Valéria Aveiro – Foto divulgação

Fale-nos sobre você.

Sou Valéria Aveiro, nasci e moro em Ribeirão Pires, cidade da região metropolitana de São Paulo. Tenho dois filhos, parceiros de jornada, além de meu marido e meus irmãos. Meus amados pais, tenho, agora, apenas morando em mim. Artista por essência, queria ser atriz desde sempre. Tornei-me professora das letras, português e inglês, e fiz da sala de aula o meu palco, dos alunos o meu motivo. Posteriormente, no período do Mestrado em Letras, feito na Mackenzie, passei a ser coordenadora pedagógica e me dedicar à formação de professores, por sete anos na Diretoria de Ensino de Mauá e, depois, em coordenação pedagógica nas escolas estaduais, rede na qual me efetivei em 1998. Já trabalhei em escolas particulares e universidades, mas o meu cargo na rede estadual sempre me prendeu pelos meus ideais de trabalhar a leitura e escrita com crianças e adolescentes da rede pública. Atuo, no momento, na coordenação pedagógica do Ensino Médio da Escola Profª Ruth Neves Sant’Anna e participo do grupo de pesquisa ALLE/AULA – alfabetização e leitura da Unicamp, onde fiz o Doutorado em Educação, dedicado à leitura do texto literário. No ano seguinte ao doutorado, cursei psicopedagogia na São Camilo. Abri recentemente o Espaço Aveiro, em sociedade com minha irmã Virginia, com a proposta de atendimentos às famílias, com orientação em psicopedagogia e educação parental, além das parcerias com psicólogos e outros profissionais que agregam para um olhar multidisciplinar. Voltando ao meu trabalho como escritora, faço parte do quarteto Manda@Letra, que é Ponto de Cultura de Ribeirão Pires e sou integrante do Conselho de Cultura do município, na cadeira das artes editoriais.

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Fale-nos sobre seus livros. O que a motiva a escrevê-los?

A escrita é para mim algo que vem de uma necessidade de me expressar, até porque, sendo mulher, quero deixar as minhas histórias para uma sociedade em transição, originalmente registrada pelos homens, para os interesses dos homens. Escrever é algo quase vital, uma forma de dar vazão à minha criatividade, que é marcante na minha personalidade. Eu diria que sou predominantemente poeta, pelo menos até o momento. Meus dois livros solo são de poemas. Eles são uma extensão das minhas emoções, tomando forma, em diálogo com o mundo, portanto são um processo de autodescoberta. Mas também escrevo histórias e, quando começo a desenvolver, o enredo toma conta de mim e estabeleço conexões com vivências e leituras, com outros autores que amo, aí flui. Lembro que Cecília Meireles definiu muito bem o porquê de escrever em seus versos “Eu canto porque o instante existe / e minha vida está completa / não sou alegre nem sou triste sou poeta.” Tenho tentado pensar na vida como um instante completo em que também não precisamos de quase nada. Apenas de um espaço para ser. A escrita é, ainda, um desafio intelectual, também quando se trata de produções acadêmicas, que é outro gênero que gosto de me dedicar, pelo desafio de contribuir com a ciência e com a sociedade de uma maneira técnica, além da literária.

Fale-nos sobre o Manda@Letra e o clube de leitura.

O Manda@Letra é fruto de um convite que fiz aos meus colegas professores, em 2020, na época da pandemia, através do grupo Língua e Cultura que tenho no Facebook. Perguntei quem gostaria de escrever um livro comigo. Surgiu, então, o quarteto, formado por mim, Marcos Moreira, Márcia Plana e Valdemir Carmo. O Valdemir, além de professor e escritor, também é jornalista e meu marido. A princípio, nos reuníamos online, às sextas-feiras, para partilhar as histórias escritas durante a semana. Dessa experiência, surgiu o livro “Surtos da Quarentena”, com 40 histórias e 40 ilustrações feitas por 40 artistas diferentes, da região e do mundo, com diversos estilos. Essa parceria foi se consolidando e, após o retorno híbrido às escolas, decidimos fazer histórias curtas para postar nas redes sociais. Dessa decisão, surgiram as pitadas do cotidiano, minicontos, escritos com 280 caracteres, à moda do antigo twitter. Mais tarde, com nossos projetos, conseguimos fomento, através das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, para publicar nossos livros, além de nos tornarmos Ponto de Cultura da cidade de Ribeirão Pires pela abrangência de nossa ação cultural no município. Pensando em fortalecer ações de incentivo ao ler e escrever, criamos o Clube de leitura Manda@Letra. Esse clube tem objetivo de realizar uma leitura por mês, com culminância em um bate-papo que acontece no último sábado do mês no estúdio da rádio Pérola da Serra, com projeção também pelo YouTube e Instagram. O nosso clube de leitura organiza a lista do semestre alternando e, portanto, integrando as obras dos escritores da região do ABCDMRR aos livros consagrados, sejam eles clássicos ou contemporâneos. Neste primeiro momento, tivemos rodas de conversa muito interessantes sobre, por exemplo, “Tudo é rio” de Carla Madeira; “Antes do baile verde”, de Lygia Fagundes Telles; Depois da natureza, não existe lirismo”, Vanessa Molnar, que é escritora de Santo André, “Histórias assombradas de meu pai” de Valdemir Carmo e o meu lançamento “Corpo in-sano”. Só para terem uma ideia da proposta. Pretendemos também, como próximas ações, organizar um box de livros com o título “Confluências” e realizar coletâneas com os autores da região.

Como analisa a questão da leitura no país? 

Formar leitores proficientes no Brasil é um grande desafio. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, que é uma fonte reconhecida de dados na área da leitura, registrou em sua última edição, em 2024, que, pela primeira vez, o número de não leitores superou o de leitores, com 53% dos brasileiros não lendo nenhum livro nos últimos três meses antes da pesquisa. Isso é assustador, mas é uma tendência bem óbvia quando se observa a falta de iniciativas consistentes que garantam a democratização do acesso ao livro e à leitura, as dificuldades na educação e o uso excessivo das telas. Quando comecei a fazer minha pesquisa no doutorado, parti da hipótese de que o uso de aplicativos e livros digitais pudesse ser um aliado para incentivar o interesse e o entendimento literário, especialmente entre os mais jovens, porém, conforme revelo em minha tese, concluída em 2021, a leitura do livro físico é muito mais eficiente para a compreensão e o desenvolvimento do gosto pela leitura. Nos anos que se seguiram, várias iniciativas pelo mundo vieram nesse sentido, como, por exemplo, na Suécia, um dos países que buscavam implementar a educação 100% digital, desde a década de 1990, mas voltou atrás e está investindo na reintrodução de livros físicos nas escolas. O problema da leitura no Brasil passa por uma questão de falta de vontade política de investir em iniciativas culturais e naquilo que a própria ciência revela. Também pela falta de estrutura e desigualdade social. A escola é fundamental para reverter tudo isso, só que os caminhos adotados não têm sido favoráveis. Aqui em São Paulo, por exemplo, a plataformização, os rankings e corrida pelos índices têm sido um caminho catastrófico. Precisamos olhar para o que realmente importa e investir na receita básica da educação que é um professor bem formado e motivado, bons livros e estrutura para apoiar os estudantes com maiores dificuldades ou necessidades especiais.

Que dica poderia fornecer a um aspirante a escritor?

Seja sempre um bom leitor, não só dos livros, mas das situações, dos lugares, das pessoas. Esse olhar subjetivo e autêntico, acredito que seja o que faz o escritor. Dessa forma, você vai encontrar suas motivações para escrever, também seu estilo será construído. Especialmente às mulheres eu digo: escrevam. Precisamos repor os livros que foram queimados, as linhas não escritas pelos anos em que estivemos fora da educação formal, escondidas, apoiando os homens e ainda acreditando que era elogio ouvir que “Por trás de um grande homem sempre existe uma grande mulher”. Esse tempo passou. Agora podemos estar ao lado ou à frente dos homens e essa história precisa ser escrita, assim como muitas outras que dizem de humanidade que possam tocar e, quem sabe, transformar pessoas. Tendo essa determinação em escrever, o restante acontecerá, existem diversas editoras que podem cuidar de lapidar seu trabalho. Nós mesmos do Manda@Letra estamos começando nosso selo editorial, realizando revisão, diagramação e publicação do livro de quem tiver interesse.

Uma pergunta que não fizemos e que gostaria de responder?

Talvez seja interessante ainda falar sobre meu estilo de escrita, minhas influências…
Eu costumo escrever com característica mais existencialista, às vezes procuro fazer um exercício e ter textos mais críticos, engajados. Mas a pegada da subjetividade, o ser e estar no mundo, tudo é bem forte, tanto nos poemas, quanto na prosa. Clarice Lispector explora temas como a subjetividade, angústia, vazio, identidade e essa questão do fluxo de consciência e isso é muito caro a mim. Outras fortes influências são Drummond, Cecília, Pessoa. Gosto muito também de Oscar Wilde e Marina Colasanti, autores que trabalhei em meu doutorado. “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, disse Wilde em uma forte crítica à sociedade vitoriana de seu tempo, nada comparado ao que ele estaria vendo hoje… “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.”, nos trouxe Colasanti… É isso, gosto de refletir sobre a condição humana em toda sua complexidade e a condição da mulher em suas singularidades ganha força em muitos de meus textos.
Agradeço à revista Conexão literatura e aos caríssimos Cida e Sérgio Simka pela oportunidade!

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Uma resposta

  1. Gostei da entrevista que permitiu que a escritora Valéria Aveiro se apresentasse e nos mostrasse um pouco da sua caminhada em direção à se tornar escritora e autora de livros. Carreira não muito bem reconhecida e remunerada no Brasil. Sua persistência e amor às letras me encanta.
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