
Vanessa Pavani Mello e Diogo Mello são pesquisadores, palestrantes e referências no estudo da superdotação sob a perspectiva da neurodivergência.
Vanessa Pavani Mello é superdotada, mãe de superdotado e advogada com atuação destacada em Direito Educacional de superdotados e duplamente excepcionais. Pós-graduada em Neurociências, Psicopedagogia Institucional e Clínica com Ênfase na Inclusão, Neuropsicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva, é também formada em Engajamento Familiar pela Universidade de Harvard (EUA). Atualmente, é graduanda em Pedagogia, pós-graduanda em Educação Especial com Ênfase em Altas Habilidades/Superdotação e mestranda em Neurociências pela Universidade de Orlando (EUA). Possui diversos artigos científicos publicados, unindo rigor jurídico e sensibilidade humana para traduzir a lei em proteção efetiva à singularidade de cada estudante.
Diogo Mello é superdotado, pai de superdotado, psicanalista e membro da Mensa Brasil, onde atua como Coordenador Regional em Alagoas e Coordenador Regional dos Jovens Brilhantes. Concluiu a formação em Psicologia do Aprendizado pela Università di Napoli Federico II (Itália) e atualmente é mestrando em Neurociências pela Universidade de Orlando (EUA), além de cursar Liderança em Aprendizagem pela Universidade de Harvard (EUA). Pesquisador da superdotação e da dupla excepcionalidade, dedica-se à análise de práticas terapêuticas utilizadas em diferentes partes do mundo, buscando compreender quais métodos realmente contribuem para o desenvolvimento da inteligência emocional, da socialização, da autorregulação e do aperfeiçoamento das aptidões específicas, especialmente naqueles que não se adaptam facilmente às abordagens tradicionais.
ENTREVISTA:
Revista Conexão Literatura: Como surgiu a ideia de escrever Almas de Ouro: Os Superdotados e qual foi a principal motivação para transformar essa vivência em livro?

Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: A ideia de escrever Almas de Ouro: os superdotados nasceu da nossa própria vivência familiar e profissional. Como superdotados e pais de um filho superdotado, fomos confrontados não apenas com as descobertas sobre a intensidade desse modo de existir, mas também com as barreiras invisíveis que a escola e a sociedade ainda impõem. Percebemos, ao longo do caminho, que as altas habilidades/superdotação são constantemente reduzidas a desempenho escolar ou a rótulos estereotipados, quando na verdade se trata de uma condição humana complexa, que envolve vulnerabilidades profundas e potências únicas.
A principal motivação para transformar essa vivência em livro foi ajudar outros pais a terem voz. Queríamos oferecer um conteúdo preparado com muito cuidado e fundamentado em referências sólidas, para que famílias não se deparem sozinhas com a tentativa de silenciamento daqueles que, por não compreenderem, tentam calar o conhecimento.
A segunda motivação foi apoiar profissionais da educação e da psicologia, oferecendo um direcionamento e uma mudança de perspectiva. Nosso objetivo foi mostrar que as pesquisas mais recentes não são talentistas, mas sim humanistas, e que reconhecem a superdotação como uma forma legítima de neurodivergência, que precisa ser acolhida e respeitada em toda a sua complexidade.
Revista Conexão Literatura: O livro une ciência, experiência pessoal e sensibilidade. Como foi o processo de equilibrar essas três dimensões na escrita?
Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: Esse livro foi como um filho: gerado, evoluído, concebido e amado em cada etapa. Não nasceu pronto; foi se transformando junto conosco. O resultado é uma obra que une rigor acadêmico, emoção e humanidade, porque só assim seria capaz de traduzir o que significa realmente viver e compreender a superdotação.
Nossa maior preocupação sempre foi reunir o conteúdo essencial, aquilo que pais, profissionais e a própria sociedade precisam conhecer sobre a superdotação. No decorrer da escrita, fomos percebendo as lacunas, e foi nesse momento que surgiu a necessidade de organizar e equilibrar o conteúdo dentro de uma sistemática. Dessa reflexão nasceu a estrutura atual do livro.
Aos poucos o livro foi adquirindo personalidade própria, talvez por tudo isso o resultado foi algo muito maior que o planejamento inicial.
Revista Conexão Literatura: Vocês são pesquisadores e também superdotados. De que forma essa vivência pessoal influenciou a abordagem do livro?
Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: A vivência pessoal mudou tudo. Ser superdotado não é algo que se compreenda só pelos livros ou pesquisas, é algo que pulsa todos os dias. Quando escrevemos, não estávamos apenas analisando conceitos, estávamos falando de nós mesmos, das nossas dores, das nossas intensidades e do nosso filho, que foi a grande inspiração.
Essa experiência trouxe verdade para cada página. Não queríamos um texto frio, mas um livro que pudesse tocar outros pais, outros profissionais e, principalmente, outras almas de ouro que vivem o mesmo silenciamento que nós já vivemos. Foi a partir dessa vivência que encontramos o tom: humano, direto e cheio de sentido.
Revista Conexão Literatura: Quais são os principais mitos ou estereótipos sobre superdotação que a obra busca desconstruir?
Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: Um dos maiores mitos é de que alunos com altas habilidades/superdotação são sempre “gênios” na escola, tiram notas altas e têm a vida acadêmica facilitada. Esse estereótipo é cruel porque invisibiliza justamente aqueles que, apesar de uma mente intensa e complexa, enfrentam dificuldades de socialização, de motivação ou até de aprendizagem quando não encontram espaço para serem eles mesmos.
Outro equívoco comum é pensar a superdotação como um privilégio ou como sinônimo de sucesso garantido. A realidade é que, sem reconhecimento e acolhimento, a superdotação pode se transformar em sofrimento silencioso.
O livro também desconstrói a visão de que basta identificar a criança para que tudo se resolva. Na prática, o reconhecimento precisa vir acompanhado de personalização no ambiente escolar, atendimento especializado, políticas públicas, atendimento socioemocional e, sobretudo, de uma mudança de olhar.
Nosso objetivo foi romper com esses rótulos estreitos e mostrar que a superdotação é, antes de tudo, uma forma legítima de existir, que pode florescer quando é respeitada ou definhar quando é negada.
Revista Conexão Literatura: A obra aborda áreas como neurociência, direito, psicanálise e educação. Como essa integração contribui para uma visão mais completa da superdotação?
Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: A superdotação não cabe em uma única lente. Quando olhamos apenas pela educação, corremos o risco de reduzi-la a desempenho escolar. Quando olhamos só pela psicologia, podemos restringir a discussão às emoções. Se ficarmos apenas no direito, ela vira questão normativa. E pela neurociência sozinha, perde-se a dimensão humana.
A escolha de integrar tudo isso foi justamente para mostrar que estamos diante de um fenômeno complexo, que atravessa o biológico, o subjetivo, o social e o legal. Essa abordagem amplia a compreensão e dá respaldo: permite que pais tenham argumentos, que profissionais encontrem caminhos e que a sociedade perceba a superdotação como uma questão de direitos humanos, e não de exceção ou privilégio.
Essa soma de perspectivas dá ao livro consistência e também acessibilidade, porque traduz conceitos densos em uma linguagem que dialoga com a vida real das famílias e das próprias pessoas superdotadas.
Revista Conexão Literatura: Que tipos de desafios os superdotados enfrentam no contexto escolar e social, e como o livro propõe soluções ou caminhos para enfrentá-los?
Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: Os superdotados enfrentam muitos desafios, e talvez o mais marcante seja a invisibilidade. Na escola, isso aparece quando sua diferença não é reconhecida ou é vista como problema: eles são acusados de indisciplina, desinteresse ou arrogância, quando na verdade estão entediados, desmotivados ou em sofrimento. No contexto social, a cobrança para que sejam “gênios” e “perfeitos” pesa tanto quanto a negação da sua singularidade.
O livro mostra que esse quadro não se resolve apenas com rótulos ou diagnósticos. Propomos caminhos que passam pela escuta ética, pela flexibilização pedagógica, pela aceleração escolar quando necessária e pelo suporte socioemocional. Também reforçamos que a legislação brasileira já assegura direitos a esse público, o que falta é que escolas e profissionais reconheçam e apliquem essas garantias.
Mais do que soluções prontas, o livro oferece uma mudança de perspectiva: sair da lógica de silenciamento e enxergar a superdotação como uma forma atípica e legítima de existir, de sentir e de aprender, que precisa ser acolhida para que haja o pleno desenvolvimento do ser humano.
Revista Conexão Literatura: Vanessa, sua atuação no Direito Educacional é bastante reconhecida. De que forma essa experiência profissional aparece na obra?
Vanessa Pavani Mello: Sou advogada há 20 anos e minha atuação no Direito Educacional nasceu da necessidade de garantir a inclusão dos alunos da Educação Especial, público historicamente invisibilizado e privado de condições adequadas para aprender e se desenvolver. Foi nesse cenário que encontrei propósito: transformar a lei escrita em realidade concreta, assegurando que direitos não ficassem apenas no papel.
Com o tempo, minha atuação se concentrou especialmente nos alunos superdotados e duplamente excepcionais, aqueles que, embora contemplados pela LDB, ainda sofrem com estigmas, negações e a falsa ideia de que não precisam de adaptações. Nesse campo, construí minha trajetória, unindo o rigor do Direito com a vivência pessoal de quem também é superdotada e mãe de superdotado.
Falo também a partir da minha própria vivência. Sei o que é crescer sem entender o próprio funcionamento, sentindo-se deslocada em tantos espaços. Descobrir a superdotação na vida adulta curou feridas, deu sentido a muitas experiências e me ofereceu o combustível para lutar, no Direito e na vida, para que outras crianças, adolescentes e famílias não passem pelo mesmo. Além da minha experiência profissional, trago ainda a vivência cotidiana em uma família de superdotados, meu marido, meu filho, e as trocas constantes com famílias e seguidores que me procuram, compartilham suas histórias e me permitem compreender ainda mais as necessidades reais desse público.
O senso de justiça aguçado, tão característico da superdotação, me levou ao Direito e continua guiando cada passo da minha atuação. Foi dessa soma, vida, profissão e militância, que nasceu a minha contribuição no livro Almas de Ouro: os Superdotados, uma obra que une prática e vivência para mostrar que inclusão real é aquela que respeita a singularidade de cada estudante.
Revista Conexão Literatura: Diogo, sua participação na Mensa Brasil trouxe quais insights para enriquecer o conteúdo do livro?
Diogo Mello: A Mensa me proporcionou uma convivência muito rica com pessoas superdotadas de diferentes idades, áreas de atuação e histórias de vida. Esse contato me deu a clareza de que não existe um “molde único” para a superdotação: cada pessoa manifesta seu potencial e suas vulnerabilidades de forma muito particular.
Essa diversidade de vivências foi fundamental para enriquecer o livro, porque reforçou nossa visão de que superdotação não pode ser reduzida a notas altas ou a estereótipos de genialidade. Além disso, a Mensa me permitiu acompanhar de perto jovens e adultos que enfrentam os mesmos desafios de pertencimento e reconhecimento, trazendo para a obra uma dimensão prática do que significa viver essa condição no cotidiano.
O livro, nesse sentido, carrega não apenas a perspectiva teórica e familiar, mas também a experiência de convivência em uma comunidade de superdotados que confirma, todos os dias, a urgência de enxergar a superdotação como uma forma legítima de neurodivergência.
Revista Conexão Literatura: Quantas pessoas no Brasil podem estar sendo impactadas pela invisibilidade da superdotação?
Segundo a OMS, entre 3% e 5% da população apresenta altas habilidades/superdotação. Isso significa que o Brasil teria, no mínimo, 6 milhões de pessoas superdotadas. Mas o último Educacenso registra pouco mais de 44 mil. Ou seja: temos uma diferença gigantesca, um abismo de invisibilidade.
E esse apagamento tem consequências sérias. Muitas dessas pessoas acabam recebendo diagnósticos equivocados de TEA, TDAH, transtorno bipolar ou outros quadros, porque quase não se fala em superdotação e ainda prevalece o mito de que superdotado é um ‘gênio de notas altas’. A realidade é outra: trata-se de um funcionamento cognitivo, emocional e sensorial singular, que inclusive precisa ser respeitado como parte da educação especial.
Portanto, a invisibilidade da superdotação não é apenas um problema estatístico. Ela significa milhões de crianças, adolescentes e adultos crescendo sem compreender quem são, sem apoio adequado, sem políticas públicas que os alcancem. É um tema que impacta não só famílias, mas toda a sociedade, porque quando a gente nega a esses indivíduos a oportunidade de se desenvolver, a gente perde junto com eles.
Revista Conexão Literatura: Quais são os próximos passos para o projeto – eventos, palestras, novas publicações – e como os leitores podem adquirir Almas de Ouro: Os Superdotados?
Diogo Mello e Vanessa Pavani Mello: Estamos organizando uma série de palestras, seminários e treinamentos que serão realizados em diferentes regiões do Brasil. A ideia é levar essa discussão para escolas, universidades e comunidades, ampliando o alcance da mensagem do livro. Ainda estamos em busca de empresas e pessoas que queiram levantar essa bandeira junto conosco, seja oferecendo apoio, colaboração ou ajudando a dar visibilidade a essa causa tão necessária.
O livro Almas de Ouro: os superdotados já pode ser adquirido pelo site Clube de Autores (ou pelo link https://clubedeautores.com.br/livro/almas-de-ouro-os-superdotados) e, em breve, também estará disponível na Amazon, Mercado Livre e Estante Virtual. É fácil encontrar: basta digitar o título completo no Google.
Será uma honra enorme partilhar esse conhecimento com todos vocês e seguir construindo, juntos, um movimento de reconhecimento e valorização da superdotação.
Paulista, escritor e ativista cultural, casado com a publicitária Elenir Alves e pai de dois meninos. Criador e Editor da Revista Conexão Literatura (https://www.revistaconexaoliteratura.com.br) e colunista da Revista Projeto AutoEstima (http://www.revistaprojetoautoestima.com.br). Chanceler na Academia Brasileira de Escritores (Abresc). Associado da CBL (Câmara Brasileira do Livro). Já foi Educador Social e também trabalhou por 18 anos no setor de Inclusão Digital na Cidade de S. Paulo, numa rede de solidariedade que desenvolve ações de promoção da vida em várias partes do país e do mundo, um trabalho desenvolvido para pessoas em situação de vulnerabilidade e exclusão social. Participou em mais de 100 livros, tendo contos publicados no Brasil, México, China, Portugal e França. Publicou ao lado de Pedro Bandeira no livro “Nouvelles du Brésil” (França), com xilogravuras de José Costa Leite. Organizador do livro “Possessão Alienígena” (Editora Devir) e “Time Out – Os Viajantes do Tempo” (Editora Estronho). Fã n° 1 de Edgar Allan Poe, adora pizza, séries televisivas e HQs. Autor dos romances “Jornal em São Camilo da Maré” e “O Clube de Leitura de Edgar Allan Poe”. Entre a organização de suas antologias, estão os títulos “O Legado de Edgar Allan Poe”, “Histórias Para Ler e Morrer de Medo”, “Contos e Poemas Assombrosos” e outras. Escreveu a introdução do livro “Bloody Mary – Lendas Inglesas” (Ed. Dark Books). Contato: ademirpascale@gmail.com




Ótima matéria, onde se expõe as nesse cidades de inclusão de superdotados, em ambientes escolares, familiares e sociais.