
VALTER CORREA: Arquiteto, urbanista e design. Atuou em todas essas áreas, sendo que no terceiro item desenvolveu projetos náuticos. Com vivências também na indústria aeronáutica desde à adolescência, além de apaixonado pelo mar, enveredou no universo literário, trazendo aos leitores as suas expertises nestas áreas.
Criou e escreveu o conteúdo do site “Playboat”, foi redator chefe do site “Nauticupom” com inúmeras reportagens sobre barcos, navegantes, aventureiros, fatos e curiosidades marinhas. Escreveu também “O GLAUCO AZUL”, obra que vem conquistando leitores entusiasmados no Brasil e na Europa!
Revista Conexão Literatura
Entrevista: Valter Correa
Revista Conexão Literatura: Tereza Acabou no Paraíso, apresenta a protagonista como um mosaico de experiências femininas. Como nasceu essa personagem e em que medida ela dialoga com histórias reais que você observou ao longo da vida?

Valter Correa: Essa personagem nasceu da minha admiração por esses fantásticos seres, que são as mulheres. O diálogo ocorre a partir de uma abordagem crua e sem concessões.
Revista Conexão Literatura: O romance aborda sistemas patriarcais, ambientes misóginos e violências contra a mulher sem recorrer ao panfleto. Como foi o equilíbrio entre denúncia social e construção literária?
Valter Correa: Não é fácil, porém talvez, não seja uma “denúncia” mas uma triste constatação. Quanto à construção literária, me inspirei no Chico Buarque e Francis Hime e no poema português oitocentista “A Doida de Albano”.
Revista Conexão Literatura: A relação simbiótica entre Tereza e o filho é um dos eixos mais perturbadores da narrativa. O que essa relação representa dentro da crítica humana e social proposta pelo livro?
Valter Correa: Essa “relação” é de fato perturbadora e impactante. Na realidade o filho nos representa, nós homens, com as nossas indiferenças, nossas incompreensões, nossos mutismos, diante dos desafios e aflições das mulheres.
Revista Conexão Literatura: A estrutura fragmentada, feita de reminiscências e fluxos de consciência, reflete o estado emocional da personagem. Essa escolha surgiu desde o início do projeto ou foi se impondo ao longo da escrita?
Valter Correa: Essa reflexão do estado emocional da personagem e o fato dela contar a sua própria história, fez parte desde o início, quando comecei a “desenhar” a estrutura narrativa.
Revista Conexão Literatura: O livro trata de temas sensíveis como eutanásia, suicídio, abuso sexual e abandono com um olhar discreto e sem moralizações. Qual foi o maior desafio ao lidar literariamente com esses assuntos?
Valter Correa: São assuntos complexos e densos, até mesmo difíceis de pensá-los e escrevê-los, mas definitivamente a vida não é um “conto de fadas”.
Revista Conexão Literatura: Embora a obra dialogue fortemente com a experiência feminina, você afirma que não se trata de um libelo feminista, mas de uma constatação humana. Como espera que leitores e leitoras se reconheçam nessa narrativa?
Valter Correa: É exatamente isso. Uma constatação humana, uma ficção sobre a vida de todos nós, sob (a tentativa) de um olhar feminino.
Revista Conexão Literatura: A maternidade aparece como amor, obrigação e prisão. Que reflexões você buscou provocar sobre os limites éticos do cuidado e do amor incondicional?
Valter Correa: Me dei conta como as mulheres lidam sozinhas, por mais acompanhadas que estejam, com o fato da maternidade. Nós homens não temos essa dimensão, nem mesmo os médicos obstetras. É um momento exclusivo das mulheres.
Revista Conexão Literatura: Tereza é descrita como bela, talentosa e inteligente, mas ainda assim vítima de um destino cruel. O que essa contradição revela sobre a sociedade que cerca a personagem?
Valter Correa: O que emerge nesta contradição, é o modelo de sociedade que escolhemos. Quase quatrocentos anos de escravidão produziu profundas feridas que ainda não cicatrizaram. Não discriminamos somente as pretas e pobres, mas todas.
Revista Conexão Literatura: O desfecho trágico não surge como inevitável, mas como consequência de múltiplas camadas sociais e afetivas. Para você, onde reside a maior responsabilidade por esse destino?
Valter Correa: No modelo da nossa sociedade.
Revista Conexão Literatura: Sua formação como arquiteto, urbanista e designer influencia a maneira como você constrói narrativas, personagens e estruturas literárias?
Valter Correa: Sem dúvidas. As “arquiteturas” narrativas que crio são únicas, como um prédio ou a vida de cada um(a) de nós. Isto é, vejo os livros como elementos únicos, cada qual com a sua personalidade e o seu universo.
Revista Conexão Literatura: Após a experiência com O Glauco Azul e agora com Tereza Acabou no Paraíso, que caminhos você pretende explorar na literatura e o que o leitor pode esperar dos seus próximos projetos?
Valter Correa: Gosto de contar histórias ficcionais baseadas na vida corrente, mas que permitem reflexões. Tenho predileção pelo impacto, este sempre chama à atenção, a minha literatura não é complacente, como entendo que a arte deve ser.
Aguardem lançamento em breve, da obra: “Tereza Acabou no Paraíso.”
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com




Tive o privilégio de conhecer essa história de perto, ou melhor, alguns nuances, pelo próprio autor. Só tenho elogios a obra, não vejo a hora de me deliciar com a leitura de “Tereza acabou no paraíso”.