Aline Cristina Garcia nasceu no inverno de 1987, em Mirandópolis, interior de São Paulo, e desde cedo aprendeu a enxergar poesia nas miudezas do cotidiano. Hoje vive em Araçatuba, onde cultiva ideias, afetos e narrativas que refletem sua trajetória como professora, pesquisadora e escritora. Mestre em Estudos Literários pela UFMS e premiada em concursos literários de poesia e conto, Aline estreia na literatura com Memórias – Uma versão do avesso (2025).

O livro reúne contos, poemas, cartas e fragmentos de diário que se entrelaçam em uma tessitura íntima e ao mesmo tempo universal. Entre confissões surgidas em sessões de terapia, relatos do chão da sala de aula, despedidas marcadas pela dor da perda e cartas nunca enviadas, a autora dá voz a experiências humanas profundas e muitas vezes silenciadas. Com escrita densa, poética e visceral, Aline Garcia mostra que escrever é também um modo de “reexistir”.

ENTREVISTA:

Revista Conexão Literatura: Memórias – Uma versão do avesso é a sua obra de estreia. Como nasceu a ideia desse livro e em que momento você sentiu que era hora de transformá-lo em uma publicação?

Aline Garcia: Sempre quis escrever um livro — um sonho da Aline-criança que continuou a acompanhar a adulta. Mas eu não tinha clareza sobre o tema ou a forma mais adequada para traduzir meu olhar sobre o mundo através da linguagem. Sempre fui contadora de histórias e, diante da dúvida, escolhi simplesmente escrever: sobre tudo e de muitas formas. Com o tempo, percebi que meus textos refletem o estado da minha alma e, por isso, seria impossível engessá-los em um único estilo de escrita.

Sou professora de Redação e, em sala de aula, desenvolvi um projeto de escrita terapêutica. Adaptei o método Bullet Journal, o Caderno de Campo da antropologia e misturei scrapbook, diário e colagens para incentivar os alunos a escreverem sobre suas dores, amores, questionamentos e desabafos. Minha intenção era que a escrita se tornasse parte do cotidiano deles, menos dolorosa e mais necessária.

Em casa, refletindo sobre essas experiências, percebi que também poderia transformar as páginas dos meus próprios cadernos e diários em um livro. Ao revisitar meus textos, ri, chorei e comecei a transcrevê-los — sim, gosto de escrever em cadernos pequenos. Logo percebi que os temas se repetiam, se organizavam em blocos e, sem planejar, eu já tinha em mãos um projeto pronto.

Foi nesse momento que surgiu um edital de fomento à publicação. Resolvi inscrever as vinte primeiras páginas digitadas. Estava vivendo uma fase de renascimento e queria ressignificar minha história, então pensei: “é agora”. E deu certo.

O título nasceu de uma atividade de escrita criativa: o desafio era imaginar uma pessoa e narrar o oposto de sua personalidade. Daquele exercício surgiu Uma versão do avesso, um texto que depois desenvolvi e que me divertiu muito no processo. Não é o coração do livro, mas talvez os pulmões — o que lhe dá fôlego.

Revista Conexão Literatura: Sua obra traz uma miscelânea de gêneros — contos, poemas, cartas e trechos de diário. Por que optou por esse formato híbrido? O que essa mistura acrescenta à experiência do(a) leitor(a)?

Aline Garcia: Escolhi o formato híbrido porque cada tipologia reflete um estado de alma e uma forma singular de narrar a vida. Quis mostrar ao leitor que há muitas maneiras de falar da mesma experiência e que cada uma delas carrega uma intenção diferente. Todos os textos se conectam, mas não têm o mesmo tom.

Na primeira parte, Uma sessão de terapia, usei poemas fragmentados, como peças de um quebra-cabeça ou de um labirinto. O eu-lírico está em busca de identidade e pertencimento, num processo cheio de dúvidas e silêncios. Ali, a prosa fluída não caberia. A mistura de gêneros, então, acrescenta ao leitor não só diversidade, mas também a sensação de caminhar por diferentes estados da linguagem — ora respiro, ora memória, ora lágrima — como quem atravessa a complexidade da própria vida.

Revista Conexão Literatura: No livro, há textos que transitam entre o íntimo e o coletivo, o pessoal e o ficcional. Como foi o processo de equilibrar a autoficção e a criação literária?

Aline Garcia: O equilíbrio entre autoficção e criação literária nasceu do próprio questionamento: o que é arte? o que é literatura? Foi na edição que comecei a brincar com essas fronteiras. Alguns textos são claramente ficcionais, frutos de exercícios de escrita criativa; outros se entrelaçam às minhas vivências, mas também às histórias de pessoas com quem convivi e ao repertório de mundo que me inspira — filmes, notícias, podcasts.

Sou, antes de tudo, uma contadora de histórias, mas também uma ouvinte atenta e uma catadora de sutilezas. Esse olhar, entre o íntimo e o coletivo, me permitiu costurar o pessoal com o ficcional, dando ao livro o tom híbrido que o caracteriza.

Revista Conexão Literatura: Um dos capítulos aborda o diagnóstico de câncer e outros momentos de dor e despedida. Como foi revisitar essas experiências tão intensas por meio da escrita?

Aline Garcia: Fui — e ainda estou sendo — movida por um choro silencioso. A escrita me colocou diante dessas experiências de dor e despedida, e confesso que sigo no processo de elaboração. Revisitar esses momentos foi, ao mesmo tempo, doloroso e necessário: uma forma de transformar a memória em palavra e encontrar algum respiro dentro da cicatriz.

Revista Conexão Literatura: Também há trechos ligados ao cotidiano escolar e ao universo da educação. Como sua experiência como professora influenciou a construção dessas narrativas?

Aline Garcia: Eu escrevo junto com meus alunos — a escrita é a nossa conexão. Hoje, sinto que me tornei a professora que gostaria de ter tido, e isso me emociona. Fico feliz em ver a entrega, os resultados, a evolução acontecendo de mansinho, quase imperceptível, mas constante. É um verdadeiro delírio intelectual, desses que dão sentido ao ofício de ensinar.

Revista Conexão Literatura: A literatura, para você, é uma forma de “reexistir”. Poderia nos explicar melhor o que significa esse conceito em sua escrita?

Aline Garcia: Todos os dias somos impactados por notícias ruins. Basta um clique em qualquer mídia para sermos atingidos por novas partituras de dor. Não dá para ignorá-las, mas também não podemos viver apenas sob essa lente. Para mim, escrever e ler são verbos que fermentam meus sonhos e me permitem olhar a vida com mais otimismo — um lampejo do sobreviver.

Quando leio, desloco-me para outras dimensões, encontro linguagens que me confortam e me desestabilizam ao mesmo tempo. É estranho, eu sei, mas são justamente essas contradições que nos seduzem. Na literatura, descubro formas de reexistir: transformar a dor em palavra, o caos em sentido, e o desconforto em possibilidade de vida.

Revista Conexão Literatura: Você já conquistou importantes reconhecimentos literários em concursos nacionais. Qual a importância desses prêmios para sua trajetória como escritora?

Aline Garcia: Validação. Escrevo desde muito nova, mas sempre duvidei da força e da potência das minhas palavras. Por isso, receber o reconhecimento de bancas compostas por profissionais e especialistas em literatura foi algo imenso — difícil até de descrever. Essas conquistas foram muito significativas para minha trajetória, talvez tenham sido o impulso que me deu coragem para digitar meus textos e colocar minha voz no mundo.

Revista Conexão Literatura: Além da literatura, você também tem um forte vínculo com a pesquisa acadêmica. De que maneira sua formação em Estudos Literários dialoga com a escrita criativa de Memórias – Uma versão do avesso?

Aline Garcia: Quando iniciei o mestrado em 2013, estudar memórias ainda era visto com certo preconceito, considerada uma literatura menor. Com o tempo, esse cenário mudou: clubes de leitura ganharam força, diários apareceram até como leituras obrigatórias no vestibular e, na pandemia, as memórias se tornaram fundamentais para compreender aquele período.

Nesse movimento, a autoficção também se consolidou e me encorajou a editar meus próprios textos. Além disso, escritoras como Rosa Montero, Alba de Céspedes e Cecilia Pavón me influenciaram muito nesse diálogo entre experiência e criação literária. Foi aí que percebi: pesquisa e escrita não se opõem, elas se alimentam — uma dá fôlego à outra.

Revista Conexão Literatura: Para os leitores que ficaram curiosos com a sua obra, como podem adquirir Memórias – Uma versão do avesso e acompanhar de perto o seu trabalho como autora?

Aline Garcia: Convido os leitores a caminharem comigo pelas palavras também nas redes: estou no Instagram, em @profa.escritora.alinegarcia, onde compartilho bastidores, processos e afetos. E quem desejar levar o livro para casa pode encontrá-lo no site alinegarcia.netlify.app. Que cada página seja um reencontro — comigo, com vocês e com as muitas versões do avesso que nos habitam.

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