Cristina Aldenora é Psicóloga Clínica desde 2001, com especialidade avançada em Psicoterapia. Membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses e Sócia Efectiva da Sociedade Portuguesa de Psicodrama. Apaixonada por estudar, a sua formação abrange áreas diversas como o Psicodrama Moreano, a Bioética, a Acupuntura.
A sua participação em vários retiros de treino da mente orientados por Monges Budistas Tibetanos, marcou profundamente sua visão de vida, ensinando-a que de nada nos serve uma mente brilhante se não soubermos sentir o coração.
Hoje, Cristina ajuda outras pessoas a descobrirem sua própria voz, libertando-se do que as esgota e cultivando uma vida mais criativa, autêntica e alinhada com o que escolhem SER.

ENTREVISTA:

Conexão Literatura: Poderia contar para os nossos leitores como foi o seu início no meio literário?

Cristina Aldenora: Meu início no universo da escrita literária não teve um plano — teve um despertar.
Durante um período de férias no Algarve, em Portugal, tirei um tempo, como de costume, para refletir sobre os passos que queria dar no ano seguinte. Eu vinha tentando perceber o que faria a seguir — mais consultas, algum novo curso, talvez outro projeto. Mas, no fundo, eu já intuía que não queria apenas fazer mais uma coisa — eu precisava que o ser estivesse presente no que eu fizesse.
Foi nesse contexto que, numa manhã de bicicleta pela Ria Formosa com meu marido, cruzamos com um ciclista espanhol que fazia o percurso da EuroVelo. Pedalamos juntos por cerca de 30 quilômetros, e no final, ele nos presenteou com uma pulseira que dizia: “O caminho é a meta.”
Essa frase me atravessou. Foi como se o universo me perguntasse: “Você está mesmo trilhando o seu caminho? Ou está apenas girando em círculos, ocupando-se com mais alguma coisa?”
Poucos dias depois, voltando ao Porto, partilhei essa história com uma amiga durante um passeio de bicicleta, e ela disse: “Cris, você devia escrever um livro. Mas não um livro qualquer… um livro que a gente também pudesse escrever junto com você.”


Aquela semente ficou. E foi germinando. Participei de uma oficina de escrita com Pedro Chagas Freitas, mergulhei num processo criativo que já pulsava em mim há algum tempo — e o livro nasceu.
Não nasceu da técnica. Nasceu da escuta. Da coragem de parar e permitir que algo verdadeiro emergisse. Escrever foi a coragem de me escolher. Um reencontro comigo mesma — e um convite para que outros também se reencontrem.
Então, posso dizer que meu começo na literatura foi, na verdade, um retorno. Um retorno para casa. Para dentro.

Conexão Literatura: Você é coautora do livro “Prazer em Escrever” Guia para escritores iniciantes” e do livro “Quanto tempo vais aguentar longe de Ti? Volta para ti “, poderia comentar?

Cristina Aldenora: Esses dois livros são, para mim, como espelhos. Não porque tragam verdades absolutas, mas porque convidam o leitor a se ver com mais profundidade — e, às vezes, com mais ternura também.
O primeiro, “Quanto tempo vais aguentar longe de ti?”, nasceu de uma inquietação que já morava em mim havia algum tempo — e que eu também percebia no mundo à minha volta: o foco excessivo no fazer. Uma mente conectada às obrigações, ao stress, à ansiedade, ao esgotamento. Quando recebi, de forma inesperada, uma pulseira com a frase “O caminho é a meta”, algo em mim despertou. Recordei uma verdade que sabia mas que me tinha esquecido. Entendi que mais do que correr atrás de algo, o que eu realmente precisava era voltar para dentro. Esse livro é justamente esse convite: uma travessia da mente para o coração, do fazer automático para o ser presente.
Já o “Volta para ti” veio como uma continuação natural dessa jornada. Um aprofundamento. Um lembrete de que reconectar-se com a própria verdade exige coragem. E que escolher-se não é um ato de egoísmo — é o primeiro passo para viver com autenticidade e responsabilidade pelo tempo de vida. Foi a partir dessa vivência que criei o Método VOA, que ajuda o leitor a fazer seu próprio caminho em direção a uma vida mais leve, verdadeira e com sentido.
Cada um desses livros nasceu num momento de escuta. E o Prazer em Escrever foi, para mim, uma celebração dessa escuta transformada em palavras. Escrever me deu coragem para me escolher e, sobretudo, a sensação de que me encontrei com o tempo. Cada palavra foi escrita com intenção de tocar — não de ensinar.
Minha vontade é que cada leitor possa despertar em si a sua própria sabedoria interior — lembrando que a vida agitada, muitas vezes, não permite a escuta.

Conexão Literatura: Como é o seu processo de criação? Quais são as suas inspirações?

Cristina Aldenora: Meu processo de criação é muito orgânico… e muito vivo. Ele não acontece num horário fixo ou num lugar pré-definido. Ele acontece quando a vida me chama, não começa quando me sento para escrever. Começa muito antes. Começa quando algo me toca — uma conversa, uma paisagem, uma inquietação. Escrever, para mim, é escutar o invisível. É dar forma a uma sensação que ainda não tem nome. Muitas vezes, tudo começa com uma pergunta daquelas que incomodam de forma suave, mas persistente. Outras vezes, é uma metáfora, uma imagem que surge e me conduz.
Minhas maiores inspirações são a natureza, os ciclos, o silêncio, o comportamento humano, a espiritualidade, os encontros — e tudo o que ainda me falta compreender em mim. As histórias reais com as quais me cruzo — nas consultas ou na vida — também me atravessam profundamente.
Escrevo porque estou em travessia. Porque também estou tentando entender. Não escrevo para ensinar. Escrevo para iluminar o caminho que eu mesma estou percorrendo. Escrever, pra mim, é um retorno — um lugar onde posso ser inteira. Sem pressa.

Conexão Literatura: Poderia destacar um trecho dos seus livros especialmente para os nossos leitores?

Cristina Aldenora:
Trecho:
“De nada adianta ter uma mente brilhante se não souberes sentir o teu coração.”

Esse é, talvez, o coração do livro. Sempre fui muito mental — organizada, focada, comprometida com tudo, a tentar ser perfeita. Mas o que me faltava era coragem para escutar o que o meu coração já sabia.
Essa frase nasceu num momento de exaustão silenciosa. Um dia em que percebi que fazia tudo “certo”, mas sentia muito pouco de verdade. Quando escrevi isso, foi como um lembrete: a inteligência emocional é também permitir-se sentir. Sentir sem culpa. Sentir com presença. E permitir-nos partilhar o que está vivo dentro de nós.

“O tamanho do desafio não importa para os que vivem com calma.”

Essa frase resume a essência do Método VOA. Porque muitas vezes não é o desafio que nos consome — é a forma como estamos nele. E se aprendermos a caminhar com mais calma, com mais alinhamento entre o que sentimos e o que fazemos, o caminho transforma-se.
Viver com calma não é viver devagar, é viver com verdade. Com presença, com confiança absoluta no processo da vida. É viver com vontade de renovação constante.

“Quanto tempo vais aguentar longe de ti?”

Essa pergunta não é só o título do livro. É uma pergunta que eu mesma me fiz. E que hoje faço a quem me lê.
Porque muitas vezes vivemos tão desconectados da gente… que já nem percebemos que estamos longe. Longe da nossa verdade, da nossa alegria, dos nossos sonhos e do que importa para nós. E essa distância dói — mesmo quando tudo parece estar bem por fora. Mesmo quando parece que construímos uma vida perfeita e conquistamos o que era esperado para ser feliz.
Esse trecho é um convite. Para parar. Respirar. E voltar. Voltar pra si, com gentileza, com coragem, e com amor.

Conexão Literatura: Como o leitor interessado deve proceder para adquirir os seus livros e saber um pouco mais sobre você e o seu trabalho literário?

Cristina Aldenora: No Instagram (@cristinaaldenorapsicologa), partilho conteúdos quase todos os dias: reflexões sobre burnout, vídeos que trazem calma, pequenos trechos do livro lidos com o coração.
Também tenho uma newsletter onde escrevo como se fosse uma carta — íntima, lenta, com cheiro de café passado. E há um webinar no site, para quem quiser escutar mais fundo e entender de onde tudo isso nasceu.
É mais do que um livro. É um caminho de volta para si.”

Pode me encontrar nas redes sociais @cristinaaldenorapsicologa

Youtube: cristinaaldenora e LinkedIn Cristina Aldenora

www.cristinaaldenorapsicologa.pt

Quanto tempo vais aguentar longe de ti? Busca na Livraria Ipê das Letras https://share.google/zEowoxpqLXW6Xzgs9

Conexão Literatura: Como você analisa a questão da leitura em Portugal?

Cristina Aldenora: “Portugal tem uma relação antiga com os livros — mas nem sempre tem tempo para os abrir.
Cresci ouvindo que ler era importante. Mas também vi muita gente à minha volta dizer: ‘Depois eu leio’, ‘Agora não dá’, ‘Quando tiver tempo’. E o tempo nunca vem.
O que percebo é que há um cansaço generalizado que impede que as pessoas leiam com calma. Por isso, quando escrevi o meu livro, pensei muito nisso: como criar uma leitura que não exija pressa, nem obrigação? Que possa ser feita de forma sensível, aos poucos, como quem conversa com alguém que escuta de verdade.
A leitura em Portugal precisa de mais permissão emocional. E é isso que tento oferecer, quando convido o leitor a responder a algumas perguntas e ficar um minuto mais consciente com pequenas pausas de reflexão e meditação.

Conexão Literatura: Existem novos projetos em pauta?

Cristina Aldenora: Sim, há novos projetos… ou melhor, movimentos. Porque às vezes, os projetos começam por dentro, em silêncio, antes de se tornarem algo visível.
Depois do livro, nasceu em mim uma vontade de criar mais do que palavras no papel — espaços vivos. Espaços onde possamos não só ler, mas sentir. Respirar juntas. Pausar.
Por isso, estou a preparar uma série de círculos de escuta online, com partilhas guiadas, meditações e exercícios inspirados no Método VOA. São encontros pensados para quem quer aprofundar o reencontro consigo mesma, com leveza e verdade.
E há uma nova escrita a crescer… talvez um novo livro, talvez uma continuação simbólica do primeiro. Mas sem pressa.
A minha prioridade é que cada projeto que nasça… tenha alma.”

Perguntas rápidas:

Um livro: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Porque devolveu-me o instinto e o ritmo do meu feminino.

Um ator ou atriz: Viola Davis. Pela forma como ela entrega tudo, com dignidade e dor misturadas. Ela tem uma verdade que me emociona.

Um filme: Tão diferentes quanto eu

Um hobby: velejar

Um dia especial: Aquele passeio de bicicleta em que recebi a pulseira com a frase “O caminho é a meta”.

Conexão Literatura: Deseja encerrar com mais algum comentário?

Cristina Aldenora: Acredito que a escrita é uma forma de cuidar — de mim, do outro, do mundo. Com esse livro, quis criar um espaço de pausa, de reencontro e de verdade. Se cada leitor terminar a leitura com mais vontade de voltar para si e viver com mais autenticidade, então já terá valido a pena.
Agradeço imensamente à Conexão Literatura pelo convite e pelo espaço tão generoso para compartilhar um pouco dessa jornada. E a você que está lendo: que a vida te devolva ao seu centro sempre que você se perder. Porque voltar pra si… é sempre possível.

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