
As cartas de um homem que se recusou a esquecer o amor
Romance vencedor do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, Os escritos de Blanca Mares une ficção e fatos que atravessaram a vida do autor
Diariamente, ao longo de décadas, Timóteo de Oliveira, o Velho Tussa, patriarca e o mais longevo dos Oliveira, cumpria religiosamente um ritual: com passos lentos, percorria as ruas da cidade mineira de Filadélfia (hoje Teófilo Otoni) para, minutos antes das dez horas, estar na estação ferroviária. Lá, despacharia cartas para a sua mulher, na esperança de um breve retorno. Espécie de louco manso e figura folclórica local, Tussa seguia sua vida descolada da realidade sem imaginar que a amada jamais voltaria por estar morta; e a estação, assim como a Estrada de Ferro Bahia-Minas, vencida pelo sucateamento e abandono, há muito estava desativada. Ambas são elementos centrais do livro Os escritos de Blanca Mares, de Roberto Marcos, romance vencedor do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, agora em lançamento pela editora.
Reunindo elementos ficcionais e fatos que atravessaram a vida do autor, Os escritos de Blanca Mares concorreu com outras 411 obras no último certame da Cepe Editora, mantendo-se inédita por pouco mais de uma década. Foi destacada pela comissão julgadora como sendo uma saga épica que mergulha no Brasil profundo, em que a crítica social que a estrutura é costurada por inserções poéticas de poder reflexivo. “Os elementos que contornam a história de amor são postos com algum humor, originalidade e uma linguagem que nos remete a características imagéticas bem traçadas”, indica o parecer.
Narrada pelo autor em tom de memória, a história traz para o centro da trama, ao longo das 167 páginas do livro, a vida do centenário Timóteo – um homem feito de saudades e de silêncios, imerso em luto e loucura desde a morte de Blanca Mares, sua mulher, fulminada por uma tuberculose. À súbita e devastadora partida, por ele presenciada, Tussa submerge para um mundo próprio, criando a falsa realidade de que a amada, na verdade, viajou para a vizinha Ponta de Areia (BA), a fim de resolver questões familiares. Sem passado ou futuro, o Velho Tussa se vê preso em um ciclo repetitivo, preenchendo os seus dias com cartas que escreve para Blanca e idas à estação – há anos transformada em museu ferroviário.
“Quando pensei em escrever, me atrevi a reunir duas histórias de dor. Uma dor (a de perder a esposa) que chega à vida de um homem para tamponar outra dor (a de ver a estrada de ferro desmantelar-se). O Velho Tussa, de fato, existiu. A estrada de ferro também. Ele era tio-avô de uma ex-namorada. A estrada de ferro cruzava o centro da cidade em que moro. De tanto assistir ao Velho Tussa vivendo de modo desassociado do mundo, imaginei que ele pudesse aguentar as aventuras que eu lhe poria nas costas. Quanto à estrada de ferro, ela segue sendo não mais do que a grande traição que a classe política cometeu contra os povos do leste de Minas Gerais e sul da Bahia”, assegura Roberto Marcos.
A partir do Velho Tussa e da resiliência de um amor que resiste à morte, a história se costura a outras, apresentando personagens que, em comum, comungam do entendimento de que embarcar na loucura do ancião seja a melhor forma de fazer a vida seguir em frente. Assim, encontramos Bonininho Oliveira, que no leito de morte do pai prometeu acolher o tio em todas as suas necessidades; Alfredo Ladeiras, que a título de uma bondade duvidosa doou a Tussa pombos-correio para que enviasse mensagens à mulher distante; a museóloga Flora Florêncio, a quem coube dar destino às centenas de cartas despachadas no guichê da antiga estação de trem, entre outros.
Perdido em devaneios, Timóteo torna-se agente do tecido social da cidade – abalada por uma chuva de duzentos (ou duzentos e vinte quatro) dias. Sem melhor coisa a fazer, moradores tomam como de interesse público o conteúdo de tais correspondências; outros tantos, enxergam na fidelidade do louco manso à estrada de ferro e à maria-fumaça extintas, argumento (de esperança ou eleitoreiro) para a reativação da ferrovia, “entendida como única salvação de um povo condenado a morrer de fome antes que a tristeza o exterminasse.”
Para o editor da Cepe, Diogo Guedes, Os escritos de Blanca Mares assegura uma experiência imersiva. “Numa prosa prazerosa, o livro transporta o leitor para um universo palpável, mas quase insólito, em que o cotidiano parece às raias do absurdo — até porque os dois não são tão diferentes assim entre si. Na obra, essa espera vã do Velho Tussa é o que empresta poeticidade, humor e cor aos dias de todos que o cercam. Roberto Marcos ainda consegue criar uma narrativa em que não só o personagem principal é protagonista: a própria cidade de Filadélfia e a sua temporalidade singular se tornam elementos essenciais”, destaca.
Sobre o autor – Roberto Marcos nasceu em Belo Horizonte e vive em Teófilo Otoni, cidade do Nordeste de Minas Gerais. Aventurou-se nos cursos de Direito e Ciências Sociais pelos quais, como ele costuma dizer, não se apaixonou. Migrou para o radiojornalismo, área em que atuou até 2012, dedicando-se atualmente à produção literária. É autor dos livros O Encomendado Amadeu (1980), Verdades Intoleráveis, (2010), Os Ovos Azuis da Serpente (2017), O Santo do Rio Sangue (2020) e A Janela de Babiana Trudeau (2024), todas produções independentes.
Perguntas para Roberto Marcos:
Como foi o processo de escrita e por que você deixou a obra na gaveta por dez anos?
Preciso de distanciamento daquilo que escrevo. O fascínio inaugural pelo nascimento de um texto leva-nos à miopia. Perdemos a capacidade de avaliar. Escolho então afastar-me. No caso do Blanca Mares, já tinha definido que aquela seria a história. Mas havia um desacerto em relação ao texto. Não gostava da ordem dada aos fatos, menos ainda do ritmo que eu havia determinado. Então precisei repensar tudo. Ou seja, o texto e eu não nos entendíamos. Decidi, portanto, que ele ficasse guardado por longos dez anos. Uma particularidade: o livro concorreria ao Prêmio Cepe em 2017, mas perdi o prazo de inscrição e só veio a concorrer em 2024.
Todos os personagens apresentados no livro, assim como Tussa e Bonininho Oliveira, são reais?
Nem todos são reais. Houve um ponto de confluência. Ali, a realidade e a ficção misturam-se. A história era não mais do que uma pequena história. Resumia-se à vida de um velho aloucado que escreve cartas para a esposa morta, enviando-as através de uma ferrovia também morta. Ainda que eu desejasse o contrário, resolvi tornar tudo um pouco mais leve. E assim, dei por vencida a ideia de cenário único, de personagem único — que, aliás, era o caminho inicial.
Através das páginas do seu livro é possível conhecer um pouco a região que delimita Minas Gerais e Bahia. O livro também é uma declaração de amor?
O livro pretendeu, por mais atrevido que isso pareça, ser uma fotografia daquilo que não se pode fotografar: as sensações. Também pretendi que as coisas e os fatos fossem lentos, como lenta era a cidade nos idos de 1966. Quis, a exemplo do personagem, que o tempo não passasse e que o lugar não evoluísse. O desejo era que tudo permanecesse exatamente como nos anos em que a maria-fumaça deslizava sobre os trilhos que ligavam Araçuaí (MG) a Ponta de Areia (BA). Aprendi com meu livro que o amor, nas muitas das vezes adoecido, pode até pretender que o amado não evolua. Confesso que ainda não sei se isso é bom ou ruim.
Ao mesmo tempo o livro traz uma carga de crítica social e política, sobretudo em relação ao sucateamento da ferrovia. Na sua opinião, de que forma esse processo de abandono de um modal tão significativo ainda é sentido pelas pessoas da região?
Não testemunhei a ferrovia. Mas tantos registros da sua existência levam-me à estranha saudade que sinto dela. Quanto à questão socioeconômica, o desmantelamento da ferrovia impôs aos povos da região um irreparável prejuízo. Houve uma desaceleração das nossas possibilidades e, assim, afastamo-nos todos do destino que poderia ser o grande destino de todos nós.
Que paralelos podemos fazer entre os dois personagens marcantes na narrativa: Tussa e a ferrovia/maria-fumaça?
Nós, moradores da região, sustentamos a ideia de que, embora tenha se perdido, a ferrovia foi o grande patrimônio de todo um povo. Tussa, todavia, representa o esforço de ser a síntese daquilo que sentíamos pela existência dos trilhos e o que eles deixaram como legado. Há uma clara confusão quando idealizamos Tussa pensando nos trilhos que ele não sabia mortos. Talvez ele imaginasse a maria-fumaça (o seu amor) fazendo o caminho de volta; talvez apenas imaginasse a esposa (o seu outro amor) retornando de um lugar a que nunca fora.
Serviço:
Preço do livro: R$ 50,00 (impresso)
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Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



