Entrevista – Revista Conexão Literatura

Hoje conversamos com Roberto Schima, autor paulistano, neto de japoneses, apaixonado por monstros, ficção e pelo mar. Schima é presença constante na Revista Conexão Literatura e já participou de impressionantes 392 antologias, sendo um dos nomes mais prolíficos do cenário literário brasileiro. Nesta entrevista, ele fala sobre sua mais nova obra, A Voz do Oceano, e relembra parte de sua trajetória marcada pela imaginação e pelo encanto da narrativa fantástica.

Revista Conexão Literatura: Roberto, para começar, conte aos nossos leitores como nasceu a ideia para A Voz do Oceano e o que o motivou a escrever essa história tão carregada de memórias e simbolismo.

Roberto Schima: Nos meus tempos de criança — Quantas vidas atrás? —, lá pelos anos 60, eu descia a serra com a família da capital paulista para o litoral a exemplo de milhares de outras. A ansiedade na véspera da viagem era de tirar o sono! Quem não se sentiu assim? Penso que o primeiro contato com a praia foi crucial: a areia fina, seca ou molhada, a água a lamber os pés, os filhotes de caranguejo, a imensidão do mar e do céu… Ah, se toda essa experiência deixar uma marca positiva na mente infantil, ela gostará do mar por toda a vida! A partir de então, pensar nele ou estar diante de uma foto ou vídeo do oceano sempre despertará uma sensação boa, um misto de saudade, bem-estar e liberdade. Na adolescência, entre outros documentários, assisti a série O Mundo Submarino de Jacques Cousteau. Sob a influência de histórias de piratas, imaginei quão incrível seria se, ao caminhar pela orla, de repente encontrasse um dobrão espanhol. Sonhava em, um dia, residir no litoral, todavia, preso ao cotidiano atribulado de São Paulo, julgava algo impossível. No entanto, aos trinta e três anos, a oportunidade surgiu, e tive o privilégio de vir para a praia. A Voz do Oceano traz a experiência de se caminhar junto à rebentação de manhã, sentir a brisa no rosto e o odor da maresia, fazer parte da vastidão, apanhar conchas e perceber que o mundo é muito maior, mais belo e significativo do que qualquer quatro paredes. A história é um eco tanto da criança que eu fui quanto do adulto que me tornei e do velho que hoje sou. Por fim, é mais do que relevante mencionar — e agradecer — que, não fosse pela amizade e generosidade de Ademir Pascale, o presente e-book não teria vindo à luz. Obrigado!

Revista Conexão Literatura: O personagem Ratinho é cativante e muito vívido. Há elementos autobiográficos nele ou em sua relação com o mar?

Roberto Schima: A personagem em si meio que foi inspirada na memória de uma antiga leitura do livro Capitães da Areia, de Jorge Amado. Mas as suas atitudes em relação ao mar têm tudo a ver comigo: o caminhar pela praia a observar os arredores — inclusive após uma tempestade — e xeretar os “tesouros” trazidos pela maré. Eu tive uma coleção de conchas marinhas quando garoto, mas, infelizmente, se perdeu. Porém, passei a catar muitas outras depois de velho para a inquietação da esposa diante de tantos “cacarecos”. Escutar o “mar” no interior de uma concha continua a ser uma experiência gratificante — a voz do oceano está lá —; e a visão das águas a se perder no horizonte, uma fonte inesgotável de fascínio. Quem já observou o nascer do Sol na praia ou o luar refletido no mar sabe do que estou falando…

Revista Conexão Literatura: O mar, na sua narrativa, é quase um personagem vivo. Como foi o processo de pesquisa ou de construção desse ambiente tão imersivo?

Roberto Schima: Já fiz leituras de livros e artigos de revistas abordando o mar e a vida marinha, também assisti a inúmeros documentários e filmes instigantes como O Segredo do Abismo, de James Cameron. Todavia, não cheguei a efetuar pesquisas específicas para a composição da história, ao menos não que eu me recorde. Muito da história baseou-se em minhas impressões juvenis e caminhadas pela orla em épocas mais recentes: a visão de gaivotas, quero-queros, siris, garças, corujas-buraqueiras, marias-farinhas, moluscos, o quebrar das ondas, os barcos pesqueiros, os detritos etc. Tudo faz parte do que vivi e, claro, também fruto da imaginação.

Revista Conexão Literatura: A sinopse menciona uma “criatura misteriosa e viva” encontrada após a tempestade. Sem dar spoilers, o que pode nos adiantar sobre a importância dessa descoberta na trama?

Roberto Schima: Talvez seja relevante mencionar que o esboço da história surgiu em meados de 2019, pouco depois de outro rascunho com um enredo na mesma linha. Esse último veio a se tornar o conto O Trovão e as Ondas, publicado na edição nº 49 da Conexão Literatura. A princípio, A Voz do Oceano seria bem diferente daquilo que se tornou. O protagonista apareceria predominantemente na fase adulta e ver-se-ia envolvido não só com uma criatura misteriosa, mas várias delas a atacar seu navio. Teria um tom mais aventuresco e menos nostálgico. Em dado momento, tudo mudou. Quanto à criatura em si, ela simboliza o desconhecido, o encanto e o temor que as profundezas frias e escuras do oceano evocam no ser humano, desde que se aventurou a singrar por suas águas. Também representa o próprio oceano e nossa atitude perante ele, mormente face à poluição e à pesca predatória. E, por fim, reflete aquele toque de mistério em face do que poderia surgir das ondas encrespadas após uma tempestade.

Revista Conexão Literatura: Você tem uma ligação muito forte com elementos fantásticos e criaturas desde a infância. Como essas influências, que vêm de gibis, filmes e seriados, se refletiram em A Voz do Oceano?

Roberto Schima: Como costumo dizer, eu sou da geração TV. Assisti National Kid a enfrentar os seres abissais, Moby Dick da Hanna-Barbera, Namor, o Príncipe Submarino, Ultraman e Ultraseven a derrotar os monstros gigantes que vinham do oceano para destruir Tóquio e, claro, havia o rabugento Almirante Nelson em Viagem ao Fundo do Mar. Ah, longe da TV e nos gibis da Disney, até o Pato Donald e sobrinhos viveram suas estrepolias sob às águas! De certa maneira, foi inevitável introduzir um elemento fantástico em A Voz do Oceano. Na realidade, conforme mencionei na resposta anterior, o enredo original basear-se-ia nisso, mas acabei atenuando na versão final em favor dos elementos nostálgicos.

Revista Conexão Literatura: Você já participou de nada menos que 392 antologias. Como vê a importância dessas coletâneas para um autor e para o fortalecimento da literatura nacional?

Roberto Schima: Descobri as antologias no começo da pandemia, o que foi providencial, pois pude, assim, ocupar o tempo durante o confinamento inscrevendo-me em tantas quanto fosse possível. Não só me manteve ocupado como deu a oportunidade para eu exercitar a escrita. A meu ver, a importância das antologias reside no fato de ser uma oportunidade maravilhosa para o autor amador ter o seu texto publicado em um livro (físico ou e-book), e o incentivo que isso representa. Sou de um tempo em que só havia duas maneiras de divulgar os trabalhos: através de fanzines de fundo de quintal (toscos e de circulação mínima) ou por meio de produção independente no qual o autor precisava dispor de uma pequena fortuna a fim de custear uma edição de 250 a 500 exemplares (e se virar depois para vendê-los). Hoje, a um custo mínimo, posso ter meus contos publicados em obras cujo acabamento nada fica a dever para aquelas lançadas através de grandes editoras. Posso também ter acesso àquilo que foi escrito por outros autores e, quem sabe, fomentar a troca de ideias. Os participantes das antologias vêm de todos os cantos do país. Então, em tese, pelo menos eles adquirirão os livros. Isso significa que, em diferentes regiões do Brasil há uma obra contendo a nossa história a qual poderá ser apreciada pelo leitor. Quão diferente é essa realidade daquela de há trinta anos…

Revista Conexão Literatura: Sua presença constante na Revista Conexão Literatura nos alegra imensamente. O que significa para você contribuir com publicações periódicas como esta?

Roberto Schima: Em 1987 lancei por produção independente o livro Pequenas Portas do Eu e, no ano seguinte, tornei-me membro do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), em cujo fanzine, Somnium, passei a colaborar com contos e, principalmente, desenhos. Em 02/04/1991 fui contemplado com o Prêmio Jerônymo Monteiro pela Isaac Asimov Magazine (Editora Record) com a história Como a Neve de Maio, publicada na edição nº 12, o que representou um estímulo fabuloso. Todavia, com o passar do tempo, o ânimo feneceu e as ideias minguaram, fui absorvido por problemas cotidianos, mudei de cidade e, quando me dei conta, havia deixado de escrever por mais de duas décadas. Mas a sementinha teimosa hibernou e persistiu. Até o momento em que, em meados de 2018, vi o anúncio de um concurso de contos de ficção científica, intitulado Os Viajantes do Tempo, promovido pela revista digital Conexão Literatura e resolvi participar. Não estava inspirado a compor algo novo, contudo, tinha uma história engavetada, chamada Abismo do Tempo, que, talvez, pudesse se encaixar no tema. Reli, dei uma cinzelada, enviei… e esqueci. Continuei a tocar a vida, mas não é que, pouco tempo depois, soube que, ao lado da autora Maria Mattos, vencera o concurso? Isso representou um baita incentivo, um verdadeiro chacoalhão, uma ducha de água fria! Abismo do Tempo foi publicada na edição nº 37 da revista e, desde então, colaboro ininterruptamente com a mesma. A alegria em participar é minha, pois — digo e repito — se voltei a escrever, foi por causa da mesma e de seu editor, Ademir Pascale, pelo que sempre serei grato. Atualmente, além da Conexão Literatura, colaboro com a revista digital LiteraLivre, de Ana Rosenrot (e de uma ou outra de modo esparso). Como ambas são disponibilizadas de graça pela Internet, contribuir com elas, além da satisfação de ver os textos em suas páginas, significa a possibilidade de tê-los divulgados de uma maneira muito mais ampla do que a oferecida pelas antologias em livro físico. Ademais, há a certeza de fazer parte de projetos culturais os quais engrandecem o país.

Revista Conexão Literatura: Em sua carreira, há prêmios importantes e obras variadas, como Pequenas Portas do Eu e Imerso nas Sombras. Poderia comentar?

Roberto Schima: Não sei bem se posso chamar de “carreira”, pois escrever é para mim, antes de tudo, um prazer. Nessa altura da vida, não nutro expectativas maiores além disso, o que, aliás, no mundo onde vivemos, chega a ser um luxo… Com relação aos prêmios, acabei discorrendo sobre eles na resposta anterior. Embora possa surpreender, eu não sou fã de concursos, e, claro, já fui reprovado em alguns deles. No entanto, sou o primeiro a reconhecer a relevância deles enquanto estímulo ao vencedor. É como o espinafre para o Popeye (A “criançada” não sabe quem é? Consultem o Google!). Mas, igualmente, se perder, pode significar uma frustração que eu, dentro de minha insegurança, prefiro evitar. Pequenas Portas do Eu foi o livro primogênito, lançado numa época em que a informática engatinhava e a Internet sequer existia. Tem inúmeras falhas de conteúdo, incluindo gramaticais, e, apesar de hoje vê-lo com reservas, há também um apelo sentimental bastante forte. A seu tempo foi muito importante para mim e, na verdade, sempre será. Em 2013, descobri as plataformas de autopublicação Agbook e Clube de Autores e, por meio deles, lancei o livro Limbographia. A ele seguiram-se: O Olhar de Hirosaki, Sob as Folhas do Ocaso, Cinza no Céu, Era uma Vez um Outono e Vozes e Ecos. Algumas noveletas como Os Fantasmas de Vênus, O Maníaco da Zona Leste, A Solidão de uma Rainha, Caçada no Planeta Duplo e Tio Vampiro tiveram edições próprias (ainda que constassem nas antologias anteriores), a maioria na forma de livro de bolso. E lancei três antologias temáticas: Através do Abismo (contos de ficção científica), Imerso nas Sombras e Profundo, Frio e Escuro (estes dois últimos de contos sobrenaturais). Também tive lançamentos em outras plataformas: UICLAP, PerSe e Amazon. O maior atrativo delas, é o ônus zero para o autor. Infelizmente, no meu caso, por se tratarem de lançamentos solos — e eu precisei ser autor, diagramador, revisor, ilustrador e capista, com tudo o que de bom e mal há nisso —, despertaram pouco interesse. Melhor resultado obtive com as antologias no sentido de divulgar as histórias e — Ulalá! — até ser lido.

Revista Conexão Literatura: Considerando seu contato com tantas formas de narrativa — contos, romances, antologias — qual formato você acha que mais potencializa sua criatividade?

Roberto Schima: Sem dúvida dou-me melhor com os contos, e é assim que me defino, um contista, na falta de algo melhor e por mais que eu deteste rótulos. Reluto e não me vejo com o título de “escritor” o qual eu reservo para os medalhões na área. Já escrevi um romance — O Olhar de Hirosaki —, algumas noveletas, crônicas e até compus uns versinhos (sem nunca me achar um poeta). Prefiro dizer que sou apenas um cara que gosta de escrever. Ah, aproveitando a deixa, cito alguns contos que escrevi que também abordam o mar e foram publicados na revista Conexão Literatura[1]: Onde o Tempo Deixou de Existir (edição 57), A Melodia das Marés (58), De Volta para Casa (75), Das Profundezas do Mar (82), Núcleo Incandescente (85), O Faroleiro (114) e Aquela Noite Entre o Mar e as Estrelas (121). Teve ainda a crônica Antes do Sol Raiar, na antologia Poemas Marítimos[2], Selo Conexão Literatura.

Revista Conexão Literatura: Para encerrar, que mensagem você gostaria que o leitor levasse consigo após ler as páginas de A Voz do Oceano?

Roberto Schima: Usando um clichê pra lá de batido, os oceanos são, literalmente, o berço da vida. Foi deles que ela surgiu. Alimentamo-nos de seus frutos. Vivemos graças ao oxigênio neles produzido. Através deles viajamos e extraímos recursos. São fontes imorredouras de prazer, fascínio e conhecimento. Entretanto, ao contrário do que antigamente se dizia, não são inesgotáveis, tampouco invulneráveis. Que ao término da leitura de A Voz do Oceano, as pessoas possam compartilhar de meu apreço por esse maravilhoso universo que é o reino das águas, e que possamos tratá-lo com respeito, humildade e admiração. Apenas parem e ouçam o eterno marulhar, o grasnar das gaivotas, o farfalhar dos coqueiros e o reverberar no interior das conchas. Vejam a pescaria paciente das garças, o Sol dourar o horizonte, a coragem indignada dos siris, o nascer silencioso das estrelas e a Lua refletir prata na inquieta superfície. Sintam a areia macia escoar entre os dedos, a espuma gelada lamber os seus pés e o fustigar do vento vindo de longe. Deixem-se, assim, seduzir pela voz do oceano e, diante do seu embalo, torná-la parte de si, senão de verdade, ao menos em seus sonhos.


[1] https://revistaconexaoliteratura.com.br/edicoes-da-revista/

[2] https://www.divulgalivros.org/

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