
Em Os Interiores (Editora Patuá), João Matias imagina um Brasil marcado por colapso ambiental, militarização e desumanização
Em Os Interiores (Editora Patuá, 164 págs.), romance de estreia de João Matias, a distopia surge como ferramenta narrativa para refletir sobre o Brasil recente. Ambientado nos interiores do Nordeste, o livro constrói um país em ruínas, atravessado por crise ambiental, colapso político, militarização da sociedade e gestão violenta da pobreza.
Segundo o autor, a obra nasceu da experiência direta com um período de exceção vivido pelo país. “Quando idealizei Os Interiores fui instigado pelos anos de descaso, violência, ódio, injustiça social e climática pelo qual o Brasil passou entre 2018 e 2022”, afirma João Matias. A partir desse contexto, o romance se desenvolve como uma distopia regional e política.
O livro imagina um Brasil em que golpes de Estado se consolidam, a presença militar se intensifica e populações inteiras passam a ser tratadas como ameaça. Entre os elementos centrais da narrativa estão os retirantes expulsos pela degradação ambiental e pela seca. “Pode-se dizer que estes retirantes são refugiados climáticos, expressão que só veio a ter sentido na contemporaneidade”, explica o autor. No romance, a resposta do poder público a essa crise é a construção de campos de concentração, inspirados nos chamados “currais do governo”, existentes no Brasil do início do século XX.

A distopia também se manifesta na paisagem, marcada por transformações e ameaças constantes. O surgimento e a proliferação de voçorocas (grandes crateras abertas no solo pela erosão) funcionam como imagem concreta de um território em colapso. Para João Matias, esses elementos ambientais estão diretamente ligados à política. “Tudo isso está relacionado ao descaso ambiental e político”, afirma.
A narrativa articula ainda o ódio e a desumanização como práticas sociais normalizadas. “Os moradores das cidades metralham os retirantes”, descreve o autor ao sintetizar o clima de violência extrema que atravessa o livro. Nesse cenário distópico, a exclusão social se transforma em política de contenção e extermínio.
A estrutura do romance reforça a sensação de deslocamento e instabilidade. “Pensei numa estrutura que fizesse o leitor estar no banco de trás de um carro, observando a geografia da terra, os retirantes, os diálogos, as cenas do livro”, explica João Matias. A paisagem assume papel ativo na construção desse mundo em colapso. “Gosto de narrativas em que a paisagem tenha sua própria eloquência. Que os personagens dialoguem com o espaço e sejam em parte sujeito e objeto dele.”
Na quarta capa, o escritor e crítico literário Sérgio Tavares destaca o caráter distópico e político da obra:
“Os Interiores se estrutura, em grande parte, numa espécie de road book, em que cenas brutais e diálogos afiados se cruzam num fluxo de tensão que flerta com o novo horror, ao mesmo tempo que traz em suas elipses referências aos anseios reacionários de um Brasil recente.”
Para João Matias, o romance também funciona como um gesto de enfrentamento. “É a minha maneira de acertar as contas com o governo militarista outrora vivido nos idos de 2018”, afirma. Ao imaginar um Brasil levado ao limite de suas contradições, Os Interiores constrói uma distopia que dialoga diretamente com a história, a política e o presente do país.
Sobre o autor
Nascido em Juazeiro do Norte (CE) e residente no Crato (CE), João Matias também viveu em outras cidades, entre elas João Pessoa (PB), onde morou por 15 anos. Jornalista e cientista social, é professor da Universidade Regional do Cariri, atuando na disciplina de Teoria e Pesquisa em Sociologia e no Programa de Pós-Graduação em Letras.
Antes do romance, construiu trajetória sólida como contista, com os livros O lugar dos dissidentes (Editora Escaleras, 2019), Os santos do chão bravo (Caos e Letras, 2022) e As madrinhas da rua do sol (Caos e Letras, 2023). Também é roteirista de cinema e quadrinhos, coautor do argumento do longa de horror brasileiro O Nó do Diabo (2017), premiado em festivais nacionais e internacionais, além de apresentador do podcast sobre literatura Lavadeiras do São Francisco.
FICHA TÉCNICA
Livro: Os Interiores
Autor: João Matias
Gênero: romance/ficção
ISBN: 978-65-281-0142-9
Editora: Patuá
Páginas: 164
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Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com



