J. C. Carbel e Marcos Fherrer compartilhavam muitas das minhas próprias paixões literárias e criativas. Então a série acabou se tornando um espaço para histórias contemporâneas de ficção especulativa que dialogam com toda essa tradição, mas sem ficar presa ao passado.
 
A editora ainda publicou “Arquivo X: Guia de Episódios Comentados”. Poderia comentar? (desculpe-nos o trocadilho)

(Risos.) Esse livro é culpa exclusivamente minha. Nasceu da minha paixão muito pessoal pela série. Arquivo X sempre foi extremamente importante para mim, não só pelo aspecto sobrenatural ou conspiratório, mas porque ela mistura horror, ficção científica, folclore (americano), suspense policial e filosofia de uma forma muito particular.
O guia veio a reboque da série de vídeos de análises dos episódios que sai (quase) toda semana no nosso canal do YouTube, que, por sua vez, surgiu da vontade de analisar a série episódio por episódio, mas indo além da simples sinopse ou curiosidade. A ideia era discutir referências literárias, contexto cultural, bastidores, estrutura narrativa e os temas que aparecem na série. No fundo, a série de vídeos e (muito mais) o livro são uma forma de mostrar como Arquivo X ajudou a moldar parte do imaginário contemporâneo ligado ao estranho e ao inexplicável.
E existe uma coisa curiosa: de certa maneira, o livro conversa muito com a própria identidade da Tramatura. Porque Arquivo X sempre trabalhou essa fronteira entre ciência, horror, mistério e imaginação. E acho que boa parte do catálogo da editora vive exatamente nesse território.
 
A Tramatura publicou também “Tarzan”. Qual foi o motivo de tal publicação?

Porque Tarzan é um personagem muito maior e mais importante historicamente do que muita gente imagina hoje. Existe um certo preconceito moderno que reduz o personagem a adaptações superficiais do cinema ou da televisão, mas quando você lê Edgar Rice Burroughs percebe imediatamente a força literária e imaginativa daqueles livros.
Publicar Tarzan dos Macacos foi quase um gesto de resgate editorial. Eu queria uma edição que tratasse o livro com o peso histórico e literário que ele merece. Não apenas como entretenimento de aventura, mas como uma obra fundamental da literatura pulp e da cultura pop do século XX.
Além disso, o universo de Burroughs conversa diretamente com várias coisas que a Tramatura publica: aventura clássica, mundos perdidos, fantasia científica, exploração do desconhecido. Era um encaixe muito natural dentro do catálogo. Estamos já no volume 2: O Retorno de Tarzan, e o terceiro livro está em tradução.
Nossa ideia é trazer toooodos os 25 volumes da série.
Vai demorar um pouquinho, mas a gente chega lá.
 
Também a editora tem a Biblioteca Clássica de Espantos e Assombros, cujos livros são de grandes autores brasileiros, como Machado de Assis. Por que tal publicação?

Porque existe uma falsa ideia de que literatura fantástica, horror ou insólito são coisas importadas para a literatura brasileira. E isso simplesmente não é verdade. 
Quando você começa a revisitar autores brasileiros clássicos, percebe rapidamente quantas histórias estranhas, sombrias, fantásticas e perturbadoras existem ali. Machado de Assis, por exemplo, escreveu contos absolutamente inquietantes — “Sem Olhos”, por exemplo, é um conto genial que conversa diretamente com Henry James e a novela “A Volta do parafuso”. Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Aluísio Azevedo, Coelho Neto e muitos outros trabalharam elementos góticos, sobrenaturais ou psicológicos muito fortes — e temos planos para trazer todos eles!
A Biblioteca Clássica de Espantos e Assombros nasceu justamente dessa vontade de resgatar esse lado menos comentado da literatura brasileira. Mostrar que o estranho, o fantástico e o horror também fazem parte da nossa tradição literária. E talvez façam há muito mais tempo do que as pessoas imaginam.
 
Alguma pergunta que gostaria de responder? Fique à vontade.

Talvez uma pergunta importante fosse: “O que a Tramatura quer se tornar?”

E acho que a resposta seria simples: eu quero que a Tramatura continue sendo uma editora com identidade. Num mercado em que muitas vezes os livros acabam parecendo produtos muito parecidos entre si, eu acho importante que uma editora tenha personalidade e paixão genuína pelo que publica.
Esses cinco anos foram só o começo. Hoje, olhando para o catálogo, eu tenho a sensação de que a Tramatura deixou de ser apenas um projeto e começou realmente a construir uma história.
E eu tenho muito orgulho dessa história até aqui. De verdade e com toda pureza do coração de um escritor que, antes de tudo, é um leitor extremamente apaixonado.

Link da editora:
https://www.tramatura.com.br/

Canal no YouTube:
https://www.youtube.com/@tramatura

Uma entrevista com Jefferson Sarmento:
https://revistaconexaoliteratura.blogspot.com/2024/02/entrevista-com-escritor-jefferson.html

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